sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Lobo Estúdio: a música da diversidade

Fotos: fã page - Lobo Estúdio

Marcus Vinicius Batista

Luna, a menina curiosa de um ano e pouco, se balança no cavalo de madeira. Parece que o rodeio acabará em oito segundos, com a queda dela e vitória do animal de brinquedo. Logo depois, ela abandona o esporte que dá sustos nos adultos e pula pelo corredor para observar um dos estúdios, onde cinco sujeitos tocam Pearl Jam bem próximo do original. Se Eddie Vedder estivesse morto, o corpo do vocalista receberia o espírito de bom grado.

No estúdio ao lado, Mariana - perto dos 14 anos - ensina o irmão dela, Vinicius, de seis, a tocar bateria. São os primeiros movimentos de alguém que, um ano atrás, só queria fuçar em todos os instrumentos como se fossem brinquedos em casa. Em dez minutos, a bateria perderá para a concorrência, uma pilha de 250 cartas de Pokemón, a pitada de cultura pop japonesa no ambiente com predestinação ao improviso.

Os três só fizeram um intervalo quando as pizzas chegaram. O motoboy parecia atrasado, mas - na verdade - não localizava o Lobo Estúdio, onde estávamos. Os réus primários não reconhecem o lugar na porta preta, sem placa, numa rua silenciosa e quase desabitada depois das 18 horas, quando o comércio encerra o expediente.

A absolvição vem depois, no alto da escadaria de degraus vermelhos, que escondem um parque artístico atrás uma portinhola de madeira, fruto da habilidade manual do músico Jota Amaral, pai e coresponsável pela curiosidade que transborda na filha de nome latino.

O Lobo Estúdio mantém vivo o começo da rua Luís de Camões, um universo onde a música é uma desculpa quase esfarrapada para respirar cultura. A diversidade está além dos acordes que jorram dos três estúdios, mas está representada em um mapa mundi, um adesivo que preenche a parede branca, logo que você entra lá, com inúmeros instrumentos em todos os continentes.

O Lobo Estúdio, claro, atrai músicos todos os dias, na rotina de uma vida noturna. Dali, é possível escutar de cinquentões que se reúnem para fazer um som dos velhos tempos, enquanto suas esposas bebericam e conversam, a bandas de garotos que sonham em deixar a garagem para os shows. De mulheres que militam no rap aos camisetas pretas do rock mais pesado.

A música é o início, talvez o meio, mas nunca o fim do dia. No final do corredor, aliás, está o bar que une culturas. Sente-se à beira do balcão ou permaneça em pé em volta da mesa de sinuca e verá o cardápio que mistura ingredientes como amendoim e literatura, cerveja e cartum, batata frita e cinema, em encontros coletivos de todas as gentes. 

Cardápio cultural para todas as gentes

Já estive lá para ouvir MPB, escritores alternativos, cartunistas com prêmios internacionais, pessoas que nunca publicaram coisa alguma e ninguém está aí com isso. Currículo e "você sabe com quem está falando" são retóricas ocas diante da conversa que brota pela atenção ao que o outro tem a dizer, talvez a única regra irretocável do lugar.

O Lobo Estúdio parece aqueles espaços sempre em obras. Uma cerâmica nova que redecora um canto lá no fundo. Um vinil que, sem saber o autor da façanha, foi parar na parede. Os quadros de gostos variados de diversas fases da vida do Júnior, como o chamamos, e conhecido como Jota Amaral. Nas entrelinhas da inquietação decorativa, o olhar fotográfico da jornalista Nara Assunção, que redesenha as paredes com criações de muitas origens, por vezes temporárias e abertas ao próximo artista.

Não sou músico, mas de vez em quando visito o estúdio. É o lugar onde me perco na pluralidade visual e, por isso, perco a hora em horas de conversa. Não é endereço para cargos, status ou de onde você vem. A pauta respeita o menu dos ecléticos.

Se agora se fala da religião, daqui a cinco minutos a conversa é cinema. Depois, política, que deságua em livros sobre rock, que resulta em papo sobre jornalismo, que vira uma troca de ideias sobre futebol, que pode retornar à religião ou descambar num intercâmbio de experiências sobre viagens ou - quem sabe? - livros outra vez.

O Lobo Estúdio, escondido nas fronteiras da Vila Mathias, me descansa a cabeça. Posso sair de lá com um livro de rock do baterista do Rush ou de mãos livres do stress cotidiano.

A receita, nos intervalos, é só observar o que Luna, a menina fissurada por mamão, investiga antes de correr para os braços do pai ou desabar no colo da mãe. A estripulia que não afeta meus filhos que, entre garfadas de pizza, convivem entre as cartas de um desenho japonês.

Obs.: Texto publicado no site Juicy Santos, em 2 de agosto de 2016.

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