quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Meu quintal de livros

Biblioteca do Sesc-Santos. Foto: Instituto Querô



Marcus Vinicius Batista

Enquanto minha esposa Beth estava internada, carregava Mari e Vini, para todos os cantos. Meus filhos estavam de férias e precisava aproveitar o tempo com eles, fora dos horários de visita ao hospital. A dupla se transformou em quarteto, com minha sobrinha Rafaella e a prima dela, Yasmin, engordando a trupe.

Num final de tarde chuvoso, entramos no Sesc, o meu Parque do Ibirapuera. Não é a mesma válvula de escape dos paulistanos, que provavelmente possuem outra compreensão da praia, lugar onde não preciso ir para senti-la. O Sesc e sua estrutura de concreto são a ironia em si. Uma armação que representa o mundo urbanoide para nos tirar dele assim que subimos a rampa ou as escadas da rua Vergueiro Steidel.

Não passo uma semana sem visitá-lo. O Sesc me acolhe para o almoço, com preços abaixo do mercado e comida mais saudável; me convida para peças nem sempre comerciais, mas tão ou mais profundas; me concede suas águas clorificadas para que eu e minha mulher nos esqueçamos da Somália caiçara; diverte meus filhos no parque ou nas quadras. Ali, encontro alunos, ex-alunos, colegas e minha amiga Larissa, que trabalha no teatro e nos acompanha em intervalos para um café e um pedaço de bolo.

Naquele dia chuvoso de julho, descobri – com o tempo que os livros merecem - um oásis dentro do verde acinzentado do Ibirapuera. A biblioteca que fica no primeiro piso hoje é meu quintal. É onde me divirto e me desligo do mundo. São quatro estantes no meio do andar e me causa estranheza ver pessoas passando pelos lados sem parar e observar os livros. Não consigo atravessar o andar sem que um imã me puxe para as estantes. Pouco importa se tenho um livro em mãos ou se já atingi o limite de duas obras por associado.

Naquele dia chuvoso de julho, vi o milagre da multiplicação das letras. Apenas vi, sem dizer palavra. Em cinco minutos, Mariana lia um livro. Rafaella e Yasmin folheavam e devoravam suas revistas. Vini, conhecendo as primeiras letras, imaginava-se junto com o Capitão América.

Olhava e sonhava com a repetição. Mais tarde, à noite, o segundo raio caiu, mas em outro endereço. Em casa, Rafaella me disse que tinha vontade de ler a série Harry Potter. Levou o primeiro emprestado. Yasmin perguntou se eu tinha “A Culpa é das Estrelas”, de John Green. O livro se mudou para a Praia Grande. Mariana me pediu ajuda para procurar na estante algo para ler. Devorou “Coraline”, de Neil Gaiman, em menos de 48 horas. E contei histórias do Batman para o Vinicius.

Desde então, a biblioteca recebe minha visita semanal, geralmente aos sábados. As poltronas e sofás no mesmo andar são os refrescos para as costas, as pernas e o zero no espaço-tempo que assegura a leitura. A biblioteca tem como guarda-costas uma prateleira com as principais revistas do mês e da semana, além dos jornais do dia.

Naquelas estantes, conheci mais a fundo o poeta Manoel de Barros e suas memórias inventadas da infância. Da época de criança, li crônicas de Antônio Prata, que estava “Nu, de botas”. Da ingenuidade saltei para a solidão do sexo de adultos por vezes infantilizados, nos contos de “Parafilias”, escrito pelo santista Alexandre Marques Rodrigues.

Ali, testemunhei “O homem diante da morte”, de Philippe Ariés, um calhamaço de 850 páginas que estudo em doses homeopáticas. O livro me espera na prateleira de História. A morte também se fez viva no policial quase trocadilho “O último caso da colecionadora de livros”, de John Dunning.

A biblioteca não é generosa somente pela retirada de livros. Suas estantes me permitem acesso direto ao prazer de folheá-los, descobrir novos títulos na mesma prateleira onde li duas vezes todas as lombadas, ler um trecho e aumentar a dúvida sobre quem seguirá comigo para casa.

Saio de lá com algum presente debaixo do braço, mesmo que a leitura não se complete, como “O Jogador”, de Dostoievski, que perambulou pela cabeceira da nossa cama, e retornou quase intacto ao Sesc, por conta da internação da minha mulher.

No próximo sábado, a biblioteca me espera. Tenho que devolver “Parafilias” e peregrinar pelas estantes para voltar com outro presente. Tenho uma pilha que grita pela minha leitura em casa, mas a biblioteca nunca me deixa sair de mãos abanando. Para qualquer criança, um quintal só existe se houver brinquedos.

2 comentários:

Plic Ploc disse...

Impecável Marcus!!!! Meu sonho seria ver um SESC em cada bairro para que todos pudessem adentrar à esse oasis no meio do deserto massacrante. Abraço. Jr. Landim

Plic Ploc disse...

Impecável Marcus!!!! Meu sonho seria ver um SESC em cada bairro para que todos pudessem adentrar à esse oasis no meio do deserto massacrante. Abraço. Jr. Landim