quarta-feira, 12 de outubro de 2016

O dia e as crianças

Na casa da Washington Luiz, há uns cinco anos 

Marcus Vinicius Batista

Na véspera, eu tinha certeza de que a vacina faria o efeito desejado. Garantir que o Dia das Crianças passasse sem melancolia, com aquela dose de saudade que se pode considerar como controlável. Nós havíamos conversado alguns dias antes sobre a data, falamos sobre presentes, combinamos que vocês escolheriam depois, sem a pressa do envio pelo Correio.

Ao acordar e assistir ao primeiro vídeo publicitário sobre o tema, publicado por uma amiga, cresceu a certeza de que faltou combinar comigo mesmo. Em segundos, a sobriedade de dias anteriores se transformou em lágrimas. Todo o planejamento e o muro de proteção ruíram nas primeiras duas gotas em silêncio. O Dia das Crianças será muito difícil...e ainda estamos de manhã.

A saudade, quando se apresenta como sintoma insolúvel, passa por cima como um trator e dá marcha a ré como um tanque para esmigalhar o que sobrou. A distância é o mensageiro que avisa o quanto dói a ausência, a falta que nenhum forma de comunicação moderna e quase instantânea consegue amenizar.

Acredito que talvez soubesse disso e tinha me exercitado nos últimos dias pelo autoengano. Preenchi o dia com programação suficiente para ocupar a cabeça, para pensar nos intervalos, para sentir menos a tristeza de não ter vocês dois por perto.

É dia de ler trabalhos de alunos, de sair para fazer uma matéria com gente interessante, de ver seriados com quem se ama, receber amigos queridos em casa para um cerveja e boa conversa. Não é dia para ficar quieto. Se ficar na cama, é para desmaiar e acelerar os ponteiros do relógio.

Os prazos estão apertados no trabalho? É uma boa justificativa para superar os quilômetros entre nós três. Conversaremos ao longo do dia sobre a gincana de ontem, trocaremos áudios, falaremos sobre pokemóns, amigas da escola e o que vocês fizeram lá embaixo. São paliativos que me lembram que o Dia das Crianças é mais uma data. Dispenso a ilusão de que se trata de convenção social, de dia comercial para a venda de presentes. O ser consciente sabe de tudo isso, que vira ladainha quando o fundo ocupa o centro, quando os sentimentos atiram a racionalidade pela janela.

Beth e amigos dizem que atraio crianças. Que elas gostam de mim. É aquele tio que conta as histórias, fala besteiras e ouve o que elas tem a dizer. Hoje, não queria que este comportamento saísse pelo poros. Evitei redes sociais para vê-las. Mas terei que sair para um reportagem onde, por uma série de circunstâncias, haverá centenas delas. Vou respirar fundo e ver vocês dois nos rostos de cada uma delas.

É muito duro não ter vocês por perto. O cotidiano de enlouquecer, à beira do desumano, ajuda a ver que a data de nosso encontro se aproxima. Mas sempre existem os intervalos. Vocês estão em todos os lugares da minha casa, em fotos na minha carteira, nas lembranças de diversos pontos da cidade onde vocês nasceram e viveram. Cartões postais vivos da nossa proximidade.

Sei que vocês, como crianças ou pré-adolescente, bobagem, dão mais conta do que eu para atravessar o dia. E é ótimo que seja assim. Brinquem, fiquem com os amigos, zoem até cansar. Eu estarei sempre por perto, mesmo que a distância seja uma personagem insistente nessa história. Mesmo que um texto sobre o Dia sirva como exorcismo para meus fantasmas ou sirva como alívio para as dores que povoam o ar por aqui.

Como nos falamos agora há pouco, o dia seria melhor que pudesse olhar para vocês, tocar em vocês, sorrir com vocês no mesmo cômodo deste apartamento. A saudade é um amigo que vive nas sombras. Esconde-se na escuridão, mas sempre aparece com a menor fresta de luz.

Mari e Vini, feliz Dia das Crianças. Saudades. Amo vocês.

Um comentário:

André Luís Marques Ferreira Rittes disse...

Não sei o que é esse sentimento de distância absoluta, mas sinto começar a me roer a dor da ausência ainda não presente, mas já anunciada. Logo, meu ninho estará vazio. Entendo como esta involuntária e imposta distância que você sofre é dura, mais ainda porque está ancorada numa caprichosa vingança de quem pensa que sabe amar. Belo texto. Muita força e tranquilidade. Tamo junto se precisar... bjus