segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Amigos




Marcus Vinicius Batista

Final de ano exala cheiro de balanço. Não me agrada este tipo de contabilidade, mas parece que, com a idade, aprendi a necessidade de fazê-lo, mais para purificar a mim mesmo do que acertar as contas. Essas exigem olho no olho, além da capacidade de qualquer texto.

Nada de exibir façanhas, computar vitórias e erros. Aqui, falemos de pessoas, de gente que ministra aulas cotidianas de convivência. Não é uma lista dos dez mais, ranking dos notáveis ou compêndio dos eleitos. É uma forma de reconhecimento e gratidão, moedas caras num mundo no qual muitos humanos começam a se ausentar.

Meus melhores amigos voltaram, a quem amo na fronteira da dor física desde que nasceram. Mari e Vini retornaram à casa de quem sempre será de direito afetivo. A pena, de dois anos, terminou. Saudades que podem ser remediadas, eu te saúdo!

Perdi amigos. Wagner, o cinegrafista/jornalista que enxergava gente por várias dimensões. Valdir, o companheiro de peladas que me elogiava por ser um adversário difícil e contava histórias de cachimbo na boca. Paulinho, ainda acho que vou te encontrar na banca, para conversas de minutos que parecem e valem por dias.

Vi amigos perderem por injustiça da burocracia desumanizada (é redundante, eu sei, mas aposto na ênfase). André, meu irmão, e André, meu amigo poeta, vocês estarão no lugar onde a competência os chama de parceira. A literatura é a arma. Não existe sorte. Existe decência e postura, impregnadas naquilo que fazem.

Tenho saudades de amigos que a quilometragem teima em tentar afastar. Gazú, Léo e Syl, amigos de décadas, de fato ou por simbolismo, a tecnologia está entre nós para não coloquemos o mapa do Brasil entre a gente. Vamos usar e abusar dos simulacros.

Fiquei mais perto de amigos que um dia estiveram sentados à minha frente, para ouvir, dialogar, aprender e também me ensinar. Cidinha e Thaís, semelhantes na generosidade além do tamanho diminuto. Grandeza não se mede em centímetros corpóreos, mas em polegadas de ações e conversas verdadeiras.

Cultivo, na medida do possível, amigos que só fazem semear e me permitir colher o fruto no ponto. Ewa, conhecedora de todos os (meus) cantos entre as vias que interligam coração, alma e cérebro, das lineares as que se escondem atrás dos arbustos. Celi, precisa na escolha da hora em estar por perto, ouvidos enormes, conversas de duração biográfica. 


Lauro e Português, homens de mesma idade, filhos da mesma geração, presentes para dar a mão quando minhas mãos e as de Beth não conseguem carregar um desejo, um sonho, uma realização.

Descobri sem procurar – e aí reside o prazer da surpresa, a alegria da contemplação – amigos de pouca data, mas de riqueza e antiguidade museológicas. Cid, saímos da missa para entrar na história um do outro. Júnior e Renata, professores com diploma na parede ou não, as aulas são sempre regadas pela mineirice doce de um pão de queijo com sabor de causo.

A crônica nasce para contar um instante, para esmiuçar uma página, nos detalhes de uma foto 3X4, com suas rugas e feições únicas. Assim, repito, não é lista, é um panorama breve, construído numa madrugada de insônia sentimental. Sabemos onde o calo cutuca, o sorriso brota e a lágrima escorre. Você que lê, sinta-se também abraçado.

Não posso reclamar de 2016. Se o fiz, foi para ser coerente com a cultura da qual faço parte. 2016 trancou 2015 no baú para salvar as experiências, mas jogou a chave fora.

Em 2016, amei muito, viajei como nunca, escrevi bastante, li mais ainda, cheguei a endereços essenciais, mudei para um endereço jamais visto com quem é vital para mim. Vivi como poucos anos. Convivi melhor do que os calendários anteriores.

O problema é que, por inerência, sou um sujeito falível. Para 2017, uma resolução de réveillon, mais para cara de primeira do que única: me aproximar do meu amigo mais antigo, aquele que inoculou em mim qualidades e defeitos. O amigo que, como todos demais deste texto, é exemplo. O primeiro a dar exemplo.


Um comentário:

Cidinha Santos disse...

Marcus seu carinho e generosidade São sempre surpreendentes. Amar você, Beth, Mari e Vini é muito fácil. Os amigos que construímos e nos apresentamos também são incríveis! Muito grata por tudo é sempre!