segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A torcedora, o tricô e as bananas



Marcus Vinicius Batista


Passei oito anos tentando ser jogador de futebol. Uma contusão e uma cirurgia me fizeram perceber que a insistência pode apagar a capacidade de autoavaliação.

Desses oito anos, vivi seis deles em quadras de futebol de salão. Era o caminho natural para quem sonhava com o futebol de campo. Quando o ritual de passagem acontecia, era normal que o moleque - fominha de bola - jogasse as duas modalidades. Como diria minha avó, atirava-se em dois coelhos. Vai que acertava um deles.

A avó Hermelinda me acompanhou por seis anos em ginásios espalhados pela Baixada Santista, São Paulo e uma vez no Rio de Janeiro. Hermelinda tinha nome difícil, como minha avó, Norvina, que morava em Minas e não pôde acompanhar este goleiro que escreve crônicas.

Hermelinda era avó, na verdade, do Paulo Coelho, não o escritor, mas o administrador de empresas que foi o melhor com que joguei - contra e a favor - na minha cidade. Um amigo de 30 anos.

Comecei a jogar contra o Paulo - e contra a torcida da Hermelinda - aos 10 anos. Ela virou a casaca - os dois mudaram de time, o neto e o amigo - aos 13. Ela estava sempre lá, na arquibancada. Sentava-se entre os torcedores, sem olhar qual a camisa, sem verificar se era o time da casa ou o adversário. Colocava a bolsa ao lado e esperava.

Dona Hermelinda não pulava. Não esbravejava. Não xingava. Não criava confusão com juiz. Ela apenas observava e, de vez em quando, falava baixo com quem a acompanhava, a filha ou o genro. Se a memória não pregou peça, ela sacava duas agulhas de tricô e mantinha o próprio ritmo de driblar o tecido, independentemente do ritmo do jogo ali embaixo.

Dona Hermelinda era incansável. Pequena, pouco mais de um metro e meio, e magra, ela dava a impressão de estar a ponto de quebrar. As mãos, calejadas e fortes do trabalho duro, desmentiam a impressão de quem quase desaparecia na arquibancada lotada, mas que preenchia a casa principal da chácara de Ribeirão Pires, durante as festas, os churrascos, as peladas de final de semana e férias escolares.

Ela era teimosa. Não parava até que o último convidado fechasse o portão da chácara. Não deixava o ginásio até que a molecada saísse dos vestiários. Na derrota, no empate ou na vitória, vinha uma palavra breve de consolo, um elogio que diminuía a dor de uma partida mal jogada, de uma falha individual, daquelas que sacodem o placar.

No final de nossa carreira no futsal, lá pelo começo da década de 90, Dona Hermelinda andava com lentidão, mas sempre chegava no destino traçado. As costas arqueavam, mas jamais abaixava a cabeça para marmanjo com o dobro do tamanho. A próxima tarefa. A próxima coisa a fazer. Nunca se sentava, exceto na arquibancada de um ginásio qualquer.

Lembrei-me dela na semana passada. Beth, minha esposa, me avisou que as bananas estavam na geladeira e poderiam passar do ponto. Apanhei duas delas, descasquei e piquei em um prato. Joguei por cima o resto de achocolatado, amassei e misturei.

Percebi que o método vinha lá dos anos 80, da Dona Hermelinda. Ela repetia o ritual todas as manhãs, para o neto. Quando o visitava, recebia o mesmo presente. Uma refeição pré-treino que se transformou em café da manhã pré-trabalho.

Dona Hermelinda parou muito tempo depois que eu e Paulo Coelho paramos de jogar. Viramos quarentões peladeiros, enquanto ela nos assiste em outro endereço. Sentou-se em alguma arquibancada, olhou para a quadra, hoje de grama sintética, desejou um jogo limpo, apanhou as agulhas e começou sua própria partida.

Obs.: Texto publicado no blog da Editora Global, em 19 de outubro de 2016.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

O dia e as crianças

Na casa da Washington Luiz, há uns cinco anos 

Marcus Vinicius Batista

Na véspera, eu tinha certeza de que a vacina faria o efeito desejado. Garantir que o Dia das Crianças passasse sem melancolia, com aquela dose de saudade que se pode considerar como controlável. Nós havíamos conversado alguns dias antes sobre a data, falamos sobre presentes, combinamos que vocês escolheriam depois, sem a pressa do envio pelo Correio.

Ao acordar e assistir ao primeiro vídeo publicitário sobre o tema, publicado por uma amiga, cresceu a certeza de que faltou combinar comigo mesmo. Em segundos, a sobriedade de dias anteriores se transformou em lágrimas. Todo o planejamento e o muro de proteção ruíram nas primeiras duas gotas em silêncio. O Dia das Crianças será muito difícil...e ainda estamos de manhã.

A saudade, quando se apresenta como sintoma insolúvel, passa por cima como um trator e dá marcha a ré como um tanque para esmigalhar o que sobrou. A distância é o mensageiro que avisa o quanto dói a ausência, a falta que nenhum forma de comunicação moderna e quase instantânea consegue amenizar.

Acredito que talvez soubesse disso e tinha me exercitado nos últimos dias pelo autoengano. Preenchi o dia com programação suficiente para ocupar a cabeça, para pensar nos intervalos, para sentir menos a tristeza de não ter vocês dois por perto.

É dia de ler trabalhos de alunos, de sair para fazer uma matéria com gente interessante, de ver seriados com quem se ama, receber amigos queridos em casa para um cerveja e boa conversa. Não é dia para ficar quieto. Se ficar na cama, é para desmaiar e acelerar os ponteiros do relógio.

Os prazos estão apertados no trabalho? É uma boa justificativa para superar os quilômetros entre nós três. Conversaremos ao longo do dia sobre a gincana de ontem, trocaremos áudios, falaremos sobre pokemóns, amigas da escola e o que vocês fizeram lá embaixo. São paliativos que me lembram que o Dia das Crianças é mais uma data. Dispenso a ilusão de que se trata de convenção social, de dia comercial para a venda de presentes. O ser consciente sabe de tudo isso, que vira ladainha quando o fundo ocupa o centro, quando os sentimentos atiram a racionalidade pela janela.

Beth e amigos dizem que atraio crianças. Que elas gostam de mim. É aquele tio que conta as histórias, fala besteiras e ouve o que elas tem a dizer. Hoje, não queria que este comportamento saísse pelo poros. Evitei redes sociais para vê-las. Mas terei que sair para um reportagem onde, por uma série de circunstâncias, haverá centenas delas. Vou respirar fundo e ver vocês dois nos rostos de cada uma delas.

É muito duro não ter vocês por perto. O cotidiano de enlouquecer, à beira do desumano, ajuda a ver que a data de nosso encontro se aproxima. Mas sempre existem os intervalos. Vocês estão em todos os lugares da minha casa, em fotos na minha carteira, nas lembranças de diversos pontos da cidade onde vocês nasceram e viveram. Cartões postais vivos da nossa proximidade.

Sei que vocês, como crianças ou pré-adolescente, bobagem, dão mais conta do que eu para atravessar o dia. E é ótimo que seja assim. Brinquem, fiquem com os amigos, zoem até cansar. Eu estarei sempre por perto, mesmo que a distância seja uma personagem insistente nessa história. Mesmo que um texto sobre o Dia sirva como exorcismo para meus fantasmas ou sirva como alívio para as dores que povoam o ar por aqui.

Como nos falamos agora há pouco, o dia seria melhor que pudesse olhar para vocês, tocar em vocês, sorrir com vocês no mesmo cômodo deste apartamento. A saudade é um amigo que vive nas sombras. Esconde-se na escuridão, mas sempre aparece com a menor fresta de luz.

Mari e Vini, feliz Dia das Crianças. Saudades. Amo vocês.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O leitor e o silêncio da calçada



Marcus Vinicius Batista

Ele parecia imperturbável na calçada da rua Frei Francisco Sampaio. Às dez e meia da noite, a via expressa volta a ter movimento depois que as aulas terminam nas universidades. Pedestres e motoristas mal olham para os lados até que o dia termine em jantar, chuveiro e cama.

Não havia barulho que o afastasse do suporte de metal para lixo. A mão direita carregava um saco plástico, desses de 60 litros. O conteúdo vinha do trajeto que percorrera pelo Embaré, atrás do que sobrou da classe média, atrás dos trocados em forma de material reciclável.

Eu o avistei da esquina. Ele, no meio da quadra. O sujeito não se mexia. As mãos não remexiam o lixo. O homem estava paralisado, ligeiramente curvado, com o braço esquerdo dentro do armação de metal.

Minha aproximação, imaginei, seria o gatilho para que se movesse. Ao menos, olhasse para trás para detectar quem o espiava. A cinco metros de distância, reduzi o ritmo do passo, curioso para saber o que o prendia ali. Teria que esticar o corpo para ver o que o morador de rua segurava.

Ele é um morador de rua, longe de colocá-lo sob o estigma que o persegue do centro e o empurra para as bordas. Só a vida nas ruas impõe a herança de pés enegrecidos de tantas caminhadas, sustentados por um chinelo que em breve deixará rastros pelo trajeto incerto. Uma calça suja e uma camiseta puída completavam a descrição.

Parei atrás dele e o vi mover o corpo. Não pretendia se esconder de mim, até porque o invisível - somente naqueles segundos, sem o menor vestígio de comparação - era eu. Ele não me enxergou. Não escutou meus passos. Reduziu a posição de alerta à concentração diante do livro que devorava, em pé, no meio da calçada, sem largar o saco plástico adormecido em suas costas.

Embora corroído de curiosidade, decidi não abrir a boca. Escolhi não perguntar seu nome. Optei por não escarafunchar a história dele, levá-lo - por possíveis respostas - a reviver a biografia que o livro apagava, por minutos, com eficiência. Retomei a caminhada e engoli a vontade de saber.

O livro que ele digeria? A pergunta fechou meu pacote de silêncio. Contemplar é, muitas vezes, melhor que conhecer.