segunda-feira, 28 de novembro de 2016

As palavras para todos

O escritor André Rittes (à direita) conversa com leitores no
projeto Outras Palavras, no Café Teatro Rolidei

Marcus Vinicius Batista

O isolamento da sinfonia urbana nos dá a concentração para pensar nas palavras. A cortina preta que separa o terceiro piso do prédio do Teatro Municipal e o Café Teatro Rolidei conduz substantivos, verbos, adjetivos e advérbios ao palco. Um palco onde plateia e atores se fundem. Um palco onde não há comando de vozes. Prevalecem os poliglotas literários e seus textos.

Numa roda de cadeiras e poltronas, uma dúzia de leitores - e escritores incorporados nas mesmas pessoas - discutem, refletem, se divertem, divergem, convivem, abusam o quanto podem do poder de sinônimos, antônimos, metáforas, ironias, aberturas e desfechos de romances, novelas, crônicas e poesias.

As poetisas Regina Alonso e Maria Teresa Teixeira Pinto organizam a bagunça do vocabulário em encontros semanais de leitura dirigida. Essas reuniões transgressoras em tempos ditatoriais de senso comum se chamam "Outras Palavras". Sempre às quartas-feiras, às 16 horas quase em ponto.

Estive lá para acompanhar meu irmão, o jornalista e escritor André Rittes, que lançou os livros "Os Caranguejos" (contos), "Viração" (contos também) e "Como fazer um telejornal". É a segunda vez que participo. A primeira foi por causa do meu livro "Quando os Mudos Conversam". Um diálogo que passeou por forma de criação, relações com os livros, Jornalismo, leitura fora dali, autores que influenciam. Eles sabatinaram com carinho o André. Até porque todos são cúmplices no mesmo crime: ler e escrever com paixão.

O cenário do projeto inspira pela cor, pela atmosfera que denuncia gente que pensa, sente e é fiel a si mesmo. Nas paredes, a diversidade da decoração comprova o discurso que nasce ali, no Rolidei. São tickets de bagagem, camisas de times de futebol, bonecas, fotos, desenhos, a multiplicidade da cultura humana como pano de fundo para a difusão do amor pela leitura e escrita. E também pelo teatro, pela dança, pelas artes. O palco do Rolidei é ecumênico, quase - por ironia - um dogma religioso.

Cada vez que entro lá, descubro alguma coisa nova pendurada ou pregada naquelas paredes. E, inconsciente, esqueço de anotar para ter que ver aqueles objetos como se fosse a primeira vez.

O menu é de restaurante cinco estrelas, em guia internacional. De Raul Bopp a Mia Couto. A liturgia das múltiplas vozes. Além de Regina e Teresa, gente de todos tipos, normalidades e idades. Todos leem, todos creem na literatura-Deus, todos escrevem seus testemunhos de fé.

Cada encontro dura uma hora e 15 minutos. No confessionário, admito que pequei pela perda da noção de tempo. Conversa boa, o relógio endoidece. No final, trocas de presentes óbvios: livros. Intercâmbio de impressões, novos rumos para refletir sobre literatura.

"Outras Palavras" é diferente daqueles cultos que vimos na TV. Ali, as curas acontecem, de verdade. Gente que mantinha distância dos livros hoje está casada com eles. E feliz! Gente que escreve e tinha vergonha de dividir. Hoje, traz a eloquência dos oradores de plenário. Gente que não acreditava ser possível despejar palavras e arrumá-las em papel (ou em tela de computador) o faz atualmente como andar e respirar. Escreve ... e bem!

No ano passado, o projeto "Outras Palavras" estudou 15 autores. Como tradição, os participantes produziram seus textos a partir das suas interpretações de cada autor estudado. Em dezembro, o presente de Natal; a publicação do livro "Outras Palavras", singelo na forma, mar profundo em seu conteúdo. Coerência com o que se defende o resto do ano.

Ganhei no ano passado a edição número 5 do livro. Na última quarta-feira, levei para casa a edição número 6. Não os mantenho aqui comigo não, em cárcere privado. Livros nasceram para percorrer outras estantes, outras mãos, outros olhos.

Depois de lê-los, emprestei para duas pessoas que tenho certeza de que os tratarão como merecem. É a Bíblia que espalha a palavra do "Outras Palavras", ressuscitada semanalmente atrás das cortinas e dentro do palco do Café Teatro Rolidei.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 18 de abril de 2016.



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