quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O leitor e o silêncio da calçada



Marcus Vinicius Batista

Ele parecia imperturbável na calçada da rua Frei Francisco Sampaio. Às dez e meia da noite, a via expressa volta a ter movimento depois que as aulas terminam nas universidades. Pedestres e motoristas mal olham para os lados até que o dia termine em jantar, chuveiro e cama.

Não havia barulho que o afastasse do suporte de metal para lixo. A mão direita carregava um saco plástico, desses de 60 litros. O conteúdo vinha do trajeto que percorrera pelo Embaré, atrás do que sobrou da classe média, atrás dos trocados em forma de material reciclável.

Eu o avistei da esquina. Ele, no meio da quadra. O sujeito não se mexia. As mãos não remexiam o lixo. O homem estava paralisado, ligeiramente curvado, com o braço esquerdo dentro do armação de metal.

Minha aproximação, imaginei, seria o gatilho para que se movesse. Ao menos, olhasse para trás para detectar quem o espiava. A cinco metros de distância, reduzi o ritmo do passo, curioso para saber o que o prendia ali. Teria que esticar o corpo para ver o que o morador de rua segurava.

Ele é um morador de rua, longe de colocá-lo sob o estigma que o persegue do centro e o empurra para as bordas. Só a vida nas ruas impõe a herança de pés enegrecidos de tantas caminhadas, sustentados por um chinelo que em breve deixará rastros pelo trajeto incerto. Uma calça suja e uma camiseta puída completavam a descrição.

Parei atrás dele e o vi mover o corpo. Não pretendia se esconder de mim, até porque o invisível - somente naqueles segundos, sem o menor vestígio de comparação - era eu. Ele não me enxergou. Não escutou meus passos. Reduziu a posição de alerta à concentração diante do livro que devorava, em pé, no meio da calçada, sem largar o saco plástico adormecido em suas costas.

Embora corroído de curiosidade, decidi não abrir a boca. Escolhi não perguntar seu nome. Optei por não escarafunchar a história dele, levá-lo - por possíveis respostas - a reviver a biografia que o livro apagava, por minutos, com eficiência. Retomei a caminhada e engoli a vontade de saber.

O livro que ele digeria? A pergunta fechou meu pacote de silêncio. Contemplar é, muitas vezes, melhor que conhecer.

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