sábado, 13 de agosto de 2016

Uma (pequena) história olímpica

"O importante nos Jogos Olímpicos não é vencer, mas fazer parte.
O essencial na vida não é conquistar, mas lutar bem"
(Barão de Coubertin)

Marcus Vinicius Batista

Eu esperava do lado de fora da loja de bijuterias. Beth procurava por uma tiara e, como a loja estava cheia, preferi ficar com as sacolas. O segurança acompanhava a entrada e saída de clientes, enquanto uma mulher loira, com cerca de 1,80 metros, passava entre nós.

Ela vestia um agasalho branco. O emblema no lado esquerdo do peito atraiu meus olhos. Não consegui decifrar a sigla da entidade esportiva. Quando ela passou por mim, eu pude ler nas costas: Karatê - São Paulo.

Ela carregava na mão direita um pote marrom, apenas a base do recipiente que um dia abrigou achocolatado em pó. Ao caminhar, a atleta chacoalhava o pote, que provocava o choque das moedas dentro dele.

A mulher se juntou a uma colega de agasalho azul. Conversaram em voz baixa. No agasalho da colega, o mesmo emblema, a mesma explicação nas costas. Nas mãos, o mesmo modelo de pote improvisado. A outra moça era morena, uns dez centímetros mais baixa, mas também tinha o cabelo preso num rabo de cavalo.

O semáforo na esquina da rua Floriano Peixoto com Praça da Independência ficou vermelho. Eram pouco mais de seis horas da tarde. Muita gente apressada na calçada, normal pelo horário, necessário talvez pela sexta-feira que acabava para uns, começava para outros. Muitos carros num trânsito congestionado até depois da rua Pereira Barreto.

As duas caratecas se dividiam. Cada uma ficava com uma fileira de automóveis. Passavam o pote, explicando o motivo da coleta: competir fora de Santos. As moedas bancariam viagem e hospedagem. Era uma explicação breve, de três segundos, uma espécie de golpe final para o tudo ou nada.

A atleta morena conseguiu três moedas, que escorreram da mão esquerda do motorista sorridente. Ela mal pôde explicar a razão para pedir dinheiro. Ele parecia pouco disposto a ouvir. O próximo carro era a luta mais urgente.

Enquanto as duas caratecas pediam ajuda para praticar esporte, muitos se espremiam para assistir às disputas pela TV em dois restaurantes, um em cada esquina.
As atletas não eram crianças, como testemunhei outras vezes em semáforos da avenida Ana Costa. Tinham mais de 25 anos, pelo menos.

Depois que o semáforo abriu, elas se entreolharam. Uma delas, constrangida disse: "estou cansada. Não vou pedir mais para aqueles que não descem o vidro." Ouviu como resposta um "tudo bem" e se aproximaram da faixa de pedestres. Ambas se misturavam com as pessoas que esperavam para atravessar a rua.

Eu as observava encostado na parede ao lado da loja. O semáforo fecha. As duas vão para as respectivas filas e retomam os pedidos. Quando retornam pela calçada, consigo ouvir as moedas outra vez, barulho logo sufocado pelos gritos de torcida nos restaurantes. Vitória! Medalha! Eu acredito!

Dez minutos antes, em outra loja do Gonzaga, vi - pela TV - Rafael Silva receber a medalha de bronze no judô. Perdeu apenas para um francês, invicto há mais de 110 lutas. Lutou com dignidade.

Quando Beth saiu da loja, as duas estavam em meio às pessoas que desejavam atravessar a rua. Não vi o semáforo fechar novamente. Virei a esquina e ouvi os gritos por um desempenho que não tenho coragem de exigir.

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