sábado, 19 de novembro de 2016

A mulher sábia está em aula





Marcus Vinicius Batista

Ela acordava às cinco e meia da manhã. Só sabia disso - e me restava acreditar - por causa da credibilidade e da perseverança dela. Dona Norvina ligava a TV e partia para mais um capítulo do Telecurso Primeiro Grau. No colo, no sofá da sala, a apostila que vinha pelo Correio.

Na década de 80, a Internet estava na ficção científica. A TV a cabo era coisa de americano. O computador tinha o tamanho de salas inteiras, enquanto o PC era objeto de gente rica. Fazer curso à distância envolvia televisão aberta, madrugar e estudar em uma apostila com capa de papel reciclável. Talvez por herança mineira e dotes de costureira, ela amarrava as páginas com barbante branco, nada de espiral encadernado em loja fotocopiadora.

A engenhosidade dela me fascinava. Eu ficava ainda mais intrigado porque percebia que muito do que ela aprendia, eu também via na escola. Minha avó, velhinha na visão de uma criança, mesmo com menos de 60 anos, era uma mulher de coragem.

A coragem e a sabedoria não estavam nos livros do Telecurso, descobri depois. Suas qualidades estavam no passado, na força de largar a vida na roça do interior de Minas Gerais, sair de uma cidade chamada Luz, com cerca de 20 mil habitantes, e se mandar para São Paulo.

Além da pouca bagagem, uma filha adolescente, minha mãe, com 15 anos. O único conhecido por aqui era meu tio-avô Mozar, na época - início dos anos 60, um seminarista em formação.

Suas mãos de costureira pagaram as contas por anos. Ajudaram meus pais quando a vida financeira apertou. Cuidava, quando preciso, dos dois netos. E resolveu estudar por conta própria.

Além das aulas pela TV, eu via de vez em quando uns livros de capa preta, letras brancas e bordas em rosa. O papel era bem vagabundo. Os livros vendiam milhares de exemplares, pois traziam aulas técnicas das mais variadas profissões. Minha avó comprava os livros do Instituto Universal Brasileiro com aulas de costura. Descobri, recentemente, que meu sogro Lauro comprava os de elétrica.

Lia as publicações do Instituto com um misto de curiosidade e distanciamento. Mal conseguia compreender as informações técnicas. Por outro lado, pensava em como minha avó estudava. Eu a admirava pela capacidade de recuperar algo que a vida tentara tirar dela. E jamais reclamava da escola, pelo menos perto dela.

Com o tempo, notei que as apostilas do Telecurso se multiplicaram. A pilha crescia na sala do apartamento no Gonzaga, em Santos. Passei a ler, quando estava desocupado, algumas páginas de História, Geografia e folhear as apostilas de Português e Matemática.

Quando minha avó completou a oitava série, resolveu que era hora de parar. A sabedoria, e ela me demonstrou de inúmeras maneiras, não estava no diploma, nos livros com fórmulas e receitas a serem decoradas. Ela preferia a convivência com as freguesas, que a visitavam em seu ateliê, num dos quartos do mesmo apartamento.

Depois, com a invasão das lojas de departamentos e das roupas padronizadas, ela teve a sapiência de fazer outra coisa na vida. Não se localizava mais em Santos, uma cidade que crescera, onde as pessoas não se cumprimentavam mais nas ruas.

Aos poucos, mineiramente, ela voltou para Luz. Lá, costurava de vez em quando, só para as amigas ou parentes. As aulas passaram a ser os diálogos de final de tarde, no alpendre, com vizinhos e amigos. Eventualmente, os netos, a filha e o genro, que encaravam 830 quilômetros para matar a saudade.

Ela foi a mulher mais sábia que conheci. Na relação com os livros, na leitura das pessoas, no aprendizado da vida em ritmo mais lento, que nos ensina a ver, digerir, compreender e levar nas costas. Um ponto muito além do ensino mastigado em apostilas e acompanhado pela TV.

Sábia, Dona Norvina soube morrer em silêncio, sem dor, perto das pessoas mais queridas. Seu neto, por ironia, estava em sala de aula a ensinar.

Obs.: Texto publicado no blog da Global Editora, em 8 de novembro de 2016.

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