segunda-feira, 18 de julho de 2016

A gripe visita em família (Conversas com Beth # 30)


Marcus Vinicius Batista

A gripe virou moradora em nossa casa. Ela se parece com meu salário: chega no quinto dia útil do mês, dura cerca de 10 dias (pouco mais, pouco menos) e, então, desaparece, mas deixando os avisos de que voltará no mês seguinte.

Como parente oportunista que chega para pedir dinheiro emprestado, a gripe é uma das brigadas auxiliares da lúpus. Você paga o preço do tratamento que silencia a doença. Silêncio é a palavra, pois a redução da imunidade só se faz presente quando os hóspedes indesejados já tocaram a campainha.

É a terceira gripe em três meses. Uma delas durou 15 dias e te deixou de cama por uma semana. Nunca tive gripe semelhante. O que me dá alívio é a ausência de febre, que poderia significar algum tipo de infecção e o retorno ao hospital. Por outro lado, vejo o quanto te debilitam a dor de garganta, a coriza e a tosse, pacote que resulta em dores no corpo e cansaço.

Às vezes, tento te levar para a rua, sair de um ambiente de cultivo de vírus, mas percebo o quanto você se sente exausta. No último passeio, hoje pela manhã, percebi o quanto ficou cansada numa caminhada de meia dúzia de quadras, entre uma conta que paguei e o remédio que você foi buscar na clínica.

Quando entramos no caixa eletrônico, você se encostou de tal forma no balcão, que pensei que fosse cair de joelhos. Sorria, talvez, para esconder a dificuldade em respirar. Resolvi o mais rápido possível para que pudéssemos voltar para casa. Os compromissos secundários ficarão para amanhã.

Não escrevo sobre a gripe para te colocar na posição de vítima. Você nunca foi. Uma coisa é se vitimizar e se queixar no modelo "ó vida, ó azar". Outra coisa é a necessidade real de ser cuidada e, muitas vezes, animada. A melhor arma contra a gripe, principalmente esta de caráter oportunista, é se animar para vivenciar o cotidiano.

Se um lição a lúpus nos deu, esta foi compreender que só se vence um campeonato se passarmos pelos jogos considerados menores. São eles que nos preparam para as partidas mais importantes, num torneio de dois anos de duração, e nos dão a real dimensão de onde podemos chegar, sem ilusões ou tentações de grandeza.

Neste sentido, as sucessivas gripes nunca se aproximaram, acredito eu a partir de suas reações e falas, dos momentos mais severos da lúpus. Elas são como o vizinho chato, invasivo, que traz um pedaço de bolo em cortesia, mas com o objetivo de escarafunchar sua vida e conhecer em detalhes a privacidade do apartamento. Aquele que olha de esguelha pela fresta quando abrimos a porta.

É uma gripe diferente, na qual os remédios convencionais se mostram de pouca eficácia. Aprendi com você a ter paciência, me adaptar às exigências habituais e esperar. Esperar que esta vá embora, como muitas outras.

Escrevo enquanto você dorme. E tosse! E some no edredon! Passou a ser um hábito, não porque preciso de sossego. Quem trabalhou em redação de jornal aprende, na marra, a escrever em meio a tiroteio, baile de carnaval e até orgia (esta última é só um exemplo hipotético).

Escrevo enquanto você dorme porque só o repouso ameniza este visitante incômodo. E escrevo com intervalos, sempre a te observar a cada meia hora. Esta gripe, como disse, não é convencional. Ela é filha bastarda de uma doença que sempre me manterá em estado de alerta. E você, também.

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