terça-feira, 5 de julho de 2016

Carta a uma velha amiga

Thelma e Louise, um símbolo de amizade

Paula Vinhedo

Preciso pedir desculpas. Enganei-me, não com você, mas com a crença de que não me importaria tanto com sua partida. Confesso que me senti melancólica sobre sua saída discreta, isolada, solitária.

Minha reação é paradoxal porque não estou surpresa com o resultado. As surpresas vieram de certos personagens, não com o desfecho provisório da narrativa, um livro de 30 anos que construímos juntas.

Acredito - e deixaria de ser sua amiga se mentisse - que você colheu os frutos de suas escolhas. O mérito é que foram suas, mas sob a capa da surdez seletiva e da fé que tudo se resolve por convicções superficiais, jamais por dúvidas que podem representar cautela e acertos de longo prazo.

Você partiu sozinha, e só me dei conta de que nada mudaria na rotina das pessoas na véspera. O comunicado singelo sobre a partida numa rede social passou quase em branco, exceto pelas mensagens protocolares dos amigos circunstanciais da vida editada pelo computador. Pessoas que conviveram contigo por décadas desconheciam as informações mais elementares.

Estas amizades foram demolidas ao longo dos últimos anos. Testemunhei gente se afastando, falando mal pelas costas, diminuindo sua importância para a vida delas. Em parte, gente que ações posteriores mostraram que pouco ou nada valem. Gente com preconceito nas veias, com dedos enrijecidos pelo moralismo de boteco.

Só que também conversei com gente coberta de razão, cansada de auxiliar, de se sacrificar, de ponderar, alertar e lutar junto. Gente que passou a te temer pela imprevisibilidade, a fugir para não te julgar, a se calar porque se cansou de explicar que prevalecia a insistência no erro.

Ouvi em rodas de conversa que fui uma das duas amigas que sobraram. Não me orgulho disso. Permanecer não foi heroico. Apenas aconteceu. Nos últimos meses, pensei com seriedade em me afastar também. Percebi - o que outros haviam me sugerido antes - que o princípio básico de uma amizade havia ruído. Amizade só funciona como mão dupla, com idas e vindas, como mutirão de uma laje que nunca ficará pronta.

Sentia-me cada vez mais incomodada com suas ausências e a procura somente para solicitar, num texto que beirava a exigência, a reivindicação urgente sobre algo que estourara prazos por sua culpa. Ficava com a sensação de que minha rotina perdia importância, de que deveria ter a obrigação de paralisar o carro em andamento para receber uma passageira, cuja rota divergia do restante. Uma passageira no direito de canalizar o trajeto.

O diálogo entre nós se resumia a um único assunto, ameno, de entretenimento como um seriado leve de TV. Sentia-me triste porque nada sobre minha vida era questionado. A escuta morreu e foi substituída por discursos empacotados, ideias fechadas, derivadas de informações parciais, muitas vezes fornecidas por amigas virtuais da espécie comentarista de link.

Passei a adotar o não como resposta inicial aos pedidos, em tese, emergenciais. Percebi, com dor, que me tornara como você, sempre negando por se colocar no topo de lista.

Compreendi, depois, que negar não era egoísmo, era preservação. Limites eram necessários para não engolir uma invasão que você não parecia notar. Uma intromissão de quem parecia acreditar que eu te devia, inexistente numa relação horizontal, que pressupõe o mais próximo possível da igualdade de condições e oportunidades.

Perdoe-me pela franqueza, mas encaro amizade como conceito que traz consigo a capacidade de se colocar no lugar do outro, de recuar quando uma atitude corta este outro, de sorrir quando o outro obtém sucesso. Nos últimos tempos, temia relatar meus avanços diante da indiferença ou do questionamento inquisitório.

Sou uma velha ave em relacionamentos humanos. E penso ser positivo quanto mais me dedico a estudar a dinâmica atual da convivência humana. Um exemplo é a vida projetada na rede social, onde as tais amigas correm à primeira solicitação do mundo real. É simples sumir na selva da informação e reaparecer quando as trombetas indicam que deu certo.

Amizades são poucas. Não há garantias de que duram anos. Estamos cercadas de conhecidas, muitas colegas e diversas aventureiras, sempre dispostas a opinar em tom professoral sobre o que devemos fazer e a evaporar quando se pede um ponto de referência.

Minha amiga, você caiu nessa armadilha pela segunda vez em 15 anos. Sua história é taxativa em mostrar que, na hora da encruzilhada, foram sempre os mesmos personagens a te empurrar para frente no enredo. Contrariadas ou não, foram pragmáticas em solucionar questões, demandar energia para que seus desejos fossem atendidos, mesmo se fossem eventuais caprichos. Cobriram, inclusive, rastros sem dar um pio.

Tentei te dizer pessoalmente o que penso. Consegui, em parte. Jamais questionei suas vontades ou escolhas. Quando me pediu, apontei caminhos dentro das limitações da minha experiência. Só que, recentemente, adotei distância segura para retomar o fôlego e evitar furar o sinal que mantém a salvo o território da amizade. Vi a teimosia se manter de pé, em detrimento de outras amizades, aprofundando mágoas em pessoas próximas que perderam as energias mais cedo.

Passei a avaliar nossa amizade quando notei que seus bens materiais pareciam mais relevantes para outras pessoas do que seu bem-estar. A primeira tentação seria julgá-las por indecência, mas as compreendi. A mágoa mal resolvida havia assentado, penetrado nos poros, depois da expectativa por pedidos de desculpas que jamais ocorreram. Não falo da desculpa pelo medo, mas do pedido de perdão pelo respeito.

A mudança de ares talvez possa reconstruir, para mim, uma amizade que ficou presa nas bordas. Talvez voltemos a ter o que dizer uma à outra. Outras experiências, a autonomia, a perspectiva de que agora o poço tem fundo podem te modificar para além dos muros da vida virtual.

Não pretendo dizer o que deve fazer - e me orgulho de nunca ter imposto -, mas tenho, como qualquer mulher, caminhos de preferência. São rotas que aumentariam as chances de um futuro mais saudável, menos doloroso e honesto como os que te cercaram.

Talvez você ainda esteja presa à uma imagem construída, e não às mudanças que empurraram sua vida para outros endereços. A mudança foi somente a coroação de um processo de anos. As pessoas são metamorfose contínua. Nós não seríamos diferentes.

Prefiro somente torcer para que nossas biografias se cruzem outra vez, com o nariz apontado para a mesma direção. Apenas desejo que trabalhe duro e conquiste. Sorte é desculpa para reduzir o esforço do outro. Esforce-se! Estarei pronta a ajudar, não a fazer por ti quando seu braço alcança o objeto. Um beijo fraterno.

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