domingo, 20 de novembro de 2016

O maestro



Marcus Vinicius Batista

Vivemos numa era em que obra e criação se misturam. Existem personagens de vidas supostamente interessantes, que mascaram a mediocridade do próprio autor. Por outro lado, podemos ter a sensação de proximidade de pessoas coerentes e tão ricas como suas obras, unidas numa só perspectiva.

Penso em coerência e força quando reflito sobre Gilberto Mendes, falecido em janeiro. Seria presunção minha repetir adjetivos sobre a genialidade do maestro, bem melhor descrita por quem conviveu com ele ou que se tornou especialista em suas composições. Lia com muita atenção o que ele escrevia, usualmente reflexões contaminantes ou aulas sobre cultura.

Tive duas aulas com Gilberto Mendes, nenhuma delas formal, ambas inesquecíveis. A primeira aconteceu há cerca de 20 anos. Eu era um estudante de Jornalismo e estagiário numa emissora de TV. Mal entrei na redação e recebi a notícia do meu chefe: "Tom Jobim morreu! Precisamos entrevistar músicos importantes."

Decidimos ouvir Gil Nuno Vaz e Gilberto Mendes. Comecei pela casa do Gil Nuno, que se tornou meu professor na universidade e depois colega. No final da entrevista, ele reiterou que eu precisava conversar com o maestro. Na mesma tarde, fui ao apartamento dele. Nervoso, acreditava que ele descobriria rápido minha falta de conhecimento sobre música erudita. Tentaria camuflar pela MPB. E ouvir. Ouvir.

O apartamento de Gilberto Mendes me deixou embasbacado. Uma diversidade cultural que compunha a singeleza capaz de demolir o falso glamour que se constrói - muitas vezes à revelia deles - em torno dos grandes mestres. O maestro era um sábio, não pelas centenas de quilômetros de informações, experiências e histórias, mas pela habilidade em dispensar supérfluos, irrelevâncias. 

Foi uma conversa agradável de uma hora, com relatos de encontros com Tom e explicações detalhadas sobre a força dele no universo musical. Gilberto Mendes, claro, foi educado o suficiente para fingir que não conversava com um garoto curioso, mas despreparado.

A segunda aula aconteceu 20 anos depois. Teatro Guarani lotado. Umas 200 testemunhas que - sem querer - provocaram uma ansiedade acima da média no mediador do encontro entre Gilberto Mendes e José Miguel Wisnik. Era uma mesa da Tarrafa Literária, dedicada à literatura e música.

Estudei por uma semana. Textos, essencialmente. Tinha que ser como juiz de futebol, sujeito que só aparece quando atrapalha. A missão era estimular uma conversa entre os dois, tarefa fácil diante dos interlocutores. A tarde, pelo que ouvi, correu bem.

Sempre encontrava Gilberto Mendes em eventos culturais, de lançamentos de revistas a palestras. Sempre mantive distância, com a sensação de que poderia incomodá-lo ou falar alguma bobagem. Ficava por perto para ouvi-lo. Era mais inteligente, sem falsa modéstia.

O curioso é que levei tempo para me dar conta de um detalhe. Ouvir Gilberto Mendes, no camarim e no palco do Teatro Guarani, foi um presente. Ainda mais porque era meu aniversário de 40 anos naquele 25 de setembro de 2014. Maestro, obrigado e siga em paz!!!

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