quinta-feira, 12 de maio de 2016

O corpo e a fortaleza (Conversas com Beth # 23)



Marcus Vinicius Batista

Sempre me julguei como um sujeito resistente à dor. Contusões em inúmeras partes do corpo, sequelas nos joelhos que estalam quantas vezes eu quiser, um dedo eternamente deslocado (que preciso colocar no lugar para usar luvas de goleiro e inútil para sacolas de supermercado), um incisão sem anestesia, todas na conta do meu corpo gasto após 41 anos (quase 42).

Quando olho para você e penso em sua capacidade de suportar a dor, sinto-me como uma criança diante de uma anciã sábia. Nesta fase de tratamento contra a lúpus, seus exemplos são diários. E olha que não estou considerando os 19 dias na UTI mais o tempo de recuperação em casa.

É claro que me assusta só de lembrar, por exemplo, o dia em que você parou na Santa Casa de Santos. Naquela tarde de segunda-feira, permanecemos por sete horas à espera de uma internação que se desfez como miragem no solo arenoso. Testemunhei seu braço formigar, acompanhado por uma dor de cabeça que distorcia seu rosto. A pressão a 23 e a possibilidade de derrame me fizeram apelar para o escândalo e obter atendimento imediato.

Também me recordo do dia que você parou na UTI da Beneficência Portuguesa. A pressão também a 23, os pés inchados que não cabiam nas sandálias e a dor de cabeça que te deixava tonta, sem condições de permanecer em pé. Por sorte, mistério da fé ou conjunção dos astros, estávamos ali para uma consulta de rotina com o nefrologista Bruno Graçaplena. A lúpus atacava justamente os rins.

Agora, com o tratamento em curso, você me ensina como dar conta dos efeitos colaterais da medicação. Qualquer abuso de sal, quase sempre involuntário, traz o inchaço imediato e a necessidade de tomar uma pílula de furosemida, diurético de resposta acelerada. Se a medicação equilibra a fortaleza sob ataque, os efeitos podem ser a desidratação em dias de muito calor.

A bomba chamada micofenolato de sódio é um bicho imprevisível dentro de você. Vivemos, com o perdão do clichê, um dia por vez. O micofenolato traz consigo a criatividade e a diversidade dos efeitos colaterais. Você aprendeu a conviver com enjôos, cansaço sem esforço aparente, dores de cabeça, eventuais dores nas juntas, fora o estômago baleado por meses de combate contra diversos medicamentos. Só faltava um remédio para combater as consequências de outros comprimidos.

Não reclamo das decorrências do tratamento. Os incêndios são apagados um a um, mesmo que signifiquem mudanças de hábitos, algumas restrições ou o cancelamento de programas de final de semana. Aprendemos, sem perceber, como funciona bem se divertir dentro de casa.

Aceitamos, sem choradeira, que a praia em dia de sol deixasse de ser varanda e se transformasse em cartão postal. Andamos, com prazer, na beira do mar madrugada adentro.

Não reclamo porque me lembro de que tivemos dias bem piores. Mais do que isso: são obstáculos que devemos pular para alcançar o final do tratamento, o adormecimento do lobo por tempo indeterminado. Falta cerca de um ano. Já dobramos a metade do trajeto.

A redução da cortisona e a conquista definitiva do micofenolato – se o monstro da burocracia não contra-atacar – servem como justificativas para a frase “dos males o menor.” A cortisona poderia provocar um aumento maior de peso ou a chegada da depressão. Como incluir na conta uma doença de difícil diagnóstico como a depressão? Já basta a lúpus, que mostrou as garras cinco vezes em 15 anos.

Você faz o que pode para não parecer alguém que sofre com a dor. Sei quando isso acontece e tento não atrapalhar. O remédio, por vezes, é o silêncio. Não sou também dos melhores acompanhantes, pois – de vez em quando – te seduzo com tentações alimentares. Melhor uma pequena transgressão do que o sofrimento da ausência absoluta. Concordamos, não?

O fato é que, entre os medicamentos que compõem a bandeja a descansar na bancada da nossa cozinha, decidimos que a lúpus não teria como escudeiro a melancolia. Quando te vejo estudar em casa, aguçar a curiosidade com arte, se divertir com os seriados consumidos por nós em overdose ou apenas dar uma volta que termina em sorvete, micofenolato, cortisona e furosemida viram nomes químicos de uma obrigação duas vezes por dia durante os próximos 12 meses.

Ou até que o médico resolva racionar ainda mais a munição do fogo amigo. Fogo vestido de pílula, que invade seu organismo e gosta de se entrincheirar em seu estômago.

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