sábado, 16 de julho de 2016

As quintas românticas da Lofty

Foto: Sergio Willians - Memória Santista

Marcus Vinicius Batista

A fila era maior do que eu esperava. Levaria pelo menos meia hora para entrar na casa. Matei aula na faculdade para prestigiar o aniversário da tia de uma amiga. Era a desculpa de que precisava para conhecer o cenário - ou melhor, os rituais - que meu amigo Marco Antônio me contou.

Com 18 anos, eu estava na fila para conhecer a quinta romântica da Lofty, casa noturna de sucesso nos anos 80, mas que segurava as pontas na década seguinte. Eu troquei as matinês da adolescência por uma balada de meio de semana, com gente que poderia - e muitos tinham - a idade da minha mãe. Antes de sair, me certifiquei de duas coisas: 1) minha mãe ficaria em casa; 2) ela não gostava de quintas-feiras românticas em boate (expressão essa da mãe dela).

Eu não estava ali para caçar nem para dar uns malhos, em mais uma arqueologia linguística. Eu estava acompanhado e imaginava que não corria riscos além de me entediar, talvez, com o aniversário da tia quarentona. Fina ironia, escrever hoje, aos 41, sobre um tempo em que tinha a idade de meus alunos e considerava ter 41 sinal de velhice.

Os riscos de um relacionamento fora de época - a quinta era romântica - eram pequenos. Não acreditava que poderia conhecer novamente uma mulher como Silvia, ex-colega de trabalho, com mais do que o dobro da minha idade, que me dizia coisas impublicáveis. Impublicáveis porque mostra como a inexperiência te leva a ficar apavorado aos 17 anos.

Meu amigo Marco Antônio vivia me contando histórias de amigos dele - e um ou outro colega nosso - que namoravam mulheres mais velhas, que conheceram na quinta romântica da Lofty. Um deles, inclusive, ganhou um banho de loja por causa de um amor de gerações. Na hora, pensei em outro nome, menos poético e mais honesto, para o relacionamento pseudorremunerado.

Subi as escadas ao som de um clássico da dance music. Anos 70, minha infância, um som animador para quem estava na época errada. Nos anos 70/80, fui uma criança de Balão Mágico e Plunct Plact Zoom. Meus pais ouviam MPB e música caipira, formação que carreguei pelo resto da vida. A dance music nasceu, para mim, direto como flashback.

Ao entrar na pista, tinha a obrigação de armazenar, em qualquer canto da memória, minhas experiências pessoais. Dali não valeriam de nada. Esqueça a Zoom, que ficava do outro lado da rua. Nunca fui VIP, nunca tive carteirinha de sócio-contribuinte e jamais estive entre os sujeitos que varavam a noite na pista. Virar a noite, com música alta de fundo, acontecia quatro vezes ao ano, de sábado à terça de Carnaval.

A tia da minha amiga estava animada. Muitas amigas, parentes, alguns desconhecidos e eu. Não sei se já estavam lá para a claque de parabéns, com direito ao bolo, ou se foram convidados. Da minha idade, só eu e minha namorada. Todos dançavam em roda músicas dos anos 60 e 70. De vez em quando, pipocava algum pop rock recente, dos anos 80. Era 1992 e vivíamos uma transição musical, eu me incluo nesta fase.

Conforme a festa avançava, me dei conta de que o objetivo ali era único. Só nós comemorávamos aniversário. Na quinta romântica, o flerte, a paquera (outra peça do Museu da Língua Portuguesa), a conquista ou apenas uma dança sem perguntar o nome estavam em jogo.

Passei a seguir a premissa inicial e conselho do meu amigo: acompanhar o ritual. Eu era, à força do tempo e do espaço, um antropólogo amador a observar uma tribo urbana em plena atividade social e cultural.

Entrei na roda de dança, engoli a timidez e distribui sorrisos. Era uma festa de aniversário e já bastava meu deslocamento natural. Tinha que participar do evento. Era uma pesquisa-participante, diria algum acadêmico.

Participei até a página dois (ou a quinta música, não sei). Chegou o momento do qual havia me esquecido, talvez por ter me distraído com a festa, talvez por deixar em algum canto do cérebro a mensagem de que danças coreografadas não escolhem endereço ou quantidade de rugas no rosto.

De início, tentei resistir, mas percebi que ficaria chato ser o único a sair da roda. O levantar de braços, os pulinhos para o lado e os movimentos de perna me davam a sensação contínua de constrangimento. Não conhecia a coreografia, não me avisaram que haveria, não me deram o direito de recusa. E olha que não haviam inventado Macarena.

Discretamente, decidi que era o momento de me afastar para o lado escuro da pista. Um, dois passos para trás e, meia música depois, estava fora da roda e aliviado. Daí em diante, assisti e me diverti com os movimentos descoordenados e descompromissados dos convidados da festa. Só não era para mim, tão duro quanto um turista belga em um trio elétrico na Bahia.

A tia da minha amiga, uma hora depois, assoprou velas, todos comeram bolo de chocolate em guardanapo, abraços e beijos. Em outras áreas da Lofty, a vida real mantinha casais em movimento, dançando ou conversando a menos de 30 centímetros um do outro.

Saí de lá bem mais cedo do que previra. Estava em casa no começo da madrugada. Não vi caras como eu, de braços dados com outras tias. Na Lofty, o que se gastava em som, economizava-se em luz.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 13 de julho de 2016.

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