segunda-feira, 27 de junho de 2016

Os chineses e a Monalisa (Crônicas além do quintal # 4)

Turistas visitam a Monalisa, no Museu do Louvre, em Paris

Marcus Vinicius Batista

Ela estava lá, de sorriso enigmático e privacidade nula. Reconheço que, no Museu do Louvre, em Paris, meu interesse era maior pelas esculturas gregas, pinturas do século 19 e por outras obras do Renascimento. Mas era impossível escapar da aura da Monalisa. Todos os setores tinham placas que indicavam onde o quadro mais famoso do museu estava exposto.

A Monalisa é a única obra que possui roteiro próprio. E a quantidade de pessoas nos corredores funciona como as migalhas de pão que te levam à casa de doces. Conforme você se aproxima dela, ainda sem vê-la, você ouve em inúmeros idiomas o nome da Gioconda. O tratamento era de celebridade.

Ao entrar no pavilhão dela, inúmeros quadros nas paredes, dois com mais de cinco metros de altura. Chocantes, paralisantes. E a Monalisa no centro! É a única obra com quatro seguranças exclusivos. A única com um vidro à prova de balas. A única com uma grade de proteção, que te coloca, na melhor das hipóteses, a dez metros dela.

O problema é que, entre você e a Monalisa, existe uma centena de turistas e, entre eles, os chineses. Selfies, fotografias em sequência, retratos de vários ângulos. Eu me contentava em ver de longe, não conseguia me encantar com o quadro, embora saiba - claro - a enorme importância histórica do trabalho de Leonardo da Vinci. Talvez estivesse fascinado com tanta informação, tanta beleza, como a criança na loja de brinquedos de vários andares.

Voltei ao mundo real com a voz em português. Duas mulheres e dois jovens brasileiros, de São Paulo. Selfies e comentários perceptíveis sem esforço. Por osmose artística, Bel me convenceu a uma foto. Pronto, está lá a Gioconda no fundo do quadro... da tela do meu celular!

Na ala que reproduzia a residência de Napoleão III, o detalhamento da vida na corte pós-Revolução Francesa. E, conosco, a companhia generalizante da vida chinesa pós-moderna. Enquanto tentava admirar as salas de reunião, de jantar, os quartos e até o banheiro, competia por espaço para que meus olhos pudessem registrar o que as máquinas asiáticas não paravam de captar. 


O turista do mundo contemporâneo?
Esqueça a imagem clássica do japonês com a máquina pendurada no pescoço e sorriso que beira o ingênuo. Os chineses andam em grupos, e todos carregam máquinas fotográficas. Qualquer idade, todas as marcas e modelos.

Fiquei impressionado com a forma como consomem arte. Renascimento como Big Mac. Não olham o quadro ou a escultura. Fazem a foto. O mundo pelo visor. Nós, brasileiros, somos escravos dos selfies, claro, mas parecemos crianças diante da voracidade pela imagem parada. Idosos, crianças de seis, sete anos, todos clicam sem parar.

Não me sentiria tão incomodado com o dedo chinês grudado no botão. O problema é que muitos não falam inglês. Ou melhor, não falam nada. Apenas chegam aonde desejam. Empurrão, esbarrão, espremer contra a parede. Paralelo com a economia do país de origem? Licença, por favor, obrigado são termos desconhecidos em quaisquer idiomas.

À noite, eu e Bel fomos à Torre Eiffel. Paris é cidade para viagem a dois. E, viajando de casal, ir à Torre é como levar para jantar no Dia dos Namorados. Ritual? Convenção social? Clichê do amor? Jogue todo o racionalismo fora e viva como personagem de comédia romântica por uma hora. Conto a história da Torre em outra crônica.

Aqui, a história é a segunda batalha contra o exército chinês. Ficamos meia hora na fila para subir na torre, em um frio de uns 9º C. Esperávamos ficar mais um pouco, quando um homem de terno e gravata parou no guichê e comprou aproximadamente 50 ingressos. Todos para um grupo de chineses!

Sorrimos e pensamos que a vida de turista poderia ser mais tranquila. Eles não seriam tão agressivos, aceleraram nossa entrada. Até chegar no primeiro - e maior - dos dois elevadores, onde cabiam 35 pessoas. 

A imagem de Paris

Aguardamos na fila normalmente, mas quando o elevador abriu as portas, eu e Bel (lembre-se de que tenho 1,90 metros e 130 quilos) fomos jogados de lado pelos chineses. A porta foi se tornando um sonho distante.

Os chineses lotaram o elevador. A guia turística, que oscilava entre o inglês e o mandarim, sorriu para nós enquanto a porta se fechava. Lá em cima, a quase 300 metros de altura, eles se dispersaram, parte entupiu a lojinha e, com a habitual pressa, muitos já haviam descido.

Qualquer aborrecimento se dissipa com a imagem de Paris, às onze da noite, toda iluminada. Completamos o passeio com poucas palavras. Bel cerrou os olhos - não para imitar os concorrentes, mas pelo vento frio. Ela se protegeu com o casaco, olhou para mim e sorriu com a beleza que nenhum quadro do Louvre conseguiu eternizar.

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