segunda-feira, 30 de maio de 2016

Os peixes, a garça e a lata com barbante



Marcus Vinicius Batista

Eu tinha acabado de atravessar a avenida Siqueira Campos e andava ao lado do canal 4 quando um senhor com 75 anos mais ou menos me chamou:

— Olha os peixes! Que absurdo! Eles estão lutando para respirar.

— É, senhor, mas o canal está bem raso. Quantos ...

— Precisa limpar o canal! Olha a quantidade de sujeira no fundo.

A claridade e a miopia - estava sem óculos - não me deram uma visão real dos peixes. O fundo era escuro, fruto das ligações clandestinas de esgoto e do lixo. Forcei a vista, me aproximei da mureta e enxerguei o que jurava ter desaparecido no século passado. Ou, talvez, a ressurreição num milagre às vésperas de Corpus Christi.

Dezenas de peixes, todos aparentemente da mesma espécie, nadavam bem lentamente, bem perto da margem do canal. A profundidade era de poucos centímetros, trechos com entulho, trechos assoreados. Os peixes não pareciam lutar para respirar. Preferi não discutir pelo que não era o ponto. O ponto eram os peixes ali. A sujeira do canal era a mancha corriqueira da paisagem.

Os peixes pareciam procurar por comida. Alguns deles disputavam pedaços de pão, provavelmente doados por alguma testemunha que viu a cena minutos antes de nós.

O caminho é a ligação entre um de meus empregos e minha casa. Percorro um trecho do canal 4 e viro na rua Ministro João Mendes, no Embaré. Naquele trecho de canal, o máximo que havia visto, em anos, foram garças - não sei se são garças mesmo, mas que parecem, parecem - sempre no final da tarde, sempre vasculhando restos de comida.

Só vi uma delas uns 200 metros depois. Ela tentava, como uma dama solitária em passos elegantes pelas finas pernas, garantir o almoço na margem oposta do canal. Não queria molhar as patas, e a impressão era de que os peixes descobriram a estratégia preguiçosa. Afastaram-se para o meio do canal e deixaram de ser refeição.

Era o quarto grupo de peixes, que davam uns cem no total, capazes de chamar a atenção de uma criança que andava no sentido oposto, essa sim capaz de segurar a mãe por alguns segundos para ver a exceção ambiental.

A criança encantada como os peixes em desfile me empurrou para o começo da década de 80. Tinha cinco, seis anos quando os peixes no canal entraram na minha infância. O canal era outro, o três, uma quadra depois do que os mais antigos chamavam de linha da máquina. Tempos em que trens faziam o transporte de pessoas, em vez de servir como objeto de decoração urbana.

Ali, na avenida Washington Luiz, quase esquina com a rua Barão de Paranapiacaba, ficava a casa dos meus avós, Maria e Albertino. Era um sobrado em terreno comprido, com quintal, cachorros, tartarugas e espaço na frente. A casa era como um para-raio familiar, onde muitos se reuniam para aniversários, Natais e reveillons.

Lembro-me de, num domingo pós-almoço, atravessar o canal com meu pai, munidos de uma lata de tinta usada e furada nas laterais. A alça era presa a um barbante, que nos permitia descer a lata nas águas do canal, enquanto esperávamos na mureta, aquela tradicional, hoje um dos símbolos da cidade e banalizada em tatuagens nas pernas alheias.

Pedaços de pão velho amolecido funcionavam como iscas para atrair os peixes. Dezenas deles se espremiam em torno dos punhados de pão atirados lá de cima. A lata os recolhia. A brincadeira era pescá-los, observá-los de pertinho e devolvê-los imediatamente ao canal. Os peixes eram pequenos, sei lá, coisa de um, dois centímetros.

Num desses dias de pesca amadora, sem a presença de adultos, resolvi levar alguns peixes comigo. Fiquei com uns três, coloquei num pote com água e percebi que haviam sobrevivido. Ao chegar em casa, a criança de cinco, seis anos entendeu que os peixes mereciam um endereço melhor. O pote era demasiado apertado para quem tinha todo um canal à disposição.

A decisão foi transferi-los de moradia e, por ignorância, selar as vidas deles. Para a criança, tudo era água. Água do canal. Água do Aquário. Os peixes, de água salgada, morreram de um dia para outro na doçura do aquário decorado como simulacro de mar.

Coincidência ou não, nunca mais pesquei nos canais de Santos. A criança jurava que os peixes tinham procurado um endereço melhor. E se esqueceu daquilo por outras distrações da infância.

O adulto os reencontrou, tão crescidos quanto ele, 35 anos depois. Sem lata e barbante nas mãos, achou melhor deixá-los brincar com a garça.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 26 de maio de 2016. 

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