segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O rei de São Vicente

Fotos: Beth Soares

Marcus Vinicius Batista

Quando cheguei perto dele, uma grade nos separava. A separação era previsível, diante da fama e do poder dele. Governar em São Vicente exige doses de autoflagelo com pitadas de (falsa) imponência pelo passado histórico da primeira vila, cujos sinais ficaram à mercê do tempo.

Quando ele chegou, não sabia que teria que conviver com coronéis e capangas, em um território que se tornaria ainda mais hostil às mudanças. Mudança de gente não seria possível, porque senão o rei não estaria lá, encarcerado. Mudança de mentalidade, na visão diária a partir de uma jaula, de seu pequeno reino encravado ao pé do Morro do Voturuá.

O Parque Ecológico Voturuá é uma ilha do que São Vicente poderia ter sido. Meio Ambiente, turismo e educação condensados num projeto de cidade. Eu o visitei esta semana, depois de quase uma década de ausência. 



De saída, encontrei um rei angustiado, de olhos tristes e corpo cansado, emagrecido pelo mundo a sua volta, que vive no limite. O símbolo que se deitou para desistir do lugar onde os líderes prometem redenção, antes de passar a cadeira ao próximo profeta às avessas.

O reino prevalece em movimento, graças aos súditos. A vida está na simpatia do senhor que recebe pessoas no Museu dos Escravos - ou Casa de Cultura Afro-Brasileira -, guardião das obras de Geraldo Albertini, e na esperança do restaurante de comida brasileira, lacrado por políticos cegos.

O leão ruge para que não deixemos de ver a relação de amor entre as tratadoras e o vizinho Ramón, o hipopótamo que reúne pessoas duas vezes ao dia para o ritual da alimentação. A beleza do carcará, exibido para as câmeras e dócil com o tratador amoroso, contrasta com a carpa solitária, que faz ronda no lago japonês, rascunho de uma época que afagava os imigrantes.

O rei desconhece que os tempos magros quebraram os muros de seu condado. Com que olhos encararia a incompetência que se espalha no canal do Voturuá, cheio de mato, lixo e muretas prontas à devorar quem não percebeu suas rupturas a cada quadra?

Um comentário:

alano alexandre disse...

Esse animal, fez por muitas vezes a alegria do meu filho, o Guilherme até hoje lembra dele, mesmo estando mais de 300 km de distância. Parabéns pelo texto Mestre, São Vicente precisa ser lembrada pelo que tem de bom.