sábado, 19 de novembro de 2016

Porra, Parra!






Marcus Vinicius Batista

Não sou muito de dançar. Poderia alegar falta de tempo, dificuldades econômicas ou quaisquer outras desculpas de ordem social ou até biológica (pés tortos, por exemplo). Finjo na pista de dança em casamentos, bodas de ouro e outras comemorações onde é possível se esconder no meio da multidão, dos óculos luminosos e dos vestidos que se usam uma vez na vida.

Mesmo sabendo disso, saí de casa com minha mulher Beth na noite daquela terça-feira. Mais do que ir a um bar com música ao vivo, eu retornaria ao Torto depois uma década, um endereço que me marcou em brasa durante a época como estudante universitário.

Mais do que entrar no Torto e dançar, todos poderíamos admirar – embasbacados – as escolhas musicais da Vitrolada, projeto de ressurreição e preservação musical do DJ Wagner Parra. Além de ouvir a música latino-americana, com temperos africanos, de Parra, todos participaríamos, em comunhão, da festa com o amigo Chico Marques, o convidado daquela noite.

A Vitrolada era assim. Comunitária, compartilhada, ideia eternamente em construção e improvisada, como devem ser os processos criativos. Wagner Parra sabia, na concepção e por princípios, que música é um ato coletivo. Acima de tudo, produzir música, difundi-la e pensá-la é um grito político, no qual a cultura dá o tom das cordas vocais.

Lembrar-me da Vitrolada é, ao mesmo tempo, prazer e melancolia. O prazer descrito nas linhas acima se mistura com a tristeza de quem vê uma cidade perder, pouco a pouco, pessoas relevantes. Não relevantes pelo poder político, eleitoral ou econômico. Importantes pelo que podem dizer, essenciais pela qualidade do que dizem, pouco me interessa a linguagem.

Wagner Parra era um sobrevivente cultural. Enfrentou as tempestades que efervesceram numa Santos mais politizada e se descobrindo pop. Percorreu a caatinga da miséria dos apoios aos produtores e fomentadores da cultura num município que sempre espera por uma galinha com ovos, só mudam as cores, do ouro verde em cifras ao petróleo sem gosto de sal.

Parra era um artista no limite da definição do termo. Eclético, mas de posições políticas públicas. Muitas vezes, não concordava com suas opiniões, mas o admirava pela capacidade de expô-las. Ele me transmitia a contradição que engrandece o humano, as ambiguidades que nos fazem possíveis.

Parra, de vez em quando, me soava impulsivo e até desorganizado. Isso acontecia quando eu assistia a seus vídeos, o Porra, Parra! Ali, era uma câmera nas mãos e ideias borbulhantes na cabeça, com o perdão do clichê.

Na Vitrolada, observava o músico centrado, disciplinado, de poucas concessões à indústria cultural mais selvagem e rasteira. O foco estava na difusão e fusão de ritmos que poderiam nos fornecer, a conta-gotas e a contragosto (e que precisamos tomar), ingredientes de formação musical; o lado B mesmo!

Conheci Parra à distância. Digo no sentido de entendê-lo melhor, de compreender suas fases da vida, de ouvir sua versão biográfica. No ano retrasado, o amigo André Azenha me pediu que escrevesse uma longa entrevista com o DJ, feita por ele. Agradeço pela oportunidade, pois pude – numa madrugada – ler e reler as palavras de alguém que colocava a cultura da minha cidade sob os holofotes, sem efeitos visuais ou maquiagem. Esta entrevista, depois editada pelo próprio Azenha, talvez seja a mais longa disponível sobre Wagner Parra.

Ironicamente, Parra iniciou sua despedida em seu segundo reino, o território que abre as fronteiras depois das 22 horas. Não foi no primeiro condado, onde vivia cercado de poros culturais, a Disqueria, ponto que visitei algumas vezes, a Serra Pelada onde garimpei pepitas literárias. Parra optou por dar o primeiro aceno no Torto Bar, sua esquina noturna, local em que fazia discursos duros, consistentes, mas flexíveis e tolerantes pela diversidade musical. Ali, passou mal. Enfartou.

Wagner Parra, só tenho a agradecer por me fazer dançar. Eu e todos os outros que mexem os pés, reais ou imaginários. Muito obrigado!

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