quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O amor nasce nos neurônios






Marcus Vinicius Batista

Não sentia, há algum tempo, uma sensação contraditória diante de um livro. Acabei de ler Sempre em Movimento, autobiografia do neurologista Oliver Sacks. Ganhei a obra de aniversário e passeei pelas 350 páginas em menos de uma semana. Ao longo do trajeto, sentia uma necessidade de avançar na leitura – o livro foi meu companheiro de insônia e de ônibus, entre outros intervalos -, ao mesmo tempo que me incomodava o fato do final do texto se aproximar de mim.

O livro foi publicado no Brasil pouco antes da morte de Sacks, em agosto de 2015, vítima de câncer, aos 82 anos. Ele publicou uma carta tocante falando da própria morte, em fevereiro, no jornal The New York Times.

Conheci o médico por meio do cinema, quando assisti à Tempo de Despertar, filme estrelado por Robin Willians e Robert de Niro, em 1990. O primeiro interpretava Sacks, enquanto De Niro fazia um sujeito que acorda da catatonia depois de mais de 30 anos. Nos anos 70, houve um documentário de mesmo nome, exibido na TV somente uma vez, a pedido dos pacientes.

A história, publicada em livro escrito pelo neurologista, foi ignorada inicialmente pela comunidade médica. Sacks conseguiu por meio do uso de L-Dopa tirar dezenas de pacientes do estado catatônico, num hospital em Boston, e dar a eles, por meses, uma vida ativa.

É evidente que uma autobiografia carrega a tendência em esconder certos aspectos da vida do autor ou ir ao outro extremo, aumentando os feitos da mesma pessoa. Apenas posso dizer que Sacks, além de escrever bem, fato comprovado em uma dúzia de livros com relatos médicos e de pacientes, como Um antropólogo em Marte e O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, teve uma trajetória bastante interessante e, ao mesmo tempo, solitária.

Nascido na Inglaterra, Oliver Sacks enfrentou a reação negativa da mãe – e a omissão do pai – diante da homossexualidade. A mãe chegou a dizer que o filho era “uma abominação”. O tema sempre foi difícil para ele. Primeiro, porque a Inglaterra, até os anos 80, considerava crime a relação homossexual.

Segundo, pelos poucos relacionamentos e a opção por uma vida sozinho. Sacks chegou a ficar 35 anos – entre os 40 e 75 anos – sem um relacionamento amoroso.

Os problemas familiares incluíam a relação difícil com um dos irmãos, Michael, que sofria de esquizofrenia. O pacote familiar o fez se mudar para os Estados Unidos assim que se formou em Medicina, na Universidade de Oxford. Uma culpa que Oliver Sacks tentaria equacionar mais maduro.

O livro também traz a face cosmopolita do médico, inicialmente um pesquisador de má qualidade, depois um clínico sensível e defensor da aproximação entre psiquiatria e neurologia. Sacks, um sujeito apaixonado por motocicletas, encontrou seu caminho na Califórnia e depois em Nova Iorque.

Sempre em Movimento também me interessou por trazer os bastidores dos livros que o consagraram como escritor. Sacks era obcecado por escrever, a ponto de possuir centenas de cadernos que serviram como diários, seja de viagens, do cotidiano, do processo criativo e das relações com os pacientes.

Independentemente das várias faces de Sacks, o que mais admirava nele era a capacidade de se inquietar. Ele foi capaz de reconhecer erros, de procurar novas saídas para tratamentos, de rever sempre o olhar humano sobre os pacientes e, principalmente, sobre a prática da medicina. Compartilhava experiências com outros médicos, poetas, artistas e cientistas de outras áreas. Todos, na visão do neurologista, poderiam ajudá-lo a entender os porquês das ações de seus pacientes.

Oliver Sacks era, como os melhores costumam ser, um homem multidisciplinar e interdisciplinar. Mesclava arte e ciência com naturalidade. Percebia e defendia a necessidade de se associar biologia e comportamento para a compreensão de uma enfermidade neurológica. Transitava entre a literatura científica e de divulgação para o grande público, em jornais, revistas e – claro – nos livros. A autobiografia dele é o 13º obra publicada no Brasil.

Sempre em Movimento talvez seja o melhor livro que devorei em 2015. Um texto com fluidez incomum, que dá a sensação de estar sentado ao lado do autor, ouvindo-o relatar mais um caso médico como se fosse um romance.

No momento, estou lendo Um antropólogo em Marte. Quem sabe o julgamento mude ainda este ano?