domingo, 7 de agosto de 2016

Drummond e o poema olímpico

Vanderlei Cordeiro de Lima, após acender a pira olímpica

André Argolo

Ainda me chega, num barulho de televisão, a leitura de Fernanda Montenegro do poema A flor e a náusea, de Carlos Drummond de Andrade, nas cores da abertura da Olimpíada do Rio de Janeiro. Sem cerimônia, o espetáculo me estacou várias vezes bem no coração. Sangrei salgado pelos olhos, uma esperança que anda guardada bem, bem no fundo de algum lugar de mim que não sai em raio-x ou ressonância magnética.

Paulinho da Viola, gênio da gentileza, dedilhando em voz segura e tranquila o velho hino nacional; um Maracanã inteiro desenhado por linhas de Niemeyer como rastro da beleza de Gisele Bündchen caminhando para um eterno Tom Jobim, tantas homenagens, tantas referências importantes do que somos, brasileiros, de mais belo - ainda que bem debaixo dos narizes sujos e o comando do que temos de mais feio -; nossos grandes atletas, que tanta dor doaram em nome da vitória e do encanto, Guga, Hortência, Oscar, Joaquim Cruz, Robert Scheidt, Torben Grael, Vanderlei Cordeiro, (esqueceram do Carlão! Cadê o Carlão do vôlei??); e o espetáculo todo em si, criado por gênios do país que estão em plena atividade, refinando nossa cultura, provocando admiração, como Fernando Meirelles.

A esperança é irmã da beleza, e a beleza não é óbvia. Um dos grandes pensadores do mundo nos tempos de hoje, Tzvetan Todorov, escreveu A beleza salvará o mundo. É? Aí que minha esperança brotou da escuridão, minha própria escuridão, bem quando, de forma completamente inesperada, Drummond invadiu a cerimônia mais vista em todo o planeta com um poema tão importante pra mim, no instante em que se conclamava a salvação da vida na Terra.

A flor e a náusea está no livro A rosa do povo, de 1945. É o livro mais engajado de Drummond, um poeta preocupado com os rumos de um mundo bastante destruído pela Segunda Grande Guerra. E isso é tocante: estão nos textos desse livro problemas e tendências destrutivas da sociedade que só se tornaram mais evidentes ao longo dos séculos e que os tornam atualíssimos em 2016. O que somos e o que podemos ser. 


Carlos Drummond de Andrade

Escrevi um depoimento em 2014, publicado no jornal Rascunho, de Literatura, sobre A rosa do povo: "...esse livro é meu quarto escuro. Quando entro, ele me revela: é a própria flor que nasceu no asfalto. (...) publicado 29 anos antes de eu ter nascido, me reinaugura a cada vez que leio".

Em 1951, quando Carlos Drummond de Andrade já era um homem maduro, a um passo de ter 50 anos de idade, e era também um poeta maduro - Alguma poesia, seu primeiro livro, já tinha 20 anos -, então nesse ano de 51 ele fez o livro Claro enigma.

Drummond morreria apenas em 1987 e muitos, muitos livros depois. Por isso, lendo hoje, é surpreendente que o soneto Legado termine com esta estrofe:

De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho.


Ele sabia que No meio do caminho era seu hit mais pop, e que atrapalhava, por outra forte característica nossa, o reducionismo, o acesso à obra tão vasta, tão significativa.


Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra.
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.



Mas então, em vez do óbvio, os autores da cerimônia de abertura da Olimpíada tiram uma pedra do meio do caminho, sacam A flor e a náusea, poema denso e menos conhecido da maioria que diz ao menos saber quem é Drummond (por causa da pedra no caminho).

Tem vários termos que podem ser usados para isso, mas particularmente gosto muito do verbo iluminar. O professor, mais que ensinar, ilumina o conhecimento, uma descoberta, as conexões entre saberes.

A arte ilumina a humanidade. E a esperança que se acendeu nesse momento foi como nos versos de Drummond, uma flor que "furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio". 

Hannah Arendt

Então do que falo aqui é de uma identificação muito pessoal com algo muito grandioso. Identificação que a pensadora Hannah Arendt sintetizou no livro A condição humana, de 1958: "A presença de outros que vêem o que vemos e ouvem o que ouvimos garante-nos a realidade do mundo e de nós mesmos". 

Dormi de sexta para sábado com a ilusão de que ainda não estou completamente louco. E que essa abertura é um portal que talvez possamos atravessar.

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