quinta-feira, 30 de junho de 2016

The Sunset: um restaurante pra viajar


Marcus Vinicius Batista

Frequentar um endereço não faz dele nossa casa. Nem a presença constante, que pode camuflar certas obrigações, comodidades ou só relacionamento profissional protocolar. O único critério que nos aproxima de um estabelecimento é a relação com as pessoas, sempre em nível horizontal.

Na semana passada, eu e meus filhos Vini e Mari entramos no Restaurante The Sunset para almoçar. Eram quase cinco horas da tarde, nada proposital com o pôr do sol deste inverno pra justificar o nome em inglês da casa.

Ocupamos a única mesa do restaurante, encravado em um sobrado entre uma farmácia e um antiquário na avenida Epitácio Pessoa, a uns dez metros da esquina com a rua Alexandre Martins, na Aparecida. É ali pertinho do shopping Praiamar.

Logo que sentamos, Caio - um dos garçons - me perguntou: "O de sempre?" Respondi que sim, o filé de frango à parmegiana, com arroz integral, fritas e feijão, que como uma duas vezes por semana. A bebida? Também igual. Uma garrafa de Coca-Cola, 600 ml, e copos com gelo e limão.

Vini, do meu lado, levantou o dedo indicador da mão direita e disse: "Eu também quero o de sempre!" Caio me olhou e Thaís, a estudante de Química que também trabalha por lá, respondeu: "Espaguete à bolonhesa". Vini tinha visitado o restaurante pela última vez no Carnaval, no início de fevereiro, mas ela se lembrava do que ele gosta de comer.

The Sunset já foi duas pizzarias, a na telha e a quadrada, também na telha. Redescobrimos o lugar há uns dois anos, dica de uma amiga psicóloga. As recomendações terapêutico-gastronômicas: boa comida, em quantidade ideal, preço justo e atendimento excelente. O coquetel de remédios que qualquer consumidor deseja para curar a fome.

O restaurante antes abria à noite. Num sábado, sem querer pensar muito no que comer, eu e Beth entramos no The Sunset e comemos a melhor porção de batata frita, coberta com cheddar e bacon, no tamanho para um time de futebol de salão. Atualmente, Beth se contenta com a tigela de açaí, rica em frutas e adocicada.

The Sunset aposta nos pratos individuais e na culinária de eficiência internacional. De filé acebolado à lasanha, do salmão ao molho de maracujá ao filé de frango grelhado, fora os parmegianas, bacalhau e o fricassé de frango, o preferido de Beth. A entrada, uma salada ou tabule, mais a sobremesa - entre mousses e creme de natas -, estão incluídas no preço da refeição, que gira em torno de R$ 20.

O ambiente de dois andares é praiano. Na entrada, um aquário de um metro de diâmetro. Nas paredes, a decoração de verão, com esculturas. Em duas delas, os tijolos vazados que um dia ainda terei em minha sala. A escada de acesso ao andar de cima é toda em madeira, como os sobrados antigos da cidade, inclusive a casa da minha avó.

A trilha sonora do The Sunset oscila entre reggae e surf music e, nas TVs, o Canal OFF (de esportes radicais) me faz sonhar com os esportes que admiro, mas não pratico.

O termômetro está no ponto. O restaurante vive cheio de terça a domingo, mas no sábado fica lotado entre duas e quatro da tarde. É preciso paciência, enquanto a cozinha e os garçons se desdobram para a demanda.

The Sunset não entrega em casa, o que - de certa forma - nos tira da preguiça e nos obriga a caminhar até lá. Ótima justificativa para conversar e ouvir o sotaque da portuguesa Sônia, tão raro no bairro onde moro e na minha família. E, no pacote de informalidade, tem o filho da Sônia, Gustavo, sempre de tablet na mão e parceiro do Vini nos jogos de Minecraft.

The Sunset é de cozinha internacional, mas - para mim - são viagens a dois países: a Jamaica na música e o de sempre, o filé de frango à parmegiana. Mentira. O creme de natas é Portugal de sobremesa. Mas são os brasileiros - e a portuguesa - que nos garantem estar em casa para o almoço.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 28 de junho de 2016. 

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Os chineses e a Monalisa (Crônicas além do quintal # 4)

Turistas visitam a Monalisa, no Museu do Louvre, em Paris

Marcus Vinicius Batista

Ela estava lá, de sorriso enigmático e privacidade nula. Reconheço que, no Museu do Louvre, em Paris, meu interesse era maior pelas esculturas gregas, pinturas do século 19 e por outras obras do Renascimento. Mas era impossível escapar da aura da Monalisa. Todos os setores tinham placas que indicavam onde o quadro mais famoso do museu estava exposto.

A Monalisa é a única obra que possui roteiro próprio. E a quantidade de pessoas nos corredores funciona como as migalhas de pão que te levam à casa de doces. Conforme você se aproxima dela, ainda sem vê-la, você ouve em inúmeros idiomas o nome da Gioconda. O tratamento era de celebridade.

Ao entrar no pavilhão dela, inúmeros quadros nas paredes, dois com mais de cinco metros de altura. Chocantes, paralisantes. E a Monalisa no centro! É a única obra com quatro seguranças exclusivos. A única com um vidro à prova de balas. A única com uma grade de proteção, que te coloca, na melhor das hipóteses, a dez metros dela.

O problema é que, entre você e a Monalisa, existe uma centena de turistas e, entre eles, os chineses. Selfies, fotografias em sequência, retratos de vários ângulos. Eu me contentava em ver de longe, não conseguia me encantar com o quadro, embora saiba - claro - a enorme importância histórica do trabalho de Leonardo da Vinci. Talvez estivesse fascinado com tanta informação, tanta beleza, como a criança na loja de brinquedos de vários andares.

Voltei ao mundo real com a voz em português. Duas mulheres e dois jovens brasileiros, de São Paulo. Selfies e comentários perceptíveis sem esforço. Por osmose artística, Bel me convenceu a uma foto. Pronto, está lá a Gioconda no fundo do quadro... da tela do meu celular!

Na ala que reproduzia a residência de Napoleão III, o detalhamento da vida na corte pós-Revolução Francesa. E, conosco, a companhia generalizante da vida chinesa pós-moderna. Enquanto tentava admirar as salas de reunião, de jantar, os quartos e até o banheiro, competia por espaço para que meus olhos pudessem registrar o que as máquinas asiáticas não paravam de captar. 


O turista do mundo contemporâneo?
Esqueça a imagem clássica do japonês com a máquina pendurada no pescoço e sorriso que beira o ingênuo. Os chineses andam em grupos, e todos carregam máquinas fotográficas. Qualquer idade, todas as marcas e modelos.

Fiquei impressionado com a forma como consomem arte. Renascimento como Big Mac. Não olham o quadro ou a escultura. Fazem a foto. O mundo pelo visor. Nós, brasileiros, somos escravos dos selfies, claro, mas parecemos crianças diante da voracidade pela imagem parada. Idosos, crianças de seis, sete anos, todos clicam sem parar.

Não me sentiria tão incomodado com o dedo chinês grudado no botão. O problema é que muitos não falam inglês. Ou melhor, não falam nada. Apenas chegam aonde desejam. Empurrão, esbarrão, espremer contra a parede. Paralelo com a economia do país de origem? Licença, por favor, obrigado são termos desconhecidos em quaisquer idiomas.

À noite, eu e Bel fomos à Torre Eiffel. Paris é cidade para viagem a dois. E, viajando de casal, ir à Torre é como levar para jantar no Dia dos Namorados. Ritual? Convenção social? Clichê do amor? Jogue todo o racionalismo fora e viva como personagem de comédia romântica por uma hora. Conto a história da Torre em outra crônica.

Aqui, a história é a segunda batalha contra o exército chinês. Ficamos meia hora na fila para subir na torre, em um frio de uns 9º C. Esperávamos ficar mais um pouco, quando um homem de terno e gravata parou no guichê e comprou aproximadamente 50 ingressos. Todos para um grupo de chineses!

Sorrimos e pensamos que a vida de turista poderia ser mais tranquila. Eles não seriam tão agressivos, aceleraram nossa entrada. Até chegar no primeiro - e maior - dos dois elevadores, onde cabiam 35 pessoas. 

A imagem de Paris

Aguardamos na fila normalmente, mas quando o elevador abriu as portas, eu e Bel (lembre-se de que tenho 1,90 metros e 130 quilos) fomos jogados de lado pelos chineses. A porta foi se tornando um sonho distante.

Os chineses lotaram o elevador. A guia turística, que oscilava entre o inglês e o mandarim, sorriu para nós enquanto a porta se fechava. Lá em cima, a quase 300 metros de altura, eles se dispersaram, parte entupiu a lojinha e, com a habitual pressa, muitos já haviam descido.

Qualquer aborrecimento se dissipa com a imagem de Paris, às onze da noite, toda iluminada. Completamos o passeio com poucas palavras. Bel cerrou os olhos - não para imitar os concorrentes, mas pelo vento frio. Ela se protegeu com o casaco, olhou para mim e sorriu com a beleza que nenhum quadro do Louvre conseguiu eternizar.

sábado, 25 de junho de 2016

Restaurante São Paulo: 35 anos depois

Restaurante São Paulo, no Gonzaga, em Santos
Marcus Vinicius Batista

Qualquer relacionamento que pula do baú coberto de teias emocionais tem que ser retomado devagar. É como se voltássemos ao zero. Os dois lados estão diferentes. Ambos são outros, como a máxima do rio que nunca se atravessa duas vezes. Existe, inclusive, uma ambivalência afetiva: queremos repetir o que vivemos e estamos temerosos pelo que virá no novo presente.

Retomei o meu namoro com o Restaurante São Paulo há um mês. Sem saber que havia um novo relacionamento em curso. Depois de uns três anos, passei pela rua Carlos Afonseca, no Gonzaga, duas, três vezes por semana entre maio e junho.

Numa dessas andanças, estava com Beth, minha mulher. Perguntei a ela se já havia entrado no restaurante. Ela me disse que não e devolveu a pergunta. Aproveitei para contar que havia estado lá uma única vez, há 35 anos. A memória não é precisa, mas posso garantir que era o aniversário de um amigo de infância, o Vitor Hugo, hoje um piloto de avião que não vejo desde o início deste século.

Pouco me lembro daquela noite. Era uma dia de semana. Sei disso porque tinha aula no dia seguinte e deveria voltar cedo para casa, algo como nove da noite. Tinha seis anos e estudava em um colégio que ficava na rua Jorge Tibiriçá e hoje abriga uma academia. Lembro também que comi pizza de mussarela, numa época que os cardápios eram bem mais enxutos. E criança gosta de pizza de queijo mesmo, com tomate em cima.

No sábado, véspera do Dia dos Namorados, eu e Beth perambulamos o dia todo pelo Gonzaga. Vimos dois filmes no Cine Miramar, passeamos pelo bairro e, à noite, decidimos jantar por lá. Perguntei para Beth se ela queria comer no nosso restaurante favorito, a Cantina di Lucca, ou se preferia uma novidade.

Não esperava a segunda alternativa, mas tinha o plano B na manga. Ela fez umas três perguntas e, a meia quadra do restaurante, matou a charada. O que comer? Chutei e acertei que o Restaurante São Paulo é daqueles com menu eclético, de frangos a massas, de carnes a saladas. Versatilidade é a tábua de sobrevivência na cidade mais cara do Estado para se fazer uma refeição. 

As tradicionais toalhas vermelhas nas mesas
Quando entramos, reconheci de imediato o ambiente daquele aniversário no início dos anos 80. Não estava rigorosamente idêntico, havia se modernizado em alguns aspectos, mas não deixou de aguçar minhas memórias de criança, ainda que não sejam confiáveis.

Peço desculpas pela mentira branda. É claro que um moleque de seis anos, num restaurante, só quer comer e brincar, jamais vai expor seu talento em design de interiores. Deduzi, na decoração atual, as partes do cenário que estão ali desde a década de 70, quando o restaurante se mudou para a Carlos Afonseca, depois de dois outros endereços no Gonzaga. Informação que li na página 2 do cardápio, nada de conhecimento precoce e patológico.

O piso é aquele cinza meio desfocado, comum e funcional já naquela época. Eu gosto. Nas paredes, fotos antigas da cidade de Santos, algumas delas perdendo a cor, em coerência com o tempo de casa. Não resisti e fui ao banheiro para, além do óbvio, também prestar atenção, agora velho, no fundo do restaurante. Os azulejos alternados em preto e branco, mais os dois armários de madeira, contrastam com o banheiro compatível com hoje.

Até os garçons são retratos do passado e do presente em convivência. Garotos na casa dos 30 dividem as tarefas com gente de cabeça branca. Um deles, aliás, disse para os clientes da mesa ao lado que trabalhava ali há 26 anos. O Restaurante São Paulo faz parte de uma lista de casas onde há garçons que respiram a história da gastronomia da cidade. O Almeida é outro, por exemplo.

A noite no São Paulo era de casa cheia. As mesas tinham uma vela acesa no centro e estavam todas cobertas de toalhas vermelhas, o complemento tricolor aos azulejos.

Não arriscamos no pedido, escolhemos com um nhoque à parisiense, talvez uma lembrança inconsciente da Cantina favorita que traímos naquele sábado com uma breve paixão da infância. Como bebida, uma jarra de suco de laranja para enganar os excessos do dia anterior, daquela data e do que viria no amanhã.

A maioria dos clientes eram 15, 20 anos mais velhos do que eu. Reconheci um médico famoso na cidade. Ali, me pareceu plausível não encontrar alunos, quase todos de faixa etária oposta ao público presente no São Paulo.

Para nós, e eu me incluo não por força de expressão, era uma estreia. Não dá para confiar na memória de um menino de seis anos, viciado em pizza. É risco de crônica vestida de "causo". Mas tenho certeza de que já estive lá, seja dia de semana, seja na véspera do Dia dos Namorados. E comemos bem, outro dia e no século passado.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 21 de junho de 2016. 

domingo, 19 de junho de 2016

A reprise (Conversas com Beth # 29)


Marcus Vinicius Batista

Na segunda viagem, foram cinco dias de hospital. Classifiquei como sessão da tarde, antídoto para amenizar uma série de sentimentos que brotam quando as coincidências tocam a campainha. E desconto os city tours eventuais.

Quase um ano depois daqueles 19 dias de UTI, esse passeio foi emblemático. Estávamos mais sólidos, mais experientes sobre um assunto que não desejo ensinar a ninguém. Estávamos mais tranquilos, pela serenidade do segundo ataque do lobo, mais disposto a conversar do que arranhar nosso ânimo, nosso caminho.

O passeio, acreditei por ingenuidade, seria simbólico para desfazer algumas impressões alheias. Não sei exatamente por que esperava mudanças, mas em três dias compreendi a obviedade humana, a previsibilidade que deveria desaparecer em situações difíceis. Peço desculpas pela expectativa equivocada.

Sei que não podemos esperar mais do que os outros podem dar. Boa retórica, prática que exige treino. Mas sou esperançoso, de vez em quando. Quando nos sentimos acuados, ainda que com consciência da pressão, torcemos para que o outro saia do casulo da vida editada e se transforme. Que nos auxilie a pular mais um muro, por vezes espinhoso como nosso cansaço.

Confesso o erro, pois deveria saber de antemão que não veria certos corpos presentes ou dispostos nesta semana, mas ver você no hospital novamente dispensou racionalidades e teorias.

A racionalidade resiste no nível mínimo para me tornar um sujeito pragmático em absoluto. Alguém que executará tarefas, pensando, ponderando e associando informações somente para dar fim ao problema hospitalar, o vizinho indesejado. O balanço emocional fica para depois, nos minutos que antecedem o sono de exausto todos os dias. Não reclamo, apenas recarrego e luto de novo.

Acreditei, por 24 horas, que testemunharia um alteração de comportamentos. Que veria gente pensando em outra gente, você internada e, como qualquer pessoa, aberta ao calor e à palavra. Hospital não é passeio no parque, é um endereço em que a humanidade pode ser o melhor dos remédios, o mais forte dos antibióticos. Risadas, velhas histórias, episódios cotidianos, filmes, livros, fofocas, tudo se resume a matar o tempo que se paralisa dentro de um quarto com cores - não há melhor palavra! - hospitalares.

Serei sempre grato àquelas pessoas que não fogem do pau. Amigos de décadas, amigos de reencontros, amigos de sangue, amigos que não se conhecem, gente que tem o termômetro na temperatura correta, capaz de perceber as necessidades do outro sem que ninguém peça.

Só tenho a agradecer quem nos acolheu, fez a companhia a você, abriu alguns minutos (ou horas) da própria rotina para dividir, ouvir, divertir e exercitar a amizade quando um ou dois não conseguem dar conta. Ou mesmo quando conseguem, basta estar ao lado ou ajudar em outras frentes de batalha, além dos muros do hospital, essas que não permitem cessar fogo só porque outra guerra surgiu no horizonte.

A reprise de cinco dias também nos mostrou como se joga fora uma segunda chance. Repito, ingenuamente imaginei que a internação, no ano passado, era uma situação única. É, em certo sentido, mas indicava - e lutei para não perceber - como colhemos justificativas e desculpas para a fuga. Poderia pregar nas paredes do quarto como guias de autoajuda no reverso.

Estar em um hospital nas condições que te envolveram não é compromisso para quem adia. Para quem empurra as poucas oportunidades que temos de demonstrar afeto, a importância com o outro, em instantes de poucas repetições.

Você, neste trajeto longo de combate ao lobo pela enésima vez, sempre precisará de auxílio. Não se admite exército de um homem só. O lobo trucida a solidão. Somos escudeiros que, se não podemos estancar certos sofrimentos, podemos aliviar ferimentos com presença.

Neste quadro, os que fogem tem uma semelhança comum: todos estão acostumados a expor seus problemas para você. Não abrem exceções. Não conseguem perguntar sobre ti, é mais forte do que eles. A surdez é seletiva e o som da própria voz, entorpecente. Conversamos sobre isso e eu compreendo seus argumentos para absolvê-los. Mas isso não apaga a fuga, não elimina que fugiram duas vezes. Não me permite, hoje, colocar embaixo do tapete.

Escrevo para digerir as atitudes deles, para tolerar a covardia de quem pensou em si mesmo. De quem brincou com coisa séria. Medo de hospital que se dane! Ninguém vai ao hospital para fazer compras, para passear, para se entreter. Hospital é não é programinha para o domingo à tarde, depois da macarronada da vovó.

Vamos ao hospital porque alguém precisa de nós. Estar no hospital me esgota, suga minhas forças diariamente, mas escolhi estar ao seu lado e, por isso, engulo minhas dores porque você é a prioridade que encara, por força maior, uma cama reclinável. Não é mérito, é um ato que acredito estar em nós, que acontece com naturalidade.

Não concordo quando as desculpas prevalecem nesse estágio. As pessoas ficam próximas na encruzilhada, na decisiva hora de escolher uma estrada. Abraçar na festa é fácil como nas comédias de sessão da tarde. Assim como é confortável desaparecer - ou encarar como brincadeira - quando se furam as veias alheias.

É humano também, eu sei. Demasiado humano, inclusive. Só penso que, em certas circunstâncias, humanos podem ser egoístas. Ou solidários. Depende de quanto conseguem ver além do espelho.

sábado, 18 de junho de 2016

O ninho vazio (Conversas com Beth # 28)



Marcus Vinicius Batista

De todas as ausências que a lúpus pode provocar, confesso que dormir numa cama maior, sem que as medidas sejam alteradas, é a pior delas. O fato de eu e você nos vermos todos os dias não ameniza uma equação tão particular quanto dolorosa: não consigo me acostumar a dormir sozinho.

Dormir sozinho ressuscita no primeiro, segundo, terceiro dias o momento em que o silêncio se faz vivo, grita para me lembrar que pensar não permite recusas. Ler vira batalha entre o texto que pula do papel contra o texto que resiste no fluxo de consciência. O segundo vence e, assim, vegeto pelo raciocínio do que é insolúvel por hora, que dói sem a alternativa de arrumar uma ocupação.

A casa - ainda bem - está preenchida pelas crianças que, acompanhadas da nossa sobrinha Rafaela nesta noite, ocupam com risadas todos os cômodos. A diversão delas entra na madrugada e adia o que me incomoda há um ano.

Vivo apoiado na fórmula de resolver sucessivas questões ou problemas. Sempre há algo a fazer, algo a planejar, solucionar. Mantenho-me em movimento, mas pouco concentrado. Meu espírito está no hospital 24 horas, em coincidência eventual com o corpo que aparece por lá todos os dias.

Tento compreender a dificuldade de sentir saudades de você ainda que tenha acabado de te ver. Convivo com a sensação de que te visitar é um intervalo de indulto na rotina do quarto de hospital. Sem liberdade, com interrupções. O momento atual é, obviamente, incomparável com a UTI de junho de 2015, mas tem o peso da memória, o medo da repetição, o pavor da falta.

Nas duas primeiras noites, dormi do seu lado da cama. Seus travesseiros completavam o ambiente de simulação sensorial. O aroma e o desenho do colchão amenizaram a decisão médica de nos afastar por horas. Como desculpa para quebra de fronteira sem diplomacia, eu precisava carregar o celular para despertar de manhã cedo, e a tomada fica na parede do seu lado, ao alcance do braço que vai implorar por mais 15 minutos.

O cansaço, somatória da preocupação inerente à vida hospitalar com o ritmo de correções de provas (a ditadura dos envelopes pardos) mais a chegada das crianças, colabora para o desmaio por cinco, seis horas. Um sono duro, solitário, de sonhos esquecíveis.

O sócio-proprietário do leito, de origem felina, também percebeu que o cenário não era familiar. Ele permanece, em sua própria perspectiva, nos emprestando o espaço, mas só vê um corpo por perto, uma protuberância a se encostar. Ele se aconchega, às vezes repete os movimentos como se você estivesse aqui e se esforça para ser metódico. Algo falta. Ele se abstém de me explicar. Faz o quer, sem satisfações ao substituto.

Na terceira noite, meu melhor amigo resolveu o problema, em parte. Vini pediu para dormir comigo e ocupou seu espaço na cama. Ele fechou os olhos, desejou boa noite e pegou na minha mão antes de apagar. O ronquinho respondia por si.

A tranquilidade, claro, paliativa, foi de outra natureza, num gesto de amor que me fez lembrar de você. O roubo de cobertor também recuperou lembranças recentes. Só que, com ele, não é preciso uso de força tática para recuperar parte do patrimônio. Tudo se justifica numa mente esperançosa.

Começo a ficar preocupado. O ninho se esvazia em intervalos de seis meses. É a terceira vez em um ano e meio, o que poderia caracterizar um fenômeno sazonal. Nada científico ou sociológico, só uma divagação de quem se sente em alerta constante, em expectativa ininterrupta do retorno para o velho endereço.

Estou certo de que o fenômeno não se repetirá neste apartamento. Torço para que não se repita em outros lugares. O lobo não merece menção, tamanha a redundância melancólica que povoa a saudade.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Santos, uma despedida


Bruna Almeida

Santos, minha querida.

Eu te deixei há três meses, fui embora de encontro a outros sonhos, projetos e coloridos. Olha só como foi/está difícil...só consegui te escrever um pouco agora. Acho só posso e devo te agradecer pelo acolhimento e pelas mudanças que me transformaram. Nossa! Foi muita transformação! Foram 10 anos!

Em você, descobri que a solidão não é sinônimo de sofrimento, e sim de liberdade. Descobri tantas pessoas que são para sempre, mesmo não estando mais na minha rotina ou até mesmo nem falando com tanta frequência assim. Algumas pessoas que eu amo foram até morar aí em você e pudemos ficar mais próximas ainda. Fiquei perto de algumas pessoas da família de sangue e de escolha. Aliás, essas de escolha são amizades verdadeiras.

Eu morei com meus primos e meu irmão e aprendi muito sobre mim e sobre eles...e eu os amo numa intensidade maior depois de você.

E as músicas que você me apresentou?! A gente dançou pra caralho em todas as baladas com as minhas melhores amigas inesquecíveis. Quanta fossa e desilusão amorosa eu vivi em você...agora a gente dá risada e se sente amadurecida, mas sempre tendo que aprender muuuuito ainda.

Eu comecei a fazer terapia aí também e pausei, por enquanto, justamente por essa nossa distância...nossa, você e a minha terapeuta presenciaram tantas metamorfoses. Eu aprendi a dançar aí e até me apresentei em um dos seus teatros...ai, eu fiquei com muita vergonha, mas foi inesquecível...principalmente pelas pessoas que a dança me trouxe.

Você tem os barzinhos que me transbordam, principalmente o Casa Velha. Obrigada pelos porres e cigarros fumados com inúmeras desculpas ou só por vontade mesmo.

Eu escolhi experiências (tem coisas que só eu e você sabemos, então SHIU! :X) que fazem parte do meu presente e futuro. Eu amo o meu passado em você, minha Santos. Minhas escolhas revelam quem eu sou.

A sua praia é de tirar o fôlego, mas, confesso que prefiro a água das praias do Guarujá...desculpe-me..

Fiz os cinco anos do meu curso de graduação aí. Eu escolhi ir pra você...eu sabia que você iria cuidar da minha pouca vivência em TUDO. Me formei com orgulho e trabalhei mais cinco anos aí...foi você que me apresentou os cavalos como parceiros no tratamento dos pacientes que sempre me cativaram mais.

É difícil não me ver em você, não me ver andando pelo Gonzaga. Sinto saudades do canal 6 e até do pensionato de freiras que morei no meu primeiro ano aí. Nossa, como eu chorei em você, como eu dei risada em você.

Em você, eu conheci o meu amor e foi junto dele que decidimos te deixar para transcender em outro lugar. Foi isso o que você me ensinou: TRANSCENDER. Você me compreendeu tão bem e, por isso, eu sempre vou voltar. Eu sou sua e você é minha.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Na caverna, a ameaça do lobo (Conversas com Beth # 27)


Marcus Vinicius Batista

O lobo é um adversário tão difícil quanto sofisticado. Um amigo acupunturista nos aconselhou a chamá-lo de aliado, mas ainda não estou pronto para esta visão positiva. O lobo é um oponente que tenho vontade de sangrar aos poucos, esquartejá-lo com o combustível dos piores sentimentos. A fantasia do prazer filhote da raiva.

O lobo teve a pachorra de te chamar para uma conversa dentro da caverna (aqui, esqueça a toca, a energia dele só cabe em espaços maiores e profundos). Ele te acompanha de perto, finge desinteresse e escolhe o exato momento para te convocar. Nunca convida, exige atenção exclusiva. Todos em volta, para ele, são invisíveis nesta dança. Um salão escuro para dois.

O lobo é falso, com aquele sorriso de gente que se exibe como espiritualizada, aquela voz de religioso que promete solidariedade enquanto te pune. O lobo nos enganou de novo. Permitiu um aniversário dos mais inusitados e imprevistos e um pacote de Dia dos Namorados provavelmente inesquecível. O problema é, na idiotice de sua intolerância, ele nunca perceberá que nunca, nunca arrancará estas experiências de nós.

O lobo nos forneceu sinais de que desejava discutir a relação um ano depois da UTI. Os recados começam sutis, chegam truncados e crescem conforme a data do encontro se aproxima. Data que não nos informa, que avisará na porta da caverna, de preferência atrapalhando sua vida que caminhava a passos decididos.

O lobo é previsível dentro de sua própria lógica. Sabemos que ele é metódico, te cerca como uma presa pelos mesmos métodos e me impede de interceptá-lo, embora o estude todos os dias através de você. Como a lógica é incompreensível, ficamos à mercê dos caprichos da linguagem dele, a doença.

O lobo fareja e demarca seu território, como muitos animais. Mas, como um ser doentio, estabelece raciocínios tortuosos, que nos confundem, que nos tornam inábeis para compreender seus jogos. Assim, ele ri depois com prazer, não antes de nos conceder uma lição de moral, que me contaminou e me deixou arrependido de reclamar contigo. Ele só sossegou quando você admitiu a bola fora.

O lobo não é como os médicos. Ele não te dá voz. Ele não barganha. Ele não pensa que, em casa, as crianças nos alimentam com alegria e cumplicidade. Ele não te escuta ou abre uma brecha para o perdão. Ele explora nossos erros e os cospe em nossos rostos. Ele nos coloca em ponto de culpa, a ponto de nos esquecermos o quanto avançamos. E avançaremos nos próximos 12 meses de tratamento.

O lobo não se sente confortável com adaptações. Ele não presta atenção em datas ou lugares. Ele ama coincidências. Não as chama assim, tenho certeza. Não acredita nelas. É sua forma de controle.

As consciências malditas envolvem experiências. A tortura psicológica de apostar que repetiremos sentimentos, emoções, sensações. Que sofreremos com o isolamento, as paredes brancas e os jalecos que desfilam à nossa frente.

O lobo não é infalível. Ele vai cair. E estarei lá para testemunhar sua queda. Estamos mais experientes, mais unidos. Não descanso, como você diz. As crianças, Mari e Vini, também compreendem melhor os desvios do trajeto. Sabem que o lobo dormirá até o final desta semana.

Seremos mais disciplinados, mais alertas, implacáveis com quem sempre foi perigoso e traiçoeiro. Você entrou na caverna, olhou para a ameaça com revolta e, na manhã seguinte, exalou serenidade. Daqui, de fora, aposto e sorriu e acenou, como prega nossa cartilha.

Contamos com alguns aliados fiéis, que escutam, conversam e não fogem quando o lobo uiva. Gritam mais alto no seu quarto para reduzir o medo que o som da lúpus provoca depois que anoitece.

O lobo vai querer conversar de novo. Mas de nada adiantará falar, em que tom for, porque estaremos surdos. Sorrindo e acenando.

sábado, 11 de junho de 2016

A falsa médica vive em mim (Conversas com Beth # 26)

O mistério que intriga cientistas e médicos. E aqui em casa!

Marcus Vinicius Batista

Seu olhar sinalizava como um diagnóstico definitivo: poderíamos pensar outra vez em internação, mais remédios, pareceres médicos. A voz trêmula veio como o alarme que me arrancou do sofá e me levou ao corredor. Sai da sala a tempo de ouvir:

— Amor, o que é isso no meu braço?

Ela estava com o braço direito levantado ao lado da pia do banheiro. Olhava para o espelho e tentava entender por que um ponto aparecera ali, embaixo do braço, numa área despovoada, de pele clara. Um ponto preto que se tornava exceção num terreno permanentemente branco.

Dei três passos, entrei no banheiro, me aproximei e tentei ver de perto o sinal de gramática, o ponto. Como se fizesse diferença para alguém que nunca se arrisca em diagnósticos, fruto dos anos de curso de Psicologia. Cravar um resultado, jamais! Apenas respondi:

— Não sei o que é! É apenas um ponto preto no seu braço! Dói?

— Não, não dói!

— Já é uma boa notícia. Coça?

— Não coça.

Passou o dedo nele.

— É sujeira?

— Claro que não é sujeira.

— Nem aquele macuco, de criança?

— Porra, para!!!

— Tá inchado?

— Não, não, não. Não sinto nada aí. Estou preocupada.

— Nós vamos no médico depois de amanhã. Quer ver isto?

— É... acho que sim.

A resposta estava impregnada de preocupação. Em tempos de tratamento contra a lúpus, tudo pode ser um sinal. A brincadeira no meio das perguntas é a arma para baixar a guarda, relaxar se vier outro arranhão do lobo.

O caminho para a cura é sempre mais lento por causa da imunidade baixa. Uma gripe no mês passado levou 15 dias para sumir. Sete dias de cama. Uma dor de garganta persistente e incômoda. Qualquer alteração cheira a mais uma surpresa vestida como má notícia. É triste, mas você se acostuma com o lado ruim para dar mais valor às pequenas vitórias.

Depois de meia hora, percebi que ela queria voltar no assunto.

— O que foi?

— Aquele ponto preto embaixo do braço.

— O que tem ele?

— E se for algo grave?

— Para mim, não é.

— E se for uma verruga?

— Melhor assim.

Ela não estava convencida. Tinha certeza de que pensara em algo mais sério. A lúpus nunca está quieta. Pode estar adormecida, mas ainda assim se manifesta pelos silêncios do organismo. Ataca nos intervalos, nos cochilos do sistema imunológico. Sorri com o terror causado por enigmas médicos como esse.

— E se for algum problema nos gânglios linfáticos?

— Uau! Calma!

Saí para trabalhar. Ela ficou em casa, pois tinha que resolver alguns problemas na Internet. Estudar, editar um vídeo. Recomendei que descansasse um pouco. O dia tinha sido acelerado.

Quando retornei umas três horas depois, ela estava no banheiro. Olhou para mim, me cumprimentou com um beijo e disse como primeiro ítem da pauta:

— Olha o ponto preto no meu braço! O que será isso?

— Deixe-me ver. Continuo achando que não é grave. De novo: dói? Tá inchado? Coça?

— Não, não, não.

Cheguei o rosto mais perto e perguntei:

— Posso encostar a mão?

— Pode.

Coloquei os dois dedões, um de cada lado do ponto preto. Bastou encostar, ajeitar os dedos sem pressionar a pele que o ponto saltou. Trouxe com ele um centímetro de sabe-se-lá-o-quê. Cremoso e branco. Era o maior cravo que eu já vira na vida. Uns dois centímetros, se somar o segundo apertão. E um irmão gêmeo preto na outra ponta.

Beth segurava o alien na ponta do dedo indicador. Parecia fascinada com a descoberta científica. Eu olhava para o buraco embaixo do braço.

— Amor, deixou um buraco. Amanhã, já está tapado.

Não sei se ela me escutou, pois só olhava para o monstrengo. Sorrimos, repetimos o último diálogo como uma peça de humor negro, que passou, ufa, que passou. Eu dei um beijo nela e saí do banheiro. Imaginei que ela jogou a criatura pela pia.

No dia seguinte, o cravo foi assunto na casa dos meus sogros e, à noite, num diálogo com minha irmã, Catarina. Ao ouvir a conversa e as risadas entre as duas, entendi que esquadrinhar a biografia do cravo era essencial como terapia. Em dias de lúpus instável, brincar com a própria neurose é saudável e mais eficaz do que as dez pílulas diárias.

Pensava assim até que ouvi:

— Devia ter guardado de recordação. Tipo aquelas pessoas que guardam os caroços que tiram dos órgãos, num vidrinho de álcool.

— Que lindo! Super romântico, respondeu minha irmã.

— E ficar mostrando para as visitas, Beth gargalhava.

— Meu irmão guardará com amor e carinho: "cravo do sovaco da minha esposa."

Aí, tremi por um segundo. E me lembrei que sai do banheiro, anteontem, antes de vê-la jogar o cravo na pia. Não me recordo de barulho de água. Cadê aquele pote de tempero que estava na janela da cozinha?

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Um aniversário argentino, chinês, japonês e mexicano ... (Conversas com Beth # 25)

Um aniversário de 35 anos, globalizado para o século XXI
Marcus Vinicius Batista

Você chegou aos 35 anos. Adotamos, sem querer, a filosofia do meu pai. Não exatamente estender o prazo de validade a cada seis meses, como ele diz após os exames médicos de praxe, mas compreender que os seis últimos meses foram bem melhores que os anteriores. Foi, talvez, o único rastro de contabilidade sobre o passado recente, quebrando a tradição que parece inerente às comemorações.

Abraçamos também a ideia de que aniversário não é alarde, muito menos balanço regado à melancolia ou nostalgia. Pensamos, sem combinar, que seu aniversário de 35 anos poderia ser celebrado em doses homeopáticas e com simplicidade reconhecida. Quase um fingimento de dia normal, exceto pelos detalhes, esses que significam prazer e alegria.

Neste texto de tantos "nãos" até agora, não esperávamos que o dia seria único, digno de data redonda. Pela manhã, sua rotina bissemanal de tai chi chuan e cama de ceragem, para reforçar a musculatura, endireitar as costas, fazer exercícios, mais almoço pela dieta, conforme as recomendações médicas.

Resolvi te buscar de surpresa e cheguei com uma enxaqueca em andamento. Vamos brincar de colocar as costas no lugar? Concordei em experimentar a cama, enquanto ignorava a cabeça com uma granada dentro. Minhas costas pareciam novas, mas a máquina jogava minha cabeça para trás, o que me punha em rota de colisão com a vontade de vomitar. A dor de cabeça vencia por goleada a massagem pesada nas costas tortas.

Saí da cama e, cinco minutos depois, testemunhava o milagre da globalização. Conheci Jorge Raul, argentino radicado no Brasil, especialista em Medicina Chinesa e casado com uma brasileira descendente de japoneses. A história, em si, é o mosaico deste país, mas será contada em breve. Agora, o milagre argentino-chinês.

Jorge fez uma anamnese cirúrgica. Conectou, com meia dúzia de perguntas, todos os sintomas dos últimos cinco dias, matou o diagnóstico de stress e, com uma picada na orelha esquerda, baixou a pressão em dois pontos em dez minutos. Nocauteou a enxaqueca que crescia em progressão aritmética. E ainda me deu uma aula primorosa sobre a medicina oriental. 






Saímos de lá (você, descansada; eu, com outra cabeça), pegamos seus exames e fomos para a segunda fase do dia de aniversário. A consulta médica era esperada há 15 dias e fatalmente resultaria em mais um remédio na bancada da cozinha de casa, o caçula do Éramos (e somos) Seis (pílulas diferentes).

Depois que nos despedimos, fui almoçar perto do consultório. Antes da primeira garfada, o celular tocou: a consulta havia terminado. Breve, tranquila e mais rápida do que o previsto. O remédio veio, mas em menor dosagem do que nossos temores. Uma consulta de 15 minutos, o menor dos males médicos na conjuntura atual, graças às informações prévias de outra profissional.

Entre as surpresas e um dos presentes, o trabalho no meio, concluído dentro do planejado, sem sobressaltos. Daí, jantar. O restaurante mexicano Guadalupe era um desejo para a noite de 35 anos. Não o visitava há uma década. Para você, estreia.

O garçom - coitado, vai trabalhar no Dia dos Namorados, dia do próprio aniversário - era a educação em pessoa. Ele acertou em todas as dicas do cardápio. Comemos na quantidade certa. O ambiente, agradável. E ainda ganhamos um mojito porque era seu aniversário. O melhor que já tomamos, na dose certa para a dupla-cliente Vip da indústria farmacêutica, em várias dosagens e nomes genéricos.

Tivemos o aniversário de 35 anos que você não esperava ter. Sei que gostou muito, não apenas pela conversa, pelos sorrisos, pela cumplicidade deste dia. Mas pela surpresa que aterrissou depois da viagem ao México. O melhor presente latino que o marido da aniversariante poderia ganhar ...

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Os dois Beneditos

O Benedito caçula - aquele que nos recebe
Fotos: Beth Soares
Marcus Vinicius Batista

O casarão branco os protege há 13 anos. Os dois irmãos nunca se veem e deixaram de se falar depois que um jardim e uma alameda os separaram. A marca de nascença, assinada logo abaixo do pescoço, indica que são filhos do mesmo pai, já falecido. Daniel Gonzalez os pariu no mesmo ano, em 2003, mas não na mesma gestação, o que derruba a tese de serem gêmeos.

O pintor Benedito Calixto não os conheceu, pela obviedade da própria existência-homenagem deles. Sem ancestrais, ambos convivem com a solidão parte dos dias. Na outra parte, mal têm tempo de construir laços, o tempo de uma caminhada com outros pontos de chegada, nunca de parada. Aquela história de cumprimentar em movimento para evitar maior contato.

A distância entre os Beneditos esconde a pequena diferença de idade, os semblantes de fases distintas da vida, o olhar sobre ângulos diferentes do lugar que os acolheu. Os dois Beneditos foram destinados ao desencontro. Especula-se que se encontraram uma só vez, há 13 anos, no ateliê de seu pai. Não houve palavras.

Se deixaram de se falar, pode ser pelo não dito. Ou uma mentira conveniente para evitar culpados. Se houve sentimentos, eles guardaram para si, no silêncio da própria imagem estática.

Desde então, a imobilidade os precede, a paralisia os mantém como adereços próximos das plantas, a inércia os perpetua como margens que tangenciam um jardim povoado de esculturas naturais ou feitas pelo homem. São cicerones de obras que diversificam a cultura litorânea por seus símbolos, os canais, a algumas dezenas de passos da orla, moradia primeira delas.

O casarão branco é um retrato três por quatro de uma cidade que morreu de inanição sustentável. O casarão, com seus muros baixos, expõe a agonia de uma Santos histórica, enquanto pede paz para sobreviver diante do concreto e o ferro que entortam prédios e ressacam artificialmente à beira-mar.

Os irmãos Beneditos riscam o canto de página imponente da Pinacoteca Benedito Calixto. São um sorriso de canto de boca. Para entendê-los, é essencial chegar mais perto. Por vezes, o olho humano desperdiça as sutilezas do lastro de família. Vejo gente recorrendo à tecnologia para captá-los. As lentes fotográficas – ou velha lupa – poderiam acentuar o que o tempo sangrou, mas as ranhuras não deixam seus efeitos desaparecerem.

O mais novo dos Beneditos aponta o nariz para a entrada lateral da casa, como um anfitrião informal mais exposto à maresia e às mudanças de humor dos visitantes. Ele nos diz boas vindas se entrarmos pela avenida da praia; de fato, se apodera do viés mais glamouroso da narrativa de álbum de família. Apesar de coadjuvante, pertence a ele o fundo do cenário das fotos mais clichês, porém mais populares. 

Cabe ao mais novo vigiar a entrada da Pinacoteca
O caçula, talvez pela rebeldia juvenil, nos recebe com cabelos esvoaçantes e a pele um pouco descascada, arriscaria dizer por 13 anos de exposição ao sol e à chuva. De exposição também às pessoas de visita esporádica e raiva gratuita, inimigos do pintor que está longe dali faz tempo.

O Benedito mais jovem poderia parecer mais descuidado, hipótese descartada pelo desenho do rosto preocupado. Não sisudo, cauteloso. Engana-se, porém, quem estende a imagem de desleixo aos óculos, quebrados na haste e aro direitos.

O estrago não foi obra do próprio caçula Benedito, desprovido de braços para a autoflagelação. Os óculos fora do lugar assim o ficaram por obra de sujeitos fora do lugar na sociedade. O Benedito mais novo engrossa a lista de gente importante acariciada por vândalos que atacam os impedidos de reagir.

Benedito Calixto e João Otávio poderiam dar as mãos num grupo de notáveis. Poderiam, pois do João, em frente ao colégio Escolástica, levaram justamente elas, as mãos. Quem sabe um intercâmbio de experiências com Carlos Drummond de Andrade, no Rio de Janeiro, outra personalidade atacada pela intolerância camuflada no anonimato?

O outro Benedito é um sujeito reservado. Sua vida é proteger ou contemplar o Salão Verde, aos fundos do jardim da Pinacoteca, depois da Alameda Edith Pires Gonçalves Dias. O Benedito primogênito acompanha também uma casa recém-reformada e abrigava, até o ano passado, uma biblioteca e uma sala de reuniões.

O mais velho cumpre seu papel dentro das relações fraternas. Sustenta uma postura séria, talvez de quem foi preterido pela dinâmica da Pinacoteca, talvez pela responsabilidade de cobrir a retaguarda, mesmo que restrita a quem apenas deixou o carro no estacionamento. 

O Benedito mais velho - a experiência que protege
o Salão Verde da Pinacoteca

Este Benedito anda – ou melhor, permanece – com a gravata no lugar certo, o cabelo é sempre alinhado, os traços só têm rugas se considerarmos os movimentos das espátulas de seu pai-escultor. Os selvagens nunca prestaram atenção nele e, por isso, não consideraram sua paradeza como estímulo a carícias violentas e desautorizadas.

Os Beneditos não nasceram para o estrelato comparável ao do pintor-referência. Ambos foram designados para a rotina coadjuvante de uma passagem, da ligação entre a entrada ou o fundo e o casarão branco. Arriscaria dizer que o silêncio traz a visão de quem pouco é visto, mas consciente de que são as palmeiras simbólicas de um oásis dentro do deserto de metal que nos cerca, que nos esfrega o dedo de uma cidade rumo à falsa modernidade.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 7 de junho de 2016. 

quarta-feira, 8 de junho de 2016

No ônibus, me sentei entre a felicidade e o mau humor



Giovana Soares e Marcus Vinicius Batista

Ao entrar no ônibus, me sentei ao lado de um casal de idosos. Era o trajeto para o trabalho e, normalmente, uso fones de ouvido. A música me distrai e deixa o trânsito menos aborrecido.

O senhor era o exemplo da educação e do bom humor. Falou bom dia e fez piada com outro rapaz. Parecia todo feliz. O comportamento dele ficava mais escandaloso porque a contradição estava sentada ao lado. Não eu, mas a esposa dele.

Ela era cara fechada, a extinção das risadas, nenhum assunto, ninguém a tirava de seu direito de não ser amável. Porém, ela incomodava porque externava a amargura, a ranhetice.

A mulher reclamava o caminho todo, de tudo e nada ao mesmo tempo. Ela era tão ranzinza que as queixas ficaram sem sentido, sabe? Juro, a senhora incomodava de tanto que murmurava.

As reclamações chegaram ao ponto de um rapaz que estava sentado no banco da frente levantar e trocar de lugar. Os fones de ouvido saíram das bolsas e mochilas e saltaram para os ouvidos de muitos passageiros. Alguns criaram coragem e olharam para o casal.

O idoso, proprietário exclusivo do bom humor, pedia para ela ficar quieta, celebrar o dia e parar de reclamar de tudo. Nada adiantou. Ela seguia firme, irredutível, e discutia com ele.

Quando o ônibus entrou na orla da praia de Santos, abriu um sol maravilhoso, o dia estava lindo. Mas ela reclamou do sol. O marido, que recusava a santificação pela paciência, não aguentou mais ela reclamando. Aí, o último dos moicanos da tolerância foi um pouco mais "grosso": mandou ela calar a boca. Ele não estava mais suportando estar do lado dela e só ouvia protestos.

De rude à irônico, ele perguntou para a esposa se queria que ele "apagasse o sol". Eu até ri nessa hora porque ele foi sarcástico, mesmo de saco cheio. E ela nada de parar de falar. Só piorava mais quando ele pedia para parar.

O marido se levantou, saiu do lado dela e falou que a esposa não estragaria o dia dele como já tinha feito com o próprio.
Se até o esposo, pessoa que te ama, que jurou amar na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, no dia de sol e no dia de nuvem negra na cabeça, não te aguenta, imagina quem é de fora?

Só tenho que agradecer ao meu fone de ouvido, que me poupou do contágio do mau humor daquela senhora. Reclamando ou não, o sol permaneceu intacto e eu cheguei ao trabalho, como todos os dias. Problemas todo mundo tem e me esforço para que eles não me deixem chata.

Sou grata. Recebi a dádiva de acordar hoje. Bom dia!