terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Dóris quase foi sequestrada




Dóris como marido de aluguel
Marcus Vinicius Batista

Dóris é uma mulher independente, daquelas que não dá satisfação a ninguém. Não revela o sobrenome (muitos acreditam que não possua um), a idade é incerta, mas a beleza permanece intocável. Ruiva, nunca deixa o cabelo crescer, que valoriza o rosto sem rugas e ressalta os olhos azuis. Não tem frescuras com maquiagem. No máximo, um batom vermelho para ganhar o mundo.

Dóris é o símbolo da diversidade que povoa o Café Teatro Rolidei, sede do projeto TamTam, em Santos. Ela não possui braços e pernas, mas a simpatia e o olhar enigmático fazem com que muitos se afeiçoem a ela e a convidem para um passeio. Suas amizades não podem ser medidas por classes sociais, escolaridade ou conta bancária. Só há uma exigência: que a tragam de volta para casa, no Teatro Municipal.

Quando a conheci, usava um vestido vermelho. O chapéu da mesma cor e a echarpe laranja a transportavam para 50 anos no passado. Quando perguntei o que estava vestindo, Claudia Alonso se antecipou: “Ela está colorida e vestida de alegria e felicidade.”

A data de mudança de Dóris para o Café Teatro Rolidei é um mistério. Sua origem é igualmente desconhecida. O nome dela foi inspirado no filme “Conduzindo Miss Daisy”. No caso do TamTam, “Conduzindo Miss Dóris” significa o compromisso de levá-la para o mundo e, segundo Claudia, “pagar o mico de andar com ela em público”.

Saúde faz parte da receita de ser bela

Dóris, um manequim de loja, já esteve em consultório dentário, residências de vários tipos e bairros diferentes e até fez compras na rua 25 de março, em São Paulo. Não se sabe se ela gosta de futebol, mas vestiu outro dia uma camisa do Corinthians. Ganhou, de um fã, uma calcinha com o símbolo do clube da Capital.

A manequim pode ser levada por qualquer pessoa, desde que o “novo amigo” se comprometa a registrar os passeios e devolvê-la para o Café Teatro Rolidei. Todas as imagens ficam guardadas em um álbum de capa preta e protegidas por plásticos. São as provas de que Dóris gasta muita sola de sapato sem jamais ter usado um.

No calor infernal, sem perder a pose

Muitas das fotos são selfies, antes mesmo da expressão inglesa ter sido inventada, registrada no Dicionário Oxford e propagada nas redes sociais. Até montagens são feitas com a moça, nas quais ela é premiada com braços e pernas.

"Sequestro" - No final de 2013, Dóris e o pessoal do projeto Tam Tam passaram por um susto. A manequim chegou a ser dada como desaparecida. Ela foi levada para Cubatão e seu acompanhante não a trouxe de volta. Sequer atendia aos telefonemas dos integrantes do grupo teatral. Ela e seu novo companheiro.

Uma mulher eclética

O retorno da manequim aconteceu no começo de 2014. Sem ferimentos, pedido de resgate ou envolvimento da polícia, Dóris voltou a morar no Café Teatro Rolidei. Quando a conheci, estava elegante e pronta para uma nova viagem.

Abaixo, a definição de Dóris, na visão de seu pai:

“Um mictório, um urso de pelúcia caolho. Um manequim sem membros, expulso, esquecido, encontrado no lixo. Dóris é um símbolo. A arte sem destino contida no homens que circulam em busca da identidade perdida. Dóris foi re-adaptada, foi recuperada. Dóris recuperou nosso cuidar! Dóris contém todas as dores e todos os nossos risos! Por isso, tem que saber cuidar! Dóris é mais que um amigo, é mais que uma terapia ambulante. Dóris é mais que a justificativa para a solidão contemporânea! Muito prazer: ela é assim!" (Renato Di Renzo)


Nenhum comentário: