sábado, 30 de julho de 2016

Viajar e voltar (Crônicas além do quintal # 7)

Créditos da imagem: http://folhadacidade.inf.br

Marcus Vinicius Batista

Passei anos sem viajar. Não é a viagem curta, de uma, duas horas e retorno, às vezes, no mesmo dia. É a viagem planejada, esperada, com vários dias de duração, para lugares onde você sabe pouco ou nada. De algum modo, você se acostuma, se adapta ao comportamento de temer o novo, de reduzir a importância dele com delicadeza.

Os últimos seis meses foram de mudanças substanciais na vida. De novas perspectivas, de promessas de reveillon que foram cumpridas, de nova dinâmica em diversos relacionamentos, de inícios às segundas-feiras que andaram de fato. De duas viagens (uma terceira no horizonte) que ressuscitaram o vírus capaz de nos empurrar para aeroportos, trens, hotéis, comidas estranhas, gente que veremos uma única vez.

No século passado, não desperdiçava a oportunidade de viajar. Estava na estrada em questão de horas, fazia e desfazia malas e mochilas em minutos. Dizia até breve, derramava lágrimas, beijava, abraçava e andava sem olhar para trás, sem se arrepender de que contaria moedas quando chegasse em casa. A motivação para o trabalho também incluía a ausência dele.

Os medos pelo que pode acontecer, mas quase nunca acontece, adormeceram a vontade de viajar. Os gastos e preocupações com coisas e pessoas que se mostraram supérfluas tomaram a dianteira na lista de prioridades. E nós nos acostumamos. E refazemos contas. E reivindicamos desejos que, muitas vezes, nunca nos pertenceram ou serviram para agradar terceiros, quartos, quintos e te permitiram transitar sem os conflitos inerentes ao desafio contra as convenções sociais.

Beth Soares, minha esposa, resolveu que havia necessidade de um tratamento. Eu convivia com a doença da inércia como se fosse um vizinho de portas de anos. Era mesmo, mas que não me causava perturbação ou incômodo. Eu me sentia escravizado por um modelo de pequenos problemas que subdimensionam os que importam e se fazem fortes pelo conjunto da obra.

A chance de viajar saltitava na nossa frente, rebolava pedindo atenção, gritava por um minuto de argumentos favoráveis. Beth me mostrou como planejamento e pesquisa auxiliam em redução de custos. Eu entrei com a dispensa de problemas, a redução dos meus custos, a diminuição da casa que exige manutenção cotidiana e a distância segura de quem nos atrasa com as mesquinharias dos problemas que não existem. Ou são fantasias elevadas em potência matemática.

Viajar foi o choque de civilização, que nos indica o quanto nos submetemos ao cenário selvagem criado por nós mesmos. Sair de casa nos coloca, por obrigatoriedade, um retrovisor em nossas fuças, com a luz adequada para que vejamos o quanto somos dependentes de elementos inúteis, dentro do trabalho, do consumo, dos anseios alheios, da pequenez das dificuldades que não merecem ser chamadas assim.

O pacote todo resulta na paralisia infeliz, em que desejos se sobrepõem como os cachorros que, no máximo, alcançam o próprio rabo com a ponta da língua.

Viajar escancarou uma porta que eu julgava extinta. É a conversa com gente interessante, de história única, impossibilitada de te julgar pelo passado, presente ou projeção doentia e preconceituosa de futuro. É o deslumbramento com as ruas comuns de outra cultura, com outro clima, com detalhes que só aparecem quando nossas pernas insistem em caminhar mais um pouco.

Estar em outro lugar é a vontade de experimentar, de absorver o sabor de uma comida de nome impronunciável ou a versão estrangeira do que você julgava conhecer como algo único em sua terra. É vivenciar a beleza que penetra sem pressa pelos olhos, pelo cheiro, pelo toque imaginável de quando você está a 300 metros de altura ou pisa em uma calçada qualquer.

Viajar é retomar o prazer de acordar cedo para ver um lugar onde só se sabe o nome e que talvez nunca mais o veja. É contemplar as lágrimas de quem você ama porque o lugar escolhido reacende o quanto ela está viva depois de driblar o lobo da morte pela enésima vez.

Fiquei viciado em viajar. Ir ao longe me sacudiu por dentro a ponto de matar todos os sonhos que fingiam sê-los, que agiam como sintomas de delírios comprados de outros escravos. A lonjura me trouxe para mais perto. Sonhos possíveis, reais, costurados e bordados com a alta probabilidade de experiências felizes.

As viagens me motivam a trabalhar para fazer outras viagens. Viver com menos para ter, como metáfora, uma mala menor que não provoque dores nas costas, de preferência. É um processo longo, que envolve desmamar por meses do antigo vício do conformismo. Tempo que exige policiamento, diálogo e apoio de quem está ao lado e à frente. Viajar não é, para mim, ato solitário. É divisão de vida, minha e dos outros.

Plantamos aqui, em casa, a semente do pomar. São os frutos que darão suporte para conhecermos outras paragens. E convencermos outros agricultores de que semear é o caminho. O pomar, bem irrigado, ficará sólido no papel de nos esperar, até porque viajar significa, para nós, o prazer do transitório, do temporário, inscritos na bússola que sempre nos trará de volta para casa.

Obs.: Texto publicado no site Jornalirismo, em 26 de julho de 2016.


segunda-feira, 25 de julho de 2016

As contradições da tocha



Marcus Vinicius Batista

Quase sempre é preciso esperar. Evitar a empolgação e/ou a irritação. Ponderar sobre um fenômeno. A passagem da tocha olímpica pela minha cidade provocou o que se esperava em torno dela, dentro do contexto pré-Olimpíadas no Brasil. A tocha simboliza reações ambíguas sobre a competição e eu me incluo neste quadro de contradições, previsíveis e humanas.

A tocha olímpica carrega o que há de melhor e o que existe de pior em nós, brasileiros. Ambos os comportamentos são explorados como ferramenta político-eleitoral, espetáculo de mídia e termômetro cultural contemporâneo. A tocha é mais do que um produto que servirá de souvenir para exibição na posteridade. A tocha espelha na chama o que somos e o que não poderíamos ser.

A tocha olímpica não significa uma vitória esportiva, traduzida em medalhas ou a obsessão pelo quadro que provaria o sucesso ou o fracasso de uma política esportiva. A medalha caracteriza o resultado de uma minoria, de uma elite que não retrata, na maioria das vezes, o cotidiano dos atletas que chegarão aos Jogos Olímpicos; menos ainda a vida de quem não conseguiu índice ou ranking para estar lá.

A tocha é a ausência de glamour dos treinamentos diários, do equipamento esportivo que falta, da remuneração que beira a indigência, dos patrocinadores que só pensam em estrelas de mídia. A tocha é para quem entende o esporte como sacrifício das dores, dos familiares que parecem visitantes ocasionais por causa das competições, da alimentação rigorosa, da disciplina somada a uma dose de obsessão para lidar consigo mesmo e com a falta de compreensão alheia.

O atleta brasileiro não é o modelo plastificado da TV. O atleta é um operário, com privações físicas e psicológicas. O atleta é um sujeito anônimo, cujos resultados ganham, poucas vezes, destaque no jornal. É a turma da rifa, da queijadinha, do semáforo a juntar as moedas para viajar e ficar em alojamentos frios, em colchonetes, sem técnico, muito menos staff e outras regalias. Este mundo do espetáculo olímpico acontece para uma minoria que a alcançou por méritos, mas jamais deve ser apontada como regra geral. Pelo contrário.

A tocha representa essa gente que, depois de aposentada, costuma ser enterrada pelos gestores políticos do esporte, obrigada muitas vezes a desempenhar outros papéis sociais para continuar a pagar as contas. O conhecimento e a experiência levam muitos a se manter em atividades esportivas paralelas. Para os esportes menos nobres, sobra a lembrança a cada quatro anos, como um exemplo domesticado de memória fugaz.

Por outro lado, a tocha atrai uma série de abutres dispostos a mordiscar uma fatia do que ela representa. São pessoas de todas as etapas da cadeia alimentar, de empresários a políticos, de celebridades de segundo nível a vips provincianos, gente que nunca esteve sequer na arquibancada e, aposto, desconhece quase todos os atletas que nos representarão. Vá lá, é provável que se lembrem do Neymar ou de algum jogador de vôlei.

Neste caso, a tocha nos indica o quanto não estamos prontos para as Olimpíadas. O Brasil jogou fora duas oportunidades, os Jogos Pan-Americanos e a Copa do Mundo. O primeiro deixou carcaças a céu aberto por várias áreas do Rio de Janeiro. A Copa pariu elefantes brancos, com sucessivos prejuízos, em todas as regiões do país.

As Olimpíadas, além de atraírem mais gente, concentram as atenções de maneira geográfica e, por isso, expõem as lacunas particulares da enganação estrutural brasileira. O país pagará pelo preço da incompetência e irresponsabilidade de seus organizadores, de todas as instâncias, que tiveram uma década para resolver problemas e não o fizeram. Apenas maquiaram o que é sabido. É o fato que confirma a imagem do colonizado.

A tocha significa também uma festa de penetras. O ufanismo esconde uma necessidade de reconhecimento e fama instantânea que beiram o caráter doentio. Vaidade, soberba, status e amor pela aparência compõem o kit olímpico de muitos, dispostos a sorrir para uma câmera e integrar a ilusão da felicidade iluminada.

A tocha, acredito, deveria queimar as mãos de quem tentasse tocá-la por ambição. E aquecer, com exclusividade, as de quem possui ligações umbilicais com o esporte. Atletas, ex-atletas, técnicos, profissionais ligados ao tema, sejam dirigentes (uns poucos), sejam médicos, fisioterapeutas e afins.

A tocha olímpica é importante demais para ser banalizada como instrumento de carnaval individual. Até porque dinheiro público é o motor que a empurra pelas 281 cidades brasileiras.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

A sopa para olhos enamorados (Crônicas além do quintal # 6)



Bel Klink e Marcus Vinicius Batista

Um mês. Foi o suficiente para ter certeza completa de que os ingleses podem ser bons em muitas coisas. Cozinhar não é uma delas. A comida inglesa é ruim, muito ruim. Claro que as coisas podem ficar ainda piores quando o sujeito que decide encarar os sabores britânicos está contando pennys para conseguir passar o mês sem grandes apuros, e garantir as "lembrancinhas" solicitadas com pouquíssima parcimônia por alguns parentes.

A única exceção que o penniless se permitiu foi o almoço com cara de salvo-conduto e despedida, no Hard Rock Café, em uma tarde cinza e chuvosa, um charmoso clichê londrino que, acredite, deixa saudades. Ali, na ironia da mesa redonda, dentro da franquia de origem norte-americana, uma refeição variada, em ingredientes e preços, que ressuscitava sabores, aromas e provocava, entre o grupo de amigos, uma conversa sobre as delícias da comida e suas experimentações.

A hora de se despedir chegou. O último fim de semana na Europa tinha cara de lua-de-mel dos sonhos: viagem de trem-bala Londres-Paris. Um luxo adquirido no Brasil muitos meses antes, com um superdesconto para compras online que, ainda assim, exigiu tempo para a recuperação do saldo ferido.

A experiência foi linda, mesmo que a viagem de ida, que costuma durar pouco mais de duas horas, tenha durado cinco, com direito à parada para perseguição de um suspeito dentro dos vagões, pela polícia. Mas essa é outra história, na próxima crônica de viagem.

Recebemos, dias antes, de um casal de amigos, uma recomendação: tudo que vocês economizaram em comida em Londres gastem em Paris. Lá é o lugar certo para isso. Decidimos, claro, seguir o sábio conselho sem oferecer qualquer resistência. Mas, no fundo, residia nas entranhas o monstro-clichê, que teimava em repetir que pratos franceses são tão caros quanto pequenos.

Era fim de tarde quando chegamos em Paris. Logo percebemos que o chip pré-pago que nos garantia internet 3G em Londres, não funcionava na França... pode parecer óbvio para alguns. Não era para a gente. Sem contar com o Google Maps e sem saber pronunciar ou compreender uma única frase em francês que nos permitisse ter alguma ideia de nossa localização, como chegar ao hotel? Arriscar-se num táxi que poderia nos cobrar muito mais do que poderíamos pagar?

Depois do momento de desespero, tivemos a brilhante (e também óbvia) ideia de comprar um mapa. Mas onde estávamos exatamente? Eram os maiores 105,4km² que já tínhamos visto na vida! Para esfriar a cabeça e aquecer pés e mãos semicongelados, decidimos sair da estação, atravessar a avenida e ter nossa primeira experiência prazerosa/gastronômica (em Paris, termos quase sinônimos).

Entramos num café e usamos a frase-chave para todo turista que quer falar inglês na França: "Sou brasileiro, você pode falar em português ou inglês, por favor?" Essa frase, dita em francês (a única que tínhamos aprendido), abre portas e sorrisos.

Assim como a dica de "não poupar em refeições", os mesmos amigos nos deram o seguinte conselho: nunca chegue em nenhum estabelecimento francês falando em inglês sem perguntar antes se você pode fazê-lo. As birras variam entre a arrogância de norte-americanos e a secular rivalidade com os ingleses.

Você será atendido, mas a chance de ser fuzilado pelo humor, digamos, ácido do comerciante será muito maior. Dizer que é brasileiro foi nosso grande trunfo. Sempre funcionava como quebra gelo e chave para escancarar sorrisos. Se houver dúvida, futebol sepulta qualquer desconfiança. Conheça os nomes, de Ronaldo a Neymar - Pelé é para mais velhos, e desconheça o jogo. Vitória por goleada.

O garçom simpático arriscou até umas palavras em português. Salvou nossa pele ao circular no mapa o local onde estávamos, para que lado deveríamos ir e qual metrô pegar até nosso hotel. Mais relaxados, tomamos nosso primeiro café au lait. Honestamente? Nada demais. Mas Paris estava apenas fazendo o que faz melhor: ser charmosa. Em alguns minutos, estávamos no hotel. Sem as bagagens, decidimos sair a pé pela noite da Cidade-Luz.

Depois de caminharmos pela Cours de Vincennes extasiados diante da beleza luminosa que já tinha calibrado quase todos os nossos sentidos (ouvir as pessoas falando francês é uma delícia), decidimos insistir no paladar. Paramos em um restaurante na Place de La Nacion.

Usamos outra vez a frase mágica e, claro, sorriso do garçom garantido. Ali nos rendemos, depois de quase quatro décadas de vida, ao fato de que o paladar é o rei dos sentidos. Ao menos naquele canto da Terra. Experimentamos uma sopa de cebola, a melhor de nossas vidas. E era só a entrada. 



A sensação beira o indescritível. Textura, cebolas adocicadas, o cheiro que penetrava pelos poros, a lentidão em tomar a sopa enquanto se domava a fome. Parecíamos crianças que se divertiam com o brinquedo novo e se esqueciam do resto dos presentes em volta da árvore de Natal.

A sopa de cebola causou tamanha revolução na nossa mesa que não conseguimos nos lembrar da outra entrada. A sopa era somente para um dos dois. O prato principal, carne para um, salmão para o outro, fecharam a banca, mas passaram pelo constrangimento de serem mastigados ao som dos comentários sobre a sopa.

Não tivemos forças para pedir a sobremesa. Ficaria para outra ocasião. Dois dias depois, na saideira em Paris, a sopa de cebola preencheu nossa mesa. Desta vez, em outro restaurante e em duplo pedido, para que se dobrassem o prazer e os olhos enamorados por um prato que justificou a fama de Paris, como uma cidade para casais que se reconquistam pelos estômagos. Também!


segunda-feira, 18 de julho de 2016

A gripe visita em família (Conversas com Beth # 30)


Marcus Vinicius Batista

A gripe virou moradora em nossa casa. Ela se parece com meu salário: chega no quinto dia útil do mês, dura cerca de 10 dias (pouco mais, pouco menos) e, então, desaparece, mas deixando os avisos de que voltará no mês seguinte.

Como parente oportunista que chega para pedir dinheiro emprestado, a gripe é uma das brigadas auxiliares da lúpus. Você paga o preço do tratamento que silencia a doença. Silêncio é a palavra, pois a redução da imunidade só se faz presente quando os hóspedes indesejados já tocaram a campainha.

É a terceira gripe em três meses. Uma delas durou 15 dias e te deixou de cama por uma semana. Nunca tive gripe semelhante. O que me dá alívio é a ausência de febre, que poderia significar algum tipo de infecção e o retorno ao hospital. Por outro lado, vejo o quanto te debilitam a dor de garganta, a coriza e a tosse, pacote que resulta em dores no corpo e cansaço.

Às vezes, tento te levar para a rua, sair de um ambiente de cultivo de vírus, mas percebo o quanto você se sente exausta. No último passeio, hoje pela manhã, percebi o quanto ficou cansada numa caminhada de meia dúzia de quadras, entre uma conta que paguei e o remédio que você foi buscar na clínica.

Quando entramos no caixa eletrônico, você se encostou de tal forma no balcão, que pensei que fosse cair de joelhos. Sorria, talvez, para esconder a dificuldade em respirar. Resolvi o mais rápido possível para que pudéssemos voltar para casa. Os compromissos secundários ficarão para amanhã.

Não escrevo sobre a gripe para te colocar na posição de vítima. Você nunca foi. Uma coisa é se vitimizar e se queixar no modelo "ó vida, ó azar". Outra coisa é a necessidade real de ser cuidada e, muitas vezes, animada. A melhor arma contra a gripe, principalmente esta de caráter oportunista, é se animar para vivenciar o cotidiano.

Se um lição a lúpus nos deu, esta foi compreender que só se vence um campeonato se passarmos pelos jogos considerados menores. São eles que nos preparam para as partidas mais importantes, num torneio de dois anos de duração, e nos dão a real dimensão de onde podemos chegar, sem ilusões ou tentações de grandeza.

Neste sentido, as sucessivas gripes nunca se aproximaram, acredito eu a partir de suas reações e falas, dos momentos mais severos da lúpus. Elas são como o vizinho chato, invasivo, que traz um pedaço de bolo em cortesia, mas com o objetivo de escarafunchar sua vida e conhecer em detalhes a privacidade do apartamento. Aquele que olha de esguelha pela fresta quando abrimos a porta.

É uma gripe diferente, na qual os remédios convencionais se mostram de pouca eficácia. Aprendi com você a ter paciência, me adaptar às exigências habituais e esperar. Esperar que esta vá embora, como muitas outras.

Escrevo enquanto você dorme. E tosse! E some no edredon! Passou a ser um hábito, não porque preciso de sossego. Quem trabalhou em redação de jornal aprende, na marra, a escrever em meio a tiroteio, baile de carnaval e até orgia (esta última é só um exemplo hipotético).

Escrevo enquanto você dorme porque só o repouso ameniza este visitante incômodo. E escrevo com intervalos, sempre a te observar a cada meia hora. Esta gripe, como disse, não é convencional. Ela é filha bastarda de uma doença que sempre me manterá em estado de alerta. E você, também.

sábado, 16 de julho de 2016

O assalto e a pizza



Marcus Vinicius Batista

Era sábado à noite, ninguém queria ir para a cozinha - leia-se Dona Zuleica, minha mãe - e resolvemos ser convencionais. Pedir uma pizza significava o exercício coerente da preguiça, melhor do que a solenidade de sair de casa. Roupa de missa, carro, chance de lugar cheio e fila.

Em 1987, os motoboys ainda não haviam nascido. O cardápio não era mais do que as listas de pizza em promoção nos dias atuais. Mussarela, calabresa, portuguesa, frango com catupiry e milho e mais meia dúzia de variações. Pedir uma pizza era telefonar para o restaurante e ir até lá buscar a refeição objeto de desejo.

Meu pai telefonou para o Ritz, uma pizzaria que ficava na rua Bassim Nagib Trabulsi, tradicional de via de comércio da Ponta da Praia, em Santos. Nós morávamos ao lado, na rua Roberto Sandall; fácil, em 15 minutos alguém de casa passaria lá e retiraria duas pizzas: uma de mussarela, outra de calabresa. Como bebida, uma garrafa de um litro de Coca-Cola, na troca do vasilhame. Se motoboys não apareciam na cadeia alimentar, garrafa pet era ficção científica, meu amigo.

Eu estava acostumado a visitar a Trabulsi. Fazia supermercado, frequentava o açougue com o mantra "um quilo de carne moída, acém ou paleta, o que tiver melhor" para pendurar com a Fátima no caixa e pagar por semana. Testemunhei até os fiscais do Sarney, época de hiperinflação, boi no pasto e ágio na compra de vários produtos. Fecharam o Pão de Açúcar da Trabulsi em protesto contra os aumentos.

Não reclamei da missão, legislei em causa própria e peguei o dinheiro com meu pai, mais o vasilhame de Coca e fui ao Ritz. Hoje, a pizzaria virou um boteco com outro nome, frequentado por aposentados e moradores das redondezas.

Minha irmã, Catarina, era quatro anos mais nova do que eu. Aos nove, ela ajudava em casa com pequenas tarefas. Eu era o escolhido, sem plano B.

Desci a rua Roberto Sandall e virei na avenida Epitácio Pessoa. A pizzaria era o terceiro estabelecimento a partir da esquina com a avenida, depois de uma loja de roupas e a farmácia. Gostávamos daquela pizza, de preço bom e sabor daquelas de padaria, sem frescuras, massuda e jeitão caseiro.

Do outro lado da rua, em frente à farmácia, fica uma padaria, a Cristo Redentor. Ela já estava fechada e, quando passei por ali, vi dois rapazes sentados na porta. Eles conversavam e me encararam além do normal. Aquelas três, quatro olhadas, sabe? Deveriam ter uns cinco anos a mais do que eu. Não me disseram nada e eu segui até o Ritz.

As pizzas estavam prontas, bastou trocar o vasilhame vazio pelo cheio e, em dois minutos, fazia o caminho de volta. Não houve troco. O dinheiro foi contado. A mão esquerda carregava o refrigerante, enquanto a mão direita segurava a pizza de calabresa. A de mussarela, eu equilibrava em cima.

Passei de novo em frente à padaria, olhei os dois rapazes sem prestar atenção. Percebi que disseram algo, mas continuei andando. Uns dez metros à frente, no meio da quadra, antes de virar na minha rua, notei que caminhavam na mesma direção. Apertei o passo, sem perceber que não andavam mais. Corriam.

Veio um de cada lado. O da esquerda gritou e passou direto. Enquanto isso, o ladrão que veio pela direita fez força para levar as pizzas. Fiz força de volta e mantive o refrigerante e a de calabresa. A de mussarela, mal ajambrada no braço, ficou com o assaltante.

Quando me dei conta do susto, olhei para os dois, que corriam na calçada da outra quadra. 50 metros de distância, mal calculando. Um deles levava a pizza na vertical, debaixo do braço, como um disco de sonrisal (aquele de madeira, que se surfa na beira do mar).

Só me lembro de pensar: "Filho da puta, o queijo vai escorrer todo para a borda, vão comer massa com molho de tomate."

Pensei em voltar à pizzaria, comprar outra e manter o assunto em segredo, mas estava sem dinheiro. Não cogitei correr atrás dos sujeitos; primeiro porque estava sozinho e os ladrões eram maiores; depois, era melhor não arriscar perder a outra pizza e o refrigerante. Fora que eram dois moleques como eu, querendo livrar a noite.

Cheguei em casa em silêncio e logo me perguntaram sobre a outra pizza. Contei a história e disse que não voltaria mais lá naquele dia. Ouvi as brincadeiras esperadas, e todos percebemos que a fome não era tanta assim. Dois pedaços para cada um resolveriam a questão.

Fui assaltado mais duas vezes na vida, uma delas com arma de fogo, mas jamais revivi a perda de um gênero de tamanha necessidade; ao menos, no sábado à noite, para quem tinha 13 anos.


As quintas românticas da Lofty

Foto: Sergio Willians - Memória Santista

Marcus Vinicius Batista

A fila era maior do que eu esperava. Levaria pelo menos meia hora para entrar na casa. Matei aula na faculdade para prestigiar o aniversário da tia de uma amiga. Era a desculpa de que precisava para conhecer o cenário - ou melhor, os rituais - que meu amigo Marco Antônio me contou.

Com 18 anos, eu estava na fila para conhecer a quinta romântica da Lofty, casa noturna de sucesso nos anos 80, mas que segurava as pontas na década seguinte. Eu troquei as matinês da adolescência por uma balada de meio de semana, com gente que poderia - e muitos tinham - a idade da minha mãe. Antes de sair, me certifiquei de duas coisas: 1) minha mãe ficaria em casa; 2) ela não gostava de quintas-feiras românticas em boate (expressão essa da mãe dela).

Eu não estava ali para caçar nem para dar uns malhos, em mais uma arqueologia linguística. Eu estava acompanhado e imaginava que não corria riscos além de me entediar, talvez, com o aniversário da tia quarentona. Fina ironia, escrever hoje, aos 41, sobre um tempo em que tinha a idade de meus alunos e considerava ter 41 sinal de velhice.

Os riscos de um relacionamento fora de época - a quinta era romântica - eram pequenos. Não acreditava que poderia conhecer novamente uma mulher como Silvia, ex-colega de trabalho, com mais do que o dobro da minha idade, que me dizia coisas impublicáveis. Impublicáveis porque mostra como a inexperiência te leva a ficar apavorado aos 17 anos.

Meu amigo Marco Antônio vivia me contando histórias de amigos dele - e um ou outro colega nosso - que namoravam mulheres mais velhas, que conheceram na quinta romântica da Lofty. Um deles, inclusive, ganhou um banho de loja por causa de um amor de gerações. Na hora, pensei em outro nome, menos poético e mais honesto, para o relacionamento pseudorremunerado.

Subi as escadas ao som de um clássico da dance music. Anos 70, minha infância, um som animador para quem estava na época errada. Nos anos 70/80, fui uma criança de Balão Mágico e Plunct Plact Zoom. Meus pais ouviam MPB e música caipira, formação que carreguei pelo resto da vida. A dance music nasceu, para mim, direto como flashback.

Ao entrar na pista, tinha a obrigação de armazenar, em qualquer canto da memória, minhas experiências pessoais. Dali não valeriam de nada. Esqueça a Zoom, que ficava do outro lado da rua. Nunca fui VIP, nunca tive carteirinha de sócio-contribuinte e jamais estive entre os sujeitos que varavam a noite na pista. Virar a noite, com música alta de fundo, acontecia quatro vezes ao ano, de sábado à terça de Carnaval.

A tia da minha amiga estava animada. Muitas amigas, parentes, alguns desconhecidos e eu. Não sei se já estavam lá para a claque de parabéns, com direito ao bolo, ou se foram convidados. Da minha idade, só eu e minha namorada. Todos dançavam em roda músicas dos anos 60 e 70. De vez em quando, pipocava algum pop rock recente, dos anos 80. Era 1992 e vivíamos uma transição musical, eu me incluo nesta fase.

Conforme a festa avançava, me dei conta de que o objetivo ali era único. Só nós comemorávamos aniversário. Na quinta romântica, o flerte, a paquera (outra peça do Museu da Língua Portuguesa), a conquista ou apenas uma dança sem perguntar o nome estavam em jogo.

Passei a seguir a premissa inicial e conselho do meu amigo: acompanhar o ritual. Eu era, à força do tempo e do espaço, um antropólogo amador a observar uma tribo urbana em plena atividade social e cultural.

Entrei na roda de dança, engoli a timidez e distribui sorrisos. Era uma festa de aniversário e já bastava meu deslocamento natural. Tinha que participar do evento. Era uma pesquisa-participante, diria algum acadêmico.

Participei até a página dois (ou a quinta música, não sei). Chegou o momento do qual havia me esquecido, talvez por ter me distraído com a festa, talvez por deixar em algum canto do cérebro a mensagem de que danças coreografadas não escolhem endereço ou quantidade de rugas no rosto.

De início, tentei resistir, mas percebi que ficaria chato ser o único a sair da roda. O levantar de braços, os pulinhos para o lado e os movimentos de perna me davam a sensação contínua de constrangimento. Não conhecia a coreografia, não me avisaram que haveria, não me deram o direito de recusa. E olha que não haviam inventado Macarena.

Discretamente, decidi que era o momento de me afastar para o lado escuro da pista. Um, dois passos para trás e, meia música depois, estava fora da roda e aliviado. Daí em diante, assisti e me diverti com os movimentos descoordenados e descompromissados dos convidados da festa. Só não era para mim, tão duro quanto um turista belga em um trio elétrico na Bahia.

A tia da minha amiga, uma hora depois, assoprou velas, todos comeram bolo de chocolate em guardanapo, abraços e beijos. Em outras áreas da Lofty, a vida real mantinha casais em movimento, dançando ou conversando a menos de 30 centímetros um do outro.

Saí de lá bem mais cedo do que previra. Estava em casa no começo da madrugada. Não vi caras como eu, de braços dados com outras tias. Na Lofty, o que se gastava em som, economizava-se em luz.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 13 de julho de 2016.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

"Do you speak English?" (Crônicas além do quintal n.5)

Praia em Viña del Mar, no Chile

Marcus Vinicius Batista

Depois de conhecer o Relógio das Flores e testemunhar o pôr do sol em Viña del Mar à frente do Oceano Pacífico, escolhemos caminhar para conhecer melhor a cidade, antes de retornar à Santiago. Andamos por cerca de uma hora, com direito a três paradas para pedidos de informação, preocupados com a chance de perdermos o ônibus.

Nós havíamos dispensado os pacotes da agências. Eles eram 10 mil pesos chilenos mais caros do que comprar a passagem direto no guichê. Para piorar, o tour envolvia dez endereços, em duas cidades diferentes, em seis horas. Só na casa do poeta Pablo Neruda, em Valparaíso, ficamos três horas, entre fila e visita.

Chegamos na rodoviária de Viña del Mar ao anoitecer. Eu, Bel e Catarina fomos a três guichês de empresas de ônibus. Três preços diferentes, três horários distintos. Escolhemos o horário de embarque mais próximo, com uma média de preço razoável. O ônibus saia em menos de dez minutos. O mais barato implicava esperar duas horas e meia.

Quando localizamos o ônibus na plataforma, fomos recebidos por um sujeito de aproximadamente 50 anos, terno um número acima e uma gravata colorida. Ele recolheu as passagens e ressuscitou minha mania de comparar pessoas comuns com gente famosa. 

Rodoviária de Viña del Mar
O sujeito era o irmão gêmeo chileno de Ribamar, o personagem de Tom Cavalcante, do seriado Sai de Baixo. Não era só o rosto. A semelhança incluía os trejeitos, a forma de andar e a postura tão engraçada quanto desengonçada.

Não trocamos palavras. Apenas entregamos os bilhetes, entramos no ônibus e procuramos nossos assentos, lá no fundo. Eu e Bel de um lado, Catarina do outro, no corredor. Nosso silêncio inicial seria, muito provável, a senha para que Ribamar nos tratasse como estrangeiros, mas não brasileiros.

Logo que a viagem começou, Ribamar passou por nós e sorriu. Ele abriu um compartimento no fundo do ônibus e retirou uma caixa com chocolates e balas, mais garrafas d'água. Era um homem multitarefas. Além dos bilhetes, ele nos acompanharia na viagem como uma espécie de copiloto e vendedor.

Ele nos ofereceu os produtos e agradecemos quase como um jogral: "Gracias". Pela primeira vez, Ribamar olhou para Catarina e perguntou, em tom arrastado: "Do you speaaaak Englishhhhh?"

Como prestávamos atenção nele, ficamos em silêncio outra vez. Soma-se a resposta da Catarina - Yes! -, e então deduzimos que Ribamar jurava estar ao lado de turistas norte-americanos. Tinha que ser esta hipótese. O que poderia ser? Uma espécie de cantada poliglota? Assim, mantinha a simpatia que caracterizava o sorriso com espaços dentários.

Seguimos a viagem de duas horas por um trajeto diferente da ida. Confesso que fiquei preocupado. Pouco dinheiro comigo, muita desinformação sobre onde estávamos. E, diferente da ida, o ônibus fez paradas a mais, o famoso pinga-pinga.

De vez em quando, Ribamar atravessava o corredor, sorria para nós e repetia para Catarina: "Do you speaaak English?" Eu e Bel segurávamos o riso, mais pela Catarina do que pelo amável sósia do porteiro-personagem.

Perto da penúltima parada, o ônibus sacolejou e Ribamar, ao repetir a pergunta, disparou algumas gotas de saliva que voaram direto para a roupa dela. Enquanto ele virava as costas e caminhava para a frente do veículo, Catarina se limpava, reclamava ("Ele cuspiu em mim!"), eu e Bel ríamos.

Já em Santiago, ele fez uma última tentativa. Ofereceu doces e água e, desta vez, olhou para mim e recitou a pergunta. Como falso turista norte-americano, respondi que sim ao domínio do idioma e agradeci em espanhol pela comida e bebida.

Na chegada, esperamos que o ônibus esvaziasse, já que havia famílias com crianças, recolhemos casacos e bolsas e descemos. Ribamar esperava na porta, sorriu novamente para nós e mudou o repertório.

Quatro palavras simples, que atendemos com reciprocidade. "Good night. Thank you."


segunda-feira, 11 de julho de 2016

Eis o sofrer!



Paula Vinhedo

Sou considerada uma boa ouvinte. Esforço-me para julgar pouco - quem não julga mente ou não sabe o significado da palavra -, opino somente quando necessário e luto para não dizer o que a pessoa tem que fazer. Não é mérito, apenas precaução. Quando você diz o que o outro tem que fazer, é certo que você será culpada pelo erro. Se sua amiga foi incapaz de escolher um caminho, é provável que ela não assuma a responsabilidade pelo equívoco.

Tenho me aborrecido com pessoas próximas que dizem sofrer. Aí entra o meu limite de tolerância. Elas sofrem mesmo - não duvido disso -, mas a questão é como se envolvem, procuram, pesquisam, sabotam situações para desembocar numa espiral em que prevalece a dor, a amargura, a angústia e a versão perversa chamada de vitimização.

Tomei certa distância de uma amiga que vive reclamando de falta de dinheiro. Ela tem emprego fixo, ganha duas vezes mais do que eu, é solteira, possui carro, casa própria, familiares próximos e amigas fiéis. Viaja todos os anos, inclusive para fora do país, pode pagar por cursos extras e consegue, sem grandes apertos financeiros, ir a bares, restaurantes e cinemas.

Na semana passada, eu a convidei para participar de um rateio que resultaria na compra de um presente para amiga comum. Aniversário. Ela se recusou. Bastava dizer não que não haveria insistência. Mas tive que ouvir que a vida dela era um caos, que estava contando moedas, que economizava até no almoço por quilo todos os dias. Permaneci em silêncio, pois vi - em rede social - fotos dela em viagem para um resort no final de semana anterior.

Parei de encontrar outra amiga para conter minha irritação. Meu marido me alertou, depois de um encontro, com algumas perguntas-chave. O que ela sabe sobre sua vida? Pouco. Ela pergunta sobre suas dores? Quase nunca. Ela está presente quando você precisa do ombro de uma amiga? Nas encruzilhadas da vida, não. Meu marido calou-se diante das evidências.

Uma coisa é dividir as dificuldades. Outra coisa é se transformar em para-raio do sofrimento alheio. E também não consigo mais me sensibilizar pelo que entendo como picuinha.

Essa segunda amiga tem história semelhante. Bens materiais, bom emprego e salário fixo, amigos e parentes que a amam. E vive em clima de sabotagem, se alimenta de reclamar de tudo o que acontece. Situações cotidianas que viram problemas onde não existem. Fiquei farta dos muros de lamentações.

Buscar o sobrinho na escola é um problema. Dormir na casa do namorado é uma expedição. Emprestar o carro para a irmã é uma represa com rachaduras. Trabalhar na segunda-feira à tarde é o muro intransponível. E assim vai.

Passei a perceber o quanto preciso de distância de pessoas assim. Evito me queixar da minha vida, bem melhor do que a da maioria das pessoas. Se há algo que me machuca, divido com meu marido ou com amigas próximas. Mas jamais os procuro para superdimensionar pequenezas do cotidiano.

O sofrimento é particular, tanto na intensidade como na frequência. No entanto, nem tudo na vida é conquistado à base de dor e melancolia. E, mesmo que o sejam, devemos celebrar as vitórias mínimas, capazes de nos aproximar de quem gostamos e de nos preparar para os triunfos maiores, estes mais raros. E se eles não vierem, já vencemos.

Acredito que seja mais confortável ser a vítima. A dor passa a ser o salvo-conduto para centralizar o mundo em torno de si mesma. A dor alheia ganha ares de irrelevância, de figuração na vida de quem é mestre no sofrimento, artificial ou não.

Sofrer pode ser a morfina emocional. Não há mais sangue além das feridas autoflageladas. O mundo fica confortável se se é cuidado, sem a menor energia para cuidar.

Sofrimento representa, para mim, regime de exceção. Sofrimento não é desejo mal resolvido pelo que não se tem. Por que não se dá valor ao que está ali, ao lado, adquirido, recebido ou presenteado? Sofrer é para casos extremos, de estado de alerta, de riscos reais de perda de algo ou alguém.

Começo a desconfiar de que minhas amigas sofrem porque querem reclamar das derrotas. Pintar tudo como ponto negativo. Reverter o ganho à dor de pé de página, como se a história real fosse menor. Quando a torna menor, elas reduzem também o significado de seus personagens e de suas experiências. O personagem principal se torna a história. O eu contado a si mesmo.

Não suporto a exclusão da essência dos atos e das pessoas por caprichos. Tenho uma vontade que beira o incontrolável de dizer: "Para de reclamar, pelo amor de Deus! Você tem uma vida boa e fica choramingando o tempo todo. Parece criança mimada! Olhe em volta e veja, porra!" Se ainda fossem dramas pessoais para telejornais de final de tarde, haveria Ibope. Mas sou a única audiência disponível para berreiro sem lágrimas.

Não me julgo melhor do que elas. Eu me afastei para não cair em tentação de comparar definições de sofrimento. Pulei a fase em que somente ouvia. Pulei a etapa dos conselhos das coisas mínimas. Entrei no período de que eu prefiro não sofrer com elas. Sou amiga, e não terapeuta.

Velho para quem?


Marcus Vinicius Batista

Assistia à uma aula virtual do historiador Leandro Karnal quando recebi, como um soco, a seguinte frase: "Na velhice, a sabedoria cresce, o corpo decai." Não precisei olhar para mim mesmo e perceber que a segunda parte da frase engordava minha conclusão. O problema residia na primeira parte. Sabedoria? Onde?

É difícil se desvencilhar da imagem pop de sabedoria. Uma imagem associada a cabelos e barba branca, isolamento no alto da montanha ou na cabana no meio da mata. Um cajado e um manto completam o clichê mal traduzido por frases enigmáticas, de interpretação múltipla e entendimento incompleto. O sábio ainda estaria por vir, no meu caso. Se vier ...

Descartando a óbvia necessidade de separar sabedoria de velhice, prefiro pensar sobre a segunda. A sabedoria deve tangenciar o pacote. O corpo não é mais o mesmo. Andar de bicicleta me faz pensar várias vezes se o meio de transporte virou peça de museu. Hoje, reflito sobre levá-la ao conserto. A oficina fica a duas quadras de casa, mais distante do que fazer conexões em aeroportos para visitar outro país.

Deixei de lado um de meus prazeres - jogar futebol - há seis meses. Prometo a mim mesmo o retorno, mas sempre há justificativas para adiar a reestreia. Trabalho e descanso, chuva e calor, os contraditórios alcançam o mesmo objetivo do menor esforço.

Percebi, com a idade, que a sabedoria pode estar em pequenos lampejos. Estar mais velho reduziu meus desejos. Não que isso seja ruim; pelo contrário, meus desejos são mais saudáveis - não da perspectiva médica ou biológica - porque são executáveis, terrenos, firmes, palpáveis.

Velho significa, para mim, escolher as lutas, evitar abrir várias (ou novas) frentes de batalhas, construir guerras por razões mesquinhas. Ganhar pode ser evitar o confronto, pode ser deixar que o outro dê a última palavra se o diálogo não me afetar além do campo da retórica, da bravata ou do blefe.

Sinto que é o momento de uma praticidade emocional, de preservação. Recolher as armas e fechar trincheiras para cultivar o silêncio que decorre de tempos de paz. Prefiro escrever a falar. Prefiro ler a debater sem dúvidas. Prefiro ouvir a ter que ser didático.

Estar mais velho me levou para dentro de casa. Permaneço mais tempo recolhido, buscando a felicidade naquilo que tenho, e não naquilo que desejo. O desejo quando saciado comete suicídio, fornece lugar a outro desejo, num ciclo interminável e jamais repetido.

Dispenso - às vezes fraquejo - a angústia por aquilo que não possuo. De fato, me sinto contente de ter cada vez menos. É uma luta diária a procura pelo básico dentro de casa, pelo essencial. Eventualmente, vou ao shopping e me torturo numa livraria para ver o quanto resisto aos apelos pelo meu entorpecente impresso. Na política de redução de danos, passei a trocar, emprestar e tomar emprestado obras literárias, num processo de confiança mútua entre leitores dependentes.

Ficar dentro de casa é valorizar as experiências mínimas com quem está próximo. Esta noite, me senti comovido por estar ao lado de Beth, minha mulher, vendo um filme independente norte-americano, enquanto escutava meus filhos no cômodo ao lado, onde jogavam Pokemon e me procuravam para compartilhar seus sucessos instantâneos. Mínimo e máximo, juntos.

A velhice nos empurra para os cantos, para a percepção de que os detalhes são a diferença sobre o olhar do todo. Noto isso também na minha profissão. Cada vez mais escrevo e me interesso pelas pequenas histórias, pelos personagens comuns, os sujeitos que - verdadeiros na palavra - nos ensinam o poder de uma grande narrativa.

Confesso que, de vez em quando, tenho surtos de escrever sobre temas maiores. A grandeza aqui não é sinônimo de relevante, representa a compreensão - como melhor explicou Karnal - da política como uma necessidade reflexiva, quase ossos da responsabilidade do ofício (esta última parte é minha!).

Tenho amigos que justificam a morte do improviso pela velhice. Discordo radicalmente. A idade me deu a visão de que posso escolher. Planejar ou improvisar são verbos que cabem a partir das circunstâncias, e não o contrário. Certos assuntos, como uma viagem, exigem organização, planejamento, diálogo, sacrifícios previsíveis.

O improviso nos transmite a alegria de uma transgressão leve. Tomar certas atitudes, escolher caminhos, redesenhar uma noite e, acima de tudo, celebrar vitórias. As pequenas, cotidianas, que - quando jovens - pouco ou nada valorizamos pela arrogância de nos julgarmos indestrutíveis.

Vejo, no discurso que assassina o improviso, uma dependência da espera. Aguardar algo para agir. Empurrar sonhos para acumular. O acúmulo que levaria à realização do desejo, depois trocado por outra justificativa de acúmulo porque o desejo se transportou para outro degrau. Desejo que sucumbe à fala corporativa da meta.

Improvisar não é ceder à insanidade, trocar a serenidade pela irresponsabilidade absoluta. Percebi, com a idade, que poderia reduzir o leque de anseios, descartando as ilusões ou, no mínimo, tentando torná-las reais.

Abandonamos certos sonhos por considerá-los delírios. Passamos, com a velhice, a acreditar que muitos desejos seriam, a rigor, impossíveis. Rabugentos ficamos. Viagens, por exemplo, são alucinações se dependermos dos pacotes de agências que brotam em shoppings. Viagens com muita pesquisa resultam em trabalho maior, que nos conduzem à redução de custos e, principalmente, à viabilidade do passeio. Por que não transformar a pré-viagem em motivo para convivência?

A velhice me trouxe o amor pelas pequenas experiências, pelas pequenas coisas cotidianas. Estar com amigos - poucos, não os do mundo virtual - para conversar, beber, comer. Dividir a casa com meus filhos, minha mulher, na convivência da refeição, de um filme, de uma conversa sem propósito inicial. Valorizar seus sucessos, trocar ideias, livros, filmes, opiniões, sem impor o que eles devem crer e ouvir sobre o que acreditam.

Não vejo essa mudança em curso como sabedoria. Vejo como uma possibilidade de aprendizado, de viver melhor, de conviver com afetividade. Talvez seja melhor assim do que lutar contra a parte desta história que decai.

Pela convivência, voltarei a jogar futebol e a andar de bicicleta. Dane-se o corpo gasto.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Jornalirismo, em 6 de julho de 2016.

domingo, 10 de julho de 2016

Camila e Eliana: as contadoras e suas histórias

Camila Genaro, contando histórias na orla de Santos

Marcus Vinicius Batista

Camila virou contadora de histórias depois de virar professora. Eliana virou professora depois de virar contadora de histórias.

Camila viajou horas para contar histórias na Venezuela, Colômbia e em Santa Bárbara, no interior. Eliana também esteve em Santa Bárbara, mas viaja duas horas da Praia Grande até Santos para contar histórias, aos domingos, na Pinacoteca Benedito Calixto.

Camila é viciada na palavra. Depois de 15 anos, saiu da sala de aula para viver exclusivamente como contadora de histórias. Eliana também depende da palavra. Depois de oito anos como contadora de histórias, voltou à sala de aula para cursar Jornalismo.

Assisti às duas num lugar cercado pelas palavras impressas em balões. Camila Genaro e Eliana Greco falaram sobre sua profissão numa conversa na Gibiteca de Santos. Elas contaram suas histórias de vida e, claro, contaram histórias para falar de nossas vidas.

Minha vida esbarrou com a delas de diferentes jeitos. Camila Genaro foi professora da minha filha Mariana, há cinco anos. Foi a última turma antes de Camila largar o magistério; pelo menos, o formal, em sala de aula.

Mariana queria reencontrá-la, mas estava com vergonha de se identificar. Nem precisou. Camila a reconheceu e a abraçou bem apertado, nas palavras da própria. O gesto se repetiu mais quatro vezes até a despedida.

Nós nos conhecíamos no mundo virtual, o que não quer dizer muita coisa - com razão, para quem conta histórias. A Gibiteca é o que vale agora como primeira impressão.

Eliana Greco é minha aluna na Universidade Santa Cecília. Aluna é modo de dizer, pois a experiência de vida inverte os papéis depois que o conteúdo jornalístico acaba na lousa. Ela teve a coragem de dividir comigo seus esforços e desejos para continuar no curso. Enfrenta em igualdade de condições qualquer moleque recém saído do Ensino Médio ou o fogo amigo que, de vez em quando, tenta sabotar os sonhos numa idade em que muitos desistiram de imaginar. 

Eliana Greco
Camila e Eliana são insistentes. Escolheram (duas vezes cada uma) profissões de reconhecimento duvidoso. Dúvida que se manifesta naqueles que juram ser capazes de fazer o trabalho porque minimizam o estudo, porque creem que existem ofícios mais nobres do que explicar o mundo como os gregos antigos faziam nas praças. Ou por arrogância, fruto da escravidão pelo status.

Camila insistiu em cumprir o compromisso acertado com o jornalista André Rittes, mediador do debate na Gibiteca. De rosa na cabeça e vestido e casaco que pareciam emprestados de um conto de fadas, Camila chegou ao encontro depois de contar histórias para adultos e crianças numa festa em bairro de classe média alta. O sorriso frequente, o vozeirão e a habilidade de conectar qualquer fato a uma história fizeram com que gente da plateia acreditasse que ela estava vestida de maneira casual.

Eliana estava mais discreta. Vinha de casa, vencera a peregrinação de duas horas de ônibus pela palavra. Mas carregava o amuleto que sempre a lembra de quem se tornou. E que serve, quando a história se espalha pelo ambiente, para nos lembrar de quem somos. Uma lâmpada de plástico, daquelas que abrigam gênios e permitem três desejos, objeto destinado ao lixo, uma joia para a contadora de histórias.

Quando se pergunta alguma coisa a elas, sente-se que lá vem uma história, causo, conto, fábula, sei lá. Falam de si próprias contando sobre os outros que nos dizem sobre nós mesmos. Eliana sacou a lâmpada para nos explicar a importância das escolhas na vida, numa união de opções para se agarrar uma alternativa maior, talvez definitiva.

Camila se levantou e interpretou a história do bolinho, famosa adaptação que ela fez da história de Tatiana Belinky, que adaptou o conto da cultura russa. Não há visita de Camila à Gibiteca sem bolinhos.

Camila e Eliana são insatisfeitas. Camila ficou conhecida por contar histórias a partir de lendas de Santos. Nas viagens, percebeu duas coisas: 1) o público queria as histórias de Santos, mesmo sem conhecer a cidade; 2) o desejo era derivado das semelhanças entre as lendas em vários lugares do país. Exemplo: a mulher que ronda o Cemitério do Paquetá. 

Projeto Caça-Calixto, na Pinacoteca Benedito Calixto

Eliana, por outro lado, vai viajar este mês para Vargem Alta, no Espírito Santo. A viagem faz parte do projeto Rondon, do Governo Federal. Em terras capixabas, vai coletar e contar histórias.

Um adulto que perdeu o fio da história poderia dizer que as duas, fantasiadas, são crianças crescidas. Camila e Eliana contam que muitos até pensam deste modo no começo de uma festa ou um evento corporativo. Aí vem a reviravolta que os levam a confessar: "Não imaginava que poderia me imaginar assim!"

As duas ensinam que uma história boa não tem tempo ou faixa de idade. Tem substância. Como Eliana que, no final, nos contou uma história miojo: "Aquela que dura três minutos." Qual foi? Aí é outra história.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 7 de julho de 2016.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Carta a uma velha amiga

Thelma e Louise, um símbolo de amizade

Paula Vinhedo

Preciso pedir desculpas. Enganei-me, não com você, mas com a crença de que não me importaria tanto com sua partida. Confesso que me senti melancólica sobre sua saída discreta, isolada, solitária.

Minha reação é paradoxal porque não estou surpresa com o resultado. As surpresas vieram de certos personagens, não com o desfecho provisório da narrativa, um livro de 30 anos que construímos juntas.

Acredito - e deixaria de ser sua amiga se mentisse - que você colheu os frutos de suas escolhas. O mérito é que foram suas, mas sob a capa da surdez seletiva e da fé que tudo se resolve por convicções superficiais, jamais por dúvidas que podem representar cautela e acertos de longo prazo.

Você partiu sozinha, e só me dei conta de que nada mudaria na rotina das pessoas na véspera. O comunicado singelo sobre a partida numa rede social passou quase em branco, exceto pelas mensagens protocolares dos amigos circunstanciais da vida editada pelo computador. Pessoas que conviveram contigo por décadas desconheciam as informações mais elementares.

Estas amizades foram demolidas ao longo dos últimos anos. Testemunhei gente se afastando, falando mal pelas costas, diminuindo sua importância para a vida delas. Em parte, gente que ações posteriores mostraram que pouco ou nada valem. Gente com preconceito nas veias, com dedos enrijecidos pelo moralismo de boteco.

Só que também conversei com gente coberta de razão, cansada de auxiliar, de se sacrificar, de ponderar, alertar e lutar junto. Gente que passou a te temer pela imprevisibilidade, a fugir para não te julgar, a se calar porque se cansou de explicar que prevalecia a insistência no erro.

Ouvi em rodas de conversa que fui uma das duas amigas que sobraram. Não me orgulho disso. Permanecer não foi heroico. Apenas aconteceu. Nos últimos meses, pensei com seriedade em me afastar também. Percebi - o que outros haviam me sugerido antes - que o princípio básico de uma amizade havia ruído. Amizade só funciona como mão dupla, com idas e vindas, como mutirão de uma laje que nunca ficará pronta.

Sentia-me cada vez mais incomodada com suas ausências e a procura somente para solicitar, num texto que beirava a exigência, a reivindicação urgente sobre algo que estourara prazos por sua culpa. Ficava com a sensação de que minha rotina perdia importância, de que deveria ter a obrigação de paralisar o carro em andamento para receber uma passageira, cuja rota divergia do restante. Uma passageira no direito de canalizar o trajeto.

O diálogo entre nós se resumia a um único assunto, ameno, de entretenimento como um seriado leve de TV. Sentia-me triste porque nada sobre minha vida era questionado. A escuta morreu e foi substituída por discursos empacotados, ideias fechadas, derivadas de informações parciais, muitas vezes fornecidas por amigas virtuais da espécie comentarista de link.

Passei a adotar o não como resposta inicial aos pedidos, em tese, emergenciais. Percebi, com dor, que me tornara como você, sempre negando por se colocar no topo de lista.

Compreendi, depois, que negar não era egoísmo, era preservação. Limites eram necessários para não engolir uma invasão que você não parecia notar. Uma intromissão de quem parecia acreditar que eu te devia, inexistente numa relação horizontal, que pressupõe o mais próximo possível da igualdade de condições e oportunidades.

Perdoe-me pela franqueza, mas encaro amizade como conceito que traz consigo a capacidade de se colocar no lugar do outro, de recuar quando uma atitude corta este outro, de sorrir quando o outro obtém sucesso. Nos últimos tempos, temia relatar meus avanços diante da indiferença ou do questionamento inquisitório.

Sou uma velha ave em relacionamentos humanos. E penso ser positivo quanto mais me dedico a estudar a dinâmica atual da convivência humana. Um exemplo é a vida projetada na rede social, onde as tais amigas correm à primeira solicitação do mundo real. É simples sumir na selva da informação e reaparecer quando as trombetas indicam que deu certo.

Amizades são poucas. Não há garantias de que duram anos. Estamos cercadas de conhecidas, muitas colegas e diversas aventureiras, sempre dispostas a opinar em tom professoral sobre o que devemos fazer e a evaporar quando se pede um ponto de referência.

Minha amiga, você caiu nessa armadilha pela segunda vez em 15 anos. Sua história é taxativa em mostrar que, na hora da encruzilhada, foram sempre os mesmos personagens a te empurrar para frente no enredo. Contrariadas ou não, foram pragmáticas em solucionar questões, demandar energia para que seus desejos fossem atendidos, mesmo se fossem eventuais caprichos. Cobriram, inclusive, rastros sem dar um pio.

Tentei te dizer pessoalmente o que penso. Consegui, em parte. Jamais questionei suas vontades ou escolhas. Quando me pediu, apontei caminhos dentro das limitações da minha experiência. Só que, recentemente, adotei distância segura para retomar o fôlego e evitar furar o sinal que mantém a salvo o território da amizade. Vi a teimosia se manter de pé, em detrimento de outras amizades, aprofundando mágoas em pessoas próximas que perderam as energias mais cedo.

Passei a avaliar nossa amizade quando notei que seus bens materiais pareciam mais relevantes para outras pessoas do que seu bem-estar. A primeira tentação seria julgá-las por indecência, mas as compreendi. A mágoa mal resolvida havia assentado, penetrado nos poros, depois da expectativa por pedidos de desculpas que jamais ocorreram. Não falo da desculpa pelo medo, mas do pedido de perdão pelo respeito.

A mudança de ares talvez possa reconstruir, para mim, uma amizade que ficou presa nas bordas. Talvez voltemos a ter o que dizer uma à outra. Outras experiências, a autonomia, a perspectiva de que agora o poço tem fundo podem te modificar para além dos muros da vida virtual.

Não pretendo dizer o que deve fazer - e me orgulho de nunca ter imposto -, mas tenho, como qualquer mulher, caminhos de preferência. São rotas que aumentariam as chances de um futuro mais saudável, menos doloroso e honesto como os que te cercaram.

Talvez você ainda esteja presa à uma imagem construída, e não às mudanças que empurraram sua vida para outros endereços. A mudança foi somente a coroação de um processo de anos. As pessoas são metamorfose contínua. Nós não seríamos diferentes.

Prefiro somente torcer para que nossas biografias se cruzem outra vez, com o nariz apontado para a mesma direção. Apenas desejo que trabalhe duro e conquiste. Sorte é desculpa para reduzir o esforço do outro. Esforce-se! Estarei pronta a ajudar, não a fazer por ti quando seu braço alcança o objeto. Um beijo fraterno.