quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Toninho Dantas, o agitador cultural




Marcus Vinicius Batista

Plínio Marcos o chamava carinhosamente de “agitador cultural”, título reproduzido por muitas personalidades quando falavam dele. O produtor Toninho Dantas, um dos sujeitos mais importantes do cenário cultural da Baixada Santista, morreu em 14 de maio de 2010, aos 62 anos. 

Ele foi encontrado por dois amigos no próprio apartamento, às 19h30 de uma sexta-feira, depois de faltar a uma reunião do Festival Santista de Curtas-metragens, o Curta Santos. Toninho era o idealizador e coordenador do evento. Segundo depoimentos de amigos e colegas de trabalho, Toninho estava doente. Teria que fazer um transplante de fígado. 

Pouco conversei com ele. Fiz somente entrevistas breves. Conheci somente a figura pública e passei a admirá-lo por enfrentar preconceitos e insistir em produzir cultura numa região marcada pelo conservadorismo e pela ausência de políticas públicas profundas e de longo prazo para o setor.

Toninho sabia como lidar com as brechas do círculo vicioso da política e conseguia manter a coerência em organizar eventos de várias manifestações culturais. 

Toninho Dantas me pareceu diferente à primeira vista. Um sujeito de barba grisalha comprida, cabelos bagunçados, vestido sem grandes preocupações estéticas. Corria como um menino pelo Teatro Municipal para verificar cada detalhe do Festival Santista de Teatro Amador, tradicional reunião da classe teatral da cidade. 

Ele comandou o Festa por cinco anos, período em que encontrou as vacas gordas, mas – principalmente – conviveu com as magérrimas. O Festa só vivia com folgas em ano de eleição, época em que os caras-de-pau de paletó se lembram de que a cultura move e reflete o ser humano. E pode render votos. 



Toninho Dantas talvez fosse considerado um empreendedor pelo mundo corporativo se tivesse ares de intelectual e vestisse terno e gravata. Mas “agitador cultural” cabia melhor a ele. Ele se reinventava para sobreviver no meio. Usava de influência e experiência para manter o litoral no mapa, com recursos curtos e desinteresse de quem tem o dinheiro. 

Toninho era um artista múltiplo. Transitou por várias artes, sempre preocupado com o engajamento social. A mão dele acendia a chama do ser humano como animal político e cultural. Apoiava a arte como mecanismo de virada contra as convenções sociais, ainda que a seu modo, ainda que colecionasse desafetos. É possível não gostar dele – diriam muitos -, mas não se pode minimizar o papel que exerceu na cultura local contemporânea. 

Nascido em Guarujá, ele estudou na Escola de Arte Dramática, na USP, trabalhou em emissoras de TV. Como ator, participou do grupo teatral de Antunes Filho, em São Paulo. Depois, percebeu que sua área era a produção cultural. Além de cinema e teatro, Toninho produziu festivais de música. 

A morte dele empobreceu a cultura da região e, ao mesmo tempo, criou um peso para os profissionais do meio. Perdeu-se um sujeito que conviveu com visionários, absorveu ideias, fez a digestão adequada e as aplicou aqui, muitas vezes sem qualquer tipo de bônus. 

A ausência dele aumentou a responsabilidade sobre o Curta Santos, festival consolidado, atraente para várias gerações de amantes e produtores de cinema. A porta de entrada para muitos sonhos de garotos que ainda creem na velha máxima da “câmera na mão e uma ideia na cabeça”, mesmo que no sentido simbólico de romantismo. 

Toninho recebeu múltiplas homenagens, inclusive do próprio Curta Santos. O mais importante é que reconhecido por aqueles que ainda tem nas veias a esperança de que a cultura local pode ser disseminada em todos os espaços e para todas as classes sociais. 

Que o Curta Santos e o Festa vivam de forma alegre, pulsante, transgressora e contestadora. Assim seria o desejo (ou melhor, a prática) do velho agitador cultural, amigo e discípulo de Plínio Marcos. Claro que Toninho Dantas não prepararia uma festa para si mesmo, mas para a cultura caiçara.

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