segunda-feira, 11 de julho de 2016

Eis o sofrer!



Paula Vinhedo

Sou considerada uma boa ouvinte. Esforço-me para julgar pouco - quem não julga mente ou não sabe o significado da palavra -, opino somente quando necessário e luto para não dizer o que a pessoa tem que fazer. Não é mérito, apenas precaução. Quando você diz o que o outro tem que fazer, é certo que você será culpada pelo erro. Se sua amiga foi incapaz de escolher um caminho, é provável que ela não assuma a responsabilidade pelo equívoco.

Tenho me aborrecido com pessoas próximas que dizem sofrer. Aí entra o meu limite de tolerância. Elas sofrem mesmo - não duvido disso -, mas a questão é como se envolvem, procuram, pesquisam, sabotam situações para desembocar numa espiral em que prevalece a dor, a amargura, a angústia e a versão perversa chamada de vitimização.

Tomei certa distância de uma amiga que vive reclamando de falta de dinheiro. Ela tem emprego fixo, ganha duas vezes mais do que eu, é solteira, possui carro, casa própria, familiares próximos e amigas fiéis. Viaja todos os anos, inclusive para fora do país, pode pagar por cursos extras e consegue, sem grandes apertos financeiros, ir a bares, restaurantes e cinemas.

Na semana passada, eu a convidei para participar de um rateio que resultaria na compra de um presente para amiga comum. Aniversário. Ela se recusou. Bastava dizer não que não haveria insistência. Mas tive que ouvir que a vida dela era um caos, que estava contando moedas, que economizava até no almoço por quilo todos os dias. Permaneci em silêncio, pois vi - em rede social - fotos dela em viagem para um resort no final de semana anterior.

Parei de encontrar outra amiga para conter minha irritação. Meu marido me alertou, depois de um encontro, com algumas perguntas-chave. O que ela sabe sobre sua vida? Pouco. Ela pergunta sobre suas dores? Quase nunca. Ela está presente quando você precisa do ombro de uma amiga? Nas encruzilhadas da vida, não. Meu marido calou-se diante das evidências.

Uma coisa é dividir as dificuldades. Outra coisa é se transformar em para-raio do sofrimento alheio. E também não consigo mais me sensibilizar pelo que entendo como picuinha.

Essa segunda amiga tem história semelhante. Bens materiais, bom emprego e salário fixo, amigos e parentes que a amam. E vive em clima de sabotagem, se alimenta de reclamar de tudo o que acontece. Situações cotidianas que viram problemas onde não existem. Fiquei farta dos muros de lamentações.

Buscar o sobrinho na escola é um problema. Dormir na casa do namorado é uma expedição. Emprestar o carro para a irmã é uma represa com rachaduras. Trabalhar na segunda-feira à tarde é o muro intransponível. E assim vai.

Passei a perceber o quanto preciso de distância de pessoas assim. Evito me queixar da minha vida, bem melhor do que a da maioria das pessoas. Se há algo que me machuca, divido com meu marido ou com amigas próximas. Mas jamais os procuro para superdimensionar pequenezas do cotidiano.

O sofrimento é particular, tanto na intensidade como na frequência. No entanto, nem tudo na vida é conquistado à base de dor e melancolia. E, mesmo que o sejam, devemos celebrar as vitórias mínimas, capazes de nos aproximar de quem gostamos e de nos preparar para os triunfos maiores, estes mais raros. E se eles não vierem, já vencemos.

Acredito que seja mais confortável ser a vítima. A dor passa a ser o salvo-conduto para centralizar o mundo em torno de si mesma. A dor alheia ganha ares de irrelevância, de figuração na vida de quem é mestre no sofrimento, artificial ou não.

Sofrer pode ser a morfina emocional. Não há mais sangue além das feridas autoflageladas. O mundo fica confortável se se é cuidado, sem a menor energia para cuidar.

Sofrimento representa, para mim, regime de exceção. Sofrimento não é desejo mal resolvido pelo que não se tem. Por que não se dá valor ao que está ali, ao lado, adquirido, recebido ou presenteado? Sofrer é para casos extremos, de estado de alerta, de riscos reais de perda de algo ou alguém.

Começo a desconfiar de que minhas amigas sofrem porque querem reclamar das derrotas. Pintar tudo como ponto negativo. Reverter o ganho à dor de pé de página, como se a história real fosse menor. Quando a torna menor, elas reduzem também o significado de seus personagens e de suas experiências. O personagem principal se torna a história. O eu contado a si mesmo.

Não suporto a exclusão da essência dos atos e das pessoas por caprichos. Tenho uma vontade que beira o incontrolável de dizer: "Para de reclamar, pelo amor de Deus! Você tem uma vida boa e fica choramingando o tempo todo. Parece criança mimada! Olhe em volta e veja, porra!" Se ainda fossem dramas pessoais para telejornais de final de tarde, haveria Ibope. Mas sou a única audiência disponível para berreiro sem lágrimas.

Não me julgo melhor do que elas. Eu me afastei para não cair em tentação de comparar definições de sofrimento. Pulei a fase em que somente ouvia. Pulei a etapa dos conselhos das coisas mínimas. Entrei no período de que eu prefiro não sofrer com elas. Sou amiga, e não terapeuta.

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