domingo, 10 de julho de 2016

Camila e Eliana: as contadoras e suas histórias

Camila Genaro, contando histórias na orla de Santos

Marcus Vinicius Batista

Camila virou contadora de histórias depois de virar professora. Eliana virou professora depois de virar contadora de histórias.

Camila viajou horas para contar histórias na Venezuela, Colômbia e em Santa Bárbara, no interior. Eliana também esteve em Santa Bárbara, mas viaja duas horas da Praia Grande até Santos para contar histórias, aos domingos, na Pinacoteca Benedito Calixto.

Camila é viciada na palavra. Depois de 15 anos, saiu da sala de aula para viver exclusivamente como contadora de histórias. Eliana também depende da palavra. Depois de oito anos como contadora de histórias, voltou à sala de aula para cursar Jornalismo.

Assisti às duas num lugar cercado pelas palavras impressas em balões. Camila Genaro e Eliana Greco falaram sobre sua profissão numa conversa na Gibiteca de Santos. Elas contaram suas histórias de vida e, claro, contaram histórias para falar de nossas vidas.

Minha vida esbarrou com a delas de diferentes jeitos. Camila Genaro foi professora da minha filha Mariana, há cinco anos. Foi a última turma antes de Camila largar o magistério; pelo menos, o formal, em sala de aula.

Mariana queria reencontrá-la, mas estava com vergonha de se identificar. Nem precisou. Camila a reconheceu e a abraçou bem apertado, nas palavras da própria. O gesto se repetiu mais quatro vezes até a despedida.

Nós nos conhecíamos no mundo virtual, o que não quer dizer muita coisa - com razão, para quem conta histórias. A Gibiteca é o que vale agora como primeira impressão.

Eliana Greco é minha aluna na Universidade Santa Cecília. Aluna é modo de dizer, pois a experiência de vida inverte os papéis depois que o conteúdo jornalístico acaba na lousa. Ela teve a coragem de dividir comigo seus esforços e desejos para continuar no curso. Enfrenta em igualdade de condições qualquer moleque recém saído do Ensino Médio ou o fogo amigo que, de vez em quando, tenta sabotar os sonhos numa idade em que muitos desistiram de imaginar. 

Eliana Greco
Camila e Eliana são insistentes. Escolheram (duas vezes cada uma) profissões de reconhecimento duvidoso. Dúvida que se manifesta naqueles que juram ser capazes de fazer o trabalho porque minimizam o estudo, porque creem que existem ofícios mais nobres do que explicar o mundo como os gregos antigos faziam nas praças. Ou por arrogância, fruto da escravidão pelo status.

Camila insistiu em cumprir o compromisso acertado com o jornalista André Rittes, mediador do debate na Gibiteca. De rosa na cabeça e vestido e casaco que pareciam emprestados de um conto de fadas, Camila chegou ao encontro depois de contar histórias para adultos e crianças numa festa em bairro de classe média alta. O sorriso frequente, o vozeirão e a habilidade de conectar qualquer fato a uma história fizeram com que gente da plateia acreditasse que ela estava vestida de maneira casual.

Eliana estava mais discreta. Vinha de casa, vencera a peregrinação de duas horas de ônibus pela palavra. Mas carregava o amuleto que sempre a lembra de quem se tornou. E que serve, quando a história se espalha pelo ambiente, para nos lembrar de quem somos. Uma lâmpada de plástico, daquelas que abrigam gênios e permitem três desejos, objeto destinado ao lixo, uma joia para a contadora de histórias.

Quando se pergunta alguma coisa a elas, sente-se que lá vem uma história, causo, conto, fábula, sei lá. Falam de si próprias contando sobre os outros que nos dizem sobre nós mesmos. Eliana sacou a lâmpada para nos explicar a importância das escolhas na vida, numa união de opções para se agarrar uma alternativa maior, talvez definitiva.

Camila se levantou e interpretou a história do bolinho, famosa adaptação que ela fez da história de Tatiana Belinky, que adaptou o conto da cultura russa. Não há visita de Camila à Gibiteca sem bolinhos.

Camila e Eliana são insatisfeitas. Camila ficou conhecida por contar histórias a partir de lendas de Santos. Nas viagens, percebeu duas coisas: 1) o público queria as histórias de Santos, mesmo sem conhecer a cidade; 2) o desejo era derivado das semelhanças entre as lendas em vários lugares do país. Exemplo: a mulher que ronda o Cemitério do Paquetá. 

Projeto Caça-Calixto, na Pinacoteca Benedito Calixto

Eliana, por outro lado, vai viajar este mês para Vargem Alta, no Espírito Santo. A viagem faz parte do projeto Rondon, do Governo Federal. Em terras capixabas, vai coletar e contar histórias.

Um adulto que perdeu o fio da história poderia dizer que as duas, fantasiadas, são crianças crescidas. Camila e Eliana contam que muitos até pensam deste modo no começo de uma festa ou um evento corporativo. Aí vem a reviravolta que os levam a confessar: "Não imaginava que poderia me imaginar assim!"

As duas ensinam que uma história boa não tem tempo ou faixa de idade. Tem substância. Como Eliana que, no final, nos contou uma história miojo: "Aquela que dura três minutos." Qual foi? Aí é outra história.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 7 de julho de 2016.

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