quinta-feira, 21 de julho de 2016

A sopa para olhos enamorados (Crônicas além do quintal # 6)



Bel Klink e Marcus Vinicius Batista

Um mês. Foi o suficiente para ter certeza completa de que os ingleses podem ser bons em muitas coisas. Cozinhar não é uma delas. A comida inglesa é ruim, muito ruim. Claro que as coisas podem ficar ainda piores quando o sujeito que decide encarar os sabores britânicos está contando pennys para conseguir passar o mês sem grandes apuros, e garantir as "lembrancinhas" solicitadas com pouquíssima parcimônia por alguns parentes.

A única exceção que o penniless se permitiu foi o almoço com cara de salvo-conduto e despedida, no Hard Rock Café, em uma tarde cinza e chuvosa, um charmoso clichê londrino que, acredite, deixa saudades. Ali, na ironia da mesa redonda, dentro da franquia de origem norte-americana, uma refeição variada, em ingredientes e preços, que ressuscitava sabores, aromas e provocava, entre o grupo de amigos, uma conversa sobre as delícias da comida e suas experimentações.

A hora de se despedir chegou. O último fim de semana na Europa tinha cara de lua-de-mel dos sonhos: viagem de trem-bala Londres-Paris. Um luxo adquirido no Brasil muitos meses antes, com um superdesconto para compras online que, ainda assim, exigiu tempo para a recuperação do saldo ferido.

A experiência foi linda, mesmo que a viagem de ida, que costuma durar pouco mais de duas horas, tenha durado cinco, com direito à parada para perseguição de um suspeito dentro dos vagões, pela polícia. Mas essa é outra história, na próxima crônica de viagem.

Recebemos, dias antes, de um casal de amigos, uma recomendação: tudo que vocês economizaram em comida em Londres gastem em Paris. Lá é o lugar certo para isso. Decidimos, claro, seguir o sábio conselho sem oferecer qualquer resistência. Mas, no fundo, residia nas entranhas o monstro-clichê, que teimava em repetir que pratos franceses são tão caros quanto pequenos.

Era fim de tarde quando chegamos em Paris. Logo percebemos que o chip pré-pago que nos garantia internet 3G em Londres, não funcionava na França... pode parecer óbvio para alguns. Não era para a gente. Sem contar com o Google Maps e sem saber pronunciar ou compreender uma única frase em francês que nos permitisse ter alguma ideia de nossa localização, como chegar ao hotel? Arriscar-se num táxi que poderia nos cobrar muito mais do que poderíamos pagar?

Depois do momento de desespero, tivemos a brilhante (e também óbvia) ideia de comprar um mapa. Mas onde estávamos exatamente? Eram os maiores 105,4km² que já tínhamos visto na vida! Para esfriar a cabeça e aquecer pés e mãos semicongelados, decidimos sair da estação, atravessar a avenida e ter nossa primeira experiência prazerosa/gastronômica (em Paris, termos quase sinônimos).

Entramos num café e usamos a frase-chave para todo turista que quer falar inglês na França: "Sou brasileiro, você pode falar em português ou inglês, por favor?" Essa frase, dita em francês (a única que tínhamos aprendido), abre portas e sorrisos.

Assim como a dica de "não poupar em refeições", os mesmos amigos nos deram o seguinte conselho: nunca chegue em nenhum estabelecimento francês falando em inglês sem perguntar antes se você pode fazê-lo. As birras variam entre a arrogância de norte-americanos e a secular rivalidade com os ingleses.

Você será atendido, mas a chance de ser fuzilado pelo humor, digamos, ácido do comerciante será muito maior. Dizer que é brasileiro foi nosso grande trunfo. Sempre funcionava como quebra gelo e chave para escancarar sorrisos. Se houver dúvida, futebol sepulta qualquer desconfiança. Conheça os nomes, de Ronaldo a Neymar - Pelé é para mais velhos, e desconheça o jogo. Vitória por goleada.

O garçom simpático arriscou até umas palavras em português. Salvou nossa pele ao circular no mapa o local onde estávamos, para que lado deveríamos ir e qual metrô pegar até nosso hotel. Mais relaxados, tomamos nosso primeiro café au lait. Honestamente? Nada demais. Mas Paris estava apenas fazendo o que faz melhor: ser charmosa. Em alguns minutos, estávamos no hotel. Sem as bagagens, decidimos sair a pé pela noite da Cidade-Luz.

Depois de caminharmos pela Cours de Vincennes extasiados diante da beleza luminosa que já tinha calibrado quase todos os nossos sentidos (ouvir as pessoas falando francês é uma delícia), decidimos insistir no paladar. Paramos em um restaurante na Place de La Nacion.

Usamos outra vez a frase mágica e, claro, sorriso do garçom garantido. Ali nos rendemos, depois de quase quatro décadas de vida, ao fato de que o paladar é o rei dos sentidos. Ao menos naquele canto da Terra. Experimentamos uma sopa de cebola, a melhor de nossas vidas. E era só a entrada. 



A sensação beira o indescritível. Textura, cebolas adocicadas, o cheiro que penetrava pelos poros, a lentidão em tomar a sopa enquanto se domava a fome. Parecíamos crianças que se divertiam com o brinquedo novo e se esqueciam do resto dos presentes em volta da árvore de Natal.

A sopa de cebola causou tamanha revolução na nossa mesa que não conseguimos nos lembrar da outra entrada. A sopa era somente para um dos dois. O prato principal, carne para um, salmão para o outro, fecharam a banca, mas passaram pelo constrangimento de serem mastigados ao som dos comentários sobre a sopa.

Não tivemos forças para pedir a sobremesa. Ficaria para outra ocasião. Dois dias depois, na saideira em Paris, a sopa de cebola preencheu nossa mesa. Desta vez, em outro restaurante e em duplo pedido, para que se dobrassem o prazer e os olhos enamorados por um prato que justificou a fama de Paris, como uma cidade para casais que se reconquistam pelos estômagos. Também!


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