sábado, 11 de junho de 2016

A falsa médica vive em mim (Conversas com Beth # 26)

O mistério que intriga cientistas e médicos. E aqui em casa!

Marcus Vinicius Batista

Seu olhar sinalizava como um diagnóstico definitivo: poderíamos pensar outra vez em internação, mais remédios, pareceres médicos. A voz trêmula veio como o alarme que me arrancou do sofá e me levou ao corredor. Sai da sala a tempo de ouvir:

— Amor, o que é isso no meu braço?

Ela estava com o braço direito levantado ao lado da pia do banheiro. Olhava para o espelho e tentava entender por que um ponto aparecera ali, embaixo do braço, numa área despovoada, de pele clara. Um ponto preto que se tornava exceção num terreno permanentemente branco.

Dei três passos, entrei no banheiro, me aproximei e tentei ver de perto o sinal de gramática, o ponto. Como se fizesse diferença para alguém que nunca se arrisca em diagnósticos, fruto dos anos de curso de Psicologia. Cravar um resultado, jamais! Apenas respondi:

— Não sei o que é! É apenas um ponto preto no seu braço! Dói?

— Não, não dói!

— Já é uma boa notícia. Coça?

— Não coça.

Passou o dedo nele.

— É sujeira?

— Claro que não é sujeira.

— Nem aquele macuco, de criança?

— Porra, para!!!

— Tá inchado?

— Não, não, não. Não sinto nada aí. Estou preocupada.

— Nós vamos no médico depois de amanhã. Quer ver isto?

— É... acho que sim.

A resposta estava impregnada de preocupação. Em tempos de tratamento contra a lúpus, tudo pode ser um sinal. A brincadeira no meio das perguntas é a arma para baixar a guarda, relaxar se vier outro arranhão do lobo.

O caminho para a cura é sempre mais lento por causa da imunidade baixa. Uma gripe no mês passado levou 15 dias para sumir. Sete dias de cama. Uma dor de garganta persistente e incômoda. Qualquer alteração cheira a mais uma surpresa vestida como má notícia. É triste, mas você se acostuma com o lado ruim para dar mais valor às pequenas vitórias.

Depois de meia hora, percebi que ela queria voltar no assunto.

— O que foi?

— Aquele ponto preto embaixo do braço.

— O que tem ele?

— E se for algo grave?

— Para mim, não é.

— E se for uma verruga?

— Melhor assim.

Ela não estava convencida. Tinha certeza de que pensara em algo mais sério. A lúpus nunca está quieta. Pode estar adormecida, mas ainda assim se manifesta pelos silêncios do organismo. Ataca nos intervalos, nos cochilos do sistema imunológico. Sorri com o terror causado por enigmas médicos como esse.

— E se for algum problema nos gânglios linfáticos?

— Uau! Calma!

Saí para trabalhar. Ela ficou em casa, pois tinha que resolver alguns problemas na Internet. Estudar, editar um vídeo. Recomendei que descansasse um pouco. O dia tinha sido acelerado.

Quando retornei umas três horas depois, ela estava no banheiro. Olhou para mim, me cumprimentou com um beijo e disse como primeiro ítem da pauta:

— Olha o ponto preto no meu braço! O que será isso?

— Deixe-me ver. Continuo achando que não é grave. De novo: dói? Tá inchado? Coça?

— Não, não, não.

Cheguei o rosto mais perto e perguntei:

— Posso encostar a mão?

— Pode.

Coloquei os dois dedões, um de cada lado do ponto preto. Bastou encostar, ajeitar os dedos sem pressionar a pele que o ponto saltou. Trouxe com ele um centímetro de sabe-se-lá-o-quê. Cremoso e branco. Era o maior cravo que eu já vira na vida. Uns dois centímetros, se somar o segundo apertão. E um irmão gêmeo preto na outra ponta.

Beth segurava o alien na ponta do dedo indicador. Parecia fascinada com a descoberta científica. Eu olhava para o buraco embaixo do braço.

— Amor, deixou um buraco. Amanhã, já está tapado.

Não sei se ela me escutou, pois só olhava para o monstrengo. Sorrimos, repetimos o último diálogo como uma peça de humor negro, que passou, ufa, que passou. Eu dei um beijo nela e saí do banheiro. Imaginei que ela jogou a criatura pela pia.

No dia seguinte, o cravo foi assunto na casa dos meus sogros e, à noite, num diálogo com minha irmã, Catarina. Ao ouvir a conversa e as risadas entre as duas, entendi que esquadrinhar a biografia do cravo era essencial como terapia. Em dias de lúpus instável, brincar com a própria neurose é saudável e mais eficaz do que as dez pílulas diárias.

Pensava assim até que ouvi:

— Devia ter guardado de recordação. Tipo aquelas pessoas que guardam os caroços que tiram dos órgãos, num vidrinho de álcool.

— Que lindo! Super romântico, respondeu minha irmã.

— E ficar mostrando para as visitas, Beth gargalhava.

— Meu irmão guardará com amor e carinho: "cravo do sovaco da minha esposa."

Aí, tremi por um segundo. E me lembrei que sai do banheiro, anteontem, antes de vê-la jogar o cravo na pia. Não me recordo de barulho de água. Cadê aquele pote de tempero que estava na janela da cozinha?

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