segunda-feira, 25 de julho de 2016

As contradições da tocha



Marcus Vinicius Batista

Quase sempre é preciso esperar. Evitar a empolgação e/ou a irritação. Ponderar sobre um fenômeno. A passagem da tocha olímpica pela minha cidade provocou o que se esperava em torno dela, dentro do contexto pré-Olimpíadas no Brasil. A tocha simboliza reações ambíguas sobre a competição e eu me incluo neste quadro de contradições, previsíveis e humanas.

A tocha olímpica carrega o que há de melhor e o que existe de pior em nós, brasileiros. Ambos os comportamentos são explorados como ferramenta político-eleitoral, espetáculo de mídia e termômetro cultural contemporâneo. A tocha é mais do que um produto que servirá de souvenir para exibição na posteridade. A tocha espelha na chama o que somos e o que não poderíamos ser.

A tocha olímpica não significa uma vitória esportiva, traduzida em medalhas ou a obsessão pelo quadro que provaria o sucesso ou o fracasso de uma política esportiva. A medalha caracteriza o resultado de uma minoria, de uma elite que não retrata, na maioria das vezes, o cotidiano dos atletas que chegarão aos Jogos Olímpicos; menos ainda a vida de quem não conseguiu índice ou ranking para estar lá.

A tocha é a ausência de glamour dos treinamentos diários, do equipamento esportivo que falta, da remuneração que beira a indigência, dos patrocinadores que só pensam em estrelas de mídia. A tocha é para quem entende o esporte como sacrifício das dores, dos familiares que parecem visitantes ocasionais por causa das competições, da alimentação rigorosa, da disciplina somada a uma dose de obsessão para lidar consigo mesmo e com a falta de compreensão alheia.

O atleta brasileiro não é o modelo plastificado da TV. O atleta é um operário, com privações físicas e psicológicas. O atleta é um sujeito anônimo, cujos resultados ganham, poucas vezes, destaque no jornal. É a turma da rifa, da queijadinha, do semáforo a juntar as moedas para viajar e ficar em alojamentos frios, em colchonetes, sem técnico, muito menos staff e outras regalias. Este mundo do espetáculo olímpico acontece para uma minoria que a alcançou por méritos, mas jamais deve ser apontada como regra geral. Pelo contrário.

A tocha representa essa gente que, depois de aposentada, costuma ser enterrada pelos gestores políticos do esporte, obrigada muitas vezes a desempenhar outros papéis sociais para continuar a pagar as contas. O conhecimento e a experiência levam muitos a se manter em atividades esportivas paralelas. Para os esportes menos nobres, sobra a lembrança a cada quatro anos, como um exemplo domesticado de memória fugaz.

Por outro lado, a tocha atrai uma série de abutres dispostos a mordiscar uma fatia do que ela representa. São pessoas de todas as etapas da cadeia alimentar, de empresários a políticos, de celebridades de segundo nível a vips provincianos, gente que nunca esteve sequer na arquibancada e, aposto, desconhece quase todos os atletas que nos representarão. Vá lá, é provável que se lembrem do Neymar ou de algum jogador de vôlei.

Neste caso, a tocha nos indica o quanto não estamos prontos para as Olimpíadas. O Brasil jogou fora duas oportunidades, os Jogos Pan-Americanos e a Copa do Mundo. O primeiro deixou carcaças a céu aberto por várias áreas do Rio de Janeiro. A Copa pariu elefantes brancos, com sucessivos prejuízos, em todas as regiões do país.

As Olimpíadas, além de atraírem mais gente, concentram as atenções de maneira geográfica e, por isso, expõem as lacunas particulares da enganação estrutural brasileira. O país pagará pelo preço da incompetência e irresponsabilidade de seus organizadores, de todas as instâncias, que tiveram uma década para resolver problemas e não o fizeram. Apenas maquiaram o que é sabido. É o fato que confirma a imagem do colonizado.

A tocha significa também uma festa de penetras. O ufanismo esconde uma necessidade de reconhecimento e fama instantânea que beiram o caráter doentio. Vaidade, soberba, status e amor pela aparência compõem o kit olímpico de muitos, dispostos a sorrir para uma câmera e integrar a ilusão da felicidade iluminada.

A tocha, acredito, deveria queimar as mãos de quem tentasse tocá-la por ambição. E aquecer, com exclusividade, as de quem possui ligações umbilicais com o esporte. Atletas, ex-atletas, técnicos, profissionais ligados ao tema, sejam dirigentes (uns poucos), sejam médicos, fisioterapeutas e afins.

A tocha olímpica é importante demais para ser banalizada como instrumento de carnaval individual. Até porque dinheiro público é o motor que a empurra pelas 281 cidades brasileiras.

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