quinta-feira, 24 de novembro de 2016

As dores de Rosinha

Teatro Rosinha Mastrângelo - Foto: Matheus Tagé (DL/Arquivo)

Marcus Vinicius Batista


Nessa estrada que um dia foi florida
e onde subsiste hoje somente a mágoa,
nasceu-me um dia uma emoção sentida
que me deixou os olhos rasos d’água.

Aos poucos, em minh’alma dolorida,
essa angústia surgiu cinzenta e vaga
e hoje, pairando qual nuvem pressaga,
há um silêncio de dor na minha vida.

Fitando a triste escuridão de agora,
min’alma lembra ainda do passado
e sonha com uma nova primavera!

Eu sei que é tudo em vão… Ah! mas quem dera,
a este meu coração amargurado,
hoje florir como floriu outrora!
(Aspiração - poema de Rosinha Mastrângelo)


Penso em Rosinha cada vez que passo em frente ao Teatro Municipal de Santos. São quase 30 anos de sua morte e imagino como ela se sentiria se soubesse o que fizeram com seu nome. Se testemunhasse no que se transformou o teatro de arena, símbolo de uma arte de pensamento crítico, de consciência e resistência política pela palavra, pela dramaturgia.

O destino atual do Teatro Rosinha Mastrângelo é a ponta da linha de uma escalada de (ausência) de importância. A pasta da Cultura é aquele filho mais pobre, que sempre ouve promessas dos pais e acaba com a mesada mais magra. Entre os pobres de orçamento, o teatro costuma ser visto como o amigo postiço, faminto e miserável do filho mais pobre. Aquele que come de favor à mesa.

O Teatro Rosinha Mastrângelo está abandonado há seis anos, conforme denunciou duas vezes o jornal Diário do Litoral. O calvário é digno das novelas radiofônicas que Rosinha escreveu por quatro décadas para as rádios Cacique e Atlântica. Não há poesia ou crônica da própria autora que amenize a escuridão e a mudez às sextas, sábados e domingos à noite, antes recheadas com espetáculos de diversas correntes e influências teatrais.

O "sacrifício pela arte" incluiu a retirada das arquibancadas que aproximavam as pessoas de si mesmas e dos atores em cena, além das cabines de som e de luz. O desconforto das arquibancadas de madeira que permitiam ver os olhos de um ator, as imperfeições de sua maquiagem como se estivesse em cena na sala de casa.

Hoje, não há sinais de um teatro. Não há vozes que gritam textos clássicos ou contemporâneos. Há o silêncio espiritual de um espaço repleto de infiltrações. O Teatro Rosinha Mastrângelo se afoga no cenário de uma peça inacabada e segue a tradição de sofrimento dos espaços teatrais de Santos.

O Coliseu sangrou por quatro gestões até ser reinaugurado incompleto para ser reformado depois. O Municipal só entrou em reforma quando os riscos do palco chegaram no limite da (in)segurança e da ditadura dos cupins. E o Guarany, hoje pomposo, não se esquece das décadas em que era uma carcaça a céu aberto, no Centro de Santos.

Como a Prefeitura de Santos não sabe o que fazer com o Teatro Rosinha Mastrângelo, optou, por enquanto, em não fazer nada. Dá as desculpas de praxe, como a promessa de iniciar obras em 2016. As justificativas incluem a realização de estudos para a reforma, mas sem previsão orçamentária, prazo de início e de término e como seria feita a execução do trabalho.

Os políticos têm a péssima mania de dar nomes de lugares públicos para agradar àqueles que morreram e fazer média com aqueles que ficaram. Mal sabem os homenageados que, muitas vezes, serão abandonados como se seus legados fossem as obras públicas. Como não podem reclamar ...

P.S.: Caro leitor, o poema simboliza as dores de Rosinha? Ou não?

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