quarta-feira, 11 de maio de 2016

Meus fantasmas aparecem depois da meia noite (Crônicas além do quintal # 3)


Marcus Vinicius Batista

Como cheguei em Londres três semanas depois de Bel, tive que me hospedar em outro endereço. Ela e um colega da república estudantil me arranjaram um quarto em casa de família. Isso significava também a distância de um quilômetro e meio entre as casas. Eu, em South Merton. Eles, em Wimbledon.

Para encontrar Bel, tinha três opções de transporte: trem, ônibus ou metrô. Depois da meia noite, sobrava apenas uma viagem de meia hora de ônibus, pontualmente britânico. O problema era a temperatura, que caia a 5ºC com sensação térmica de zero grau. Não dava para ficar parado em ponto.

Na primeira noite, havíamos jantado juntos e colocado a conversa em dia. Conheci os novos colegas da república e me despedi. Decidi ignorar as recomendações de ônibus e fazer a caminhada de volta, à uma hora da manhã. Sabia o roteiro porque havia feito o trajeto uma vez, durante o dia. Memória fotográfica.

Desci a rua da república e entrei numa avenida. Silêncio, sem carros ou pessoas. Avenida desértica. Duas quadras depois, virei à esquerda e tomei uma rua com quatro quadras de extensão, basicamente formada por residências e uma escola de educação infantil.

Nenhuma alma que estivesse viva. Quase todas as casas não tinham portão e estavam apagadas. Uma luz acesa a cada quatro, cinco casas, em média. A maioria eram do hall de entrada.

A decisão estava tomada. Seria besteira voltar para a avenida e esperar o ônibus, congelando no frio, sem luvas ou gorro. A jaqueta dava conta, e a bolsa de couro, modelo carteiro, ajudava a esquentar as costas. Segui a caminhada em passos rápidos, como se fosse exercício, como andar na orla da minha cidade natal.

O final da rua se unia a uma passarela sobre a ferrovia, bem parecida com aquelas que ninguém atravessa nem durante o dia no Brasil. Aquelas estruturas de concreto que magnetizam assaltos, descartadas por pessoas que desafiam a loteria do atropelamento ao pularem a mureta sem proteção. Uma passarela muito parecida com as da Rodovia dos Imigrantes ou da Rodovia Padre Manoel da Nóbrega, no litoral sul de São Paulo. Havia uma diferença, que não refrescava o risco ou amenizava a cautela. Aqui, as muretas são de concreto; lá, grades de metal.

Passei pela passarela quase correndo. Passos acelerados o suficiente para ver que não havia trens no horizonte, que os prédios de três andares e as casas do outro lado estavam todas apagadas. Vivo, ninguém! Uma hora da manhã e a cidade morta, adormecida pela baixa temperatura, pelo inverno que anoitecia Londres às quatro e meia da tarde.

Ao sair da passarela, nova rua com sete quadras de extensão até que pudesse cruzar nova avenida e estar perto da casa que me hospedava. Na segunda ou terceira quadra, ouvi um barulho, como se fossem passos com um tom mais arrastado. Parei, olhei para os lados e para trás. Ninguém! Continuei a andar. Na quadra seguinte, o barulho se repetia. Reduzi o ritmo, olhei em volta. Casas às escuras. Ninguém na rua. Andava há quase 15 minutos e nenhuma pessoa naquela madrugada de terra arrasada.

Cristalizei a certeza de que ainda seguia contaminado pelo medo de andar tarde da noite no Brasil. Medo da violência. Temor por assalto. Inúmeros relatos de amigos e parentes. Enquanto andava, o som aparecia e sumia. Porra, estou ouvindo o que não existe. Neurose latina, febre tropical, só pode ser.

Andei mais duas quadras, estava quase na avenida e ouvi o arrasta-pé outra vez. Resolvi raciocinar e tentar descobrir a origem do ruído. Isolei todos os sons. Não foram mais do que seis passos e o diagnóstico: o barulho que me preocupava era o resultado do atrito da bolsa-carteiro com a minha jaqueta. O som andava comigo, caminhava de braços dados com a minha paranoia urbana. Ri sozinho do turista patético.

Quando virei na segunda avenida, a civilização renasceu. Duas pessoas conversavam enquanto esperavam em um ponto de ônibus. Gente após mais de um quilômetro de passos ritmados e cérebro em polvorosa. Um carro de luxo passou e trouxe outro tipo de voz ao meu trajeto. Duas pessoas que mal me olharam quando passei pelo ponto de ônibus.

Virei à esquerda, passei pelo clube de criquete, por baixo de um viaduto e virei na Springfield Street, onde estava hospedado. Eram mais uns cinco minutos andando, onde encontrei mais duas pessoas do outro lado da calçada e a mesma repetição de casas sem portão e luzes apagadas em quase todas elas. Quatro sujeitos na mesma noite. Viva a vida noturna dos gatos pingados, pensei.

Cheguei na casa do Michael, o senhor que morava sozinho e teria minha companhia por cinco dias. Conversara com ele rapidamente durante a tarde, quando deixei minha mochila e conheci o quarto onde ficaria. Só ali, mais de uma da manhã, é que me lembrei do que havia dito. Estaria em casa por volta das dez da noite. Havia quebrado a regra em mais de três horas, já fascinado pela vida londrina e envolvido pelos novos amigos brasileiros. Nada mais irritante para um britânico quanto o atraso.

A saída era uma só: tocar a campainha e me desculpar. Por algum motivo qualquer, resolvi colocar a mão na maçaneta. A porta estava aberta. Imaginei que, de repente, Mr. Michael esquecera a porta destrancada e estava no andar térreo da casa, vendo TV ou lendo um de seus livros de História e Política.

A casa estava escura e silenciosa. Entrei em todos os cômodos e nada. Subi as escadas e todos os quartos estavam fechados. Fiquei imediata e naturalmente preocupado. Quebrei o protocolo e bati na porta do quarto dele. Mr. Michael me atendeu como alguém que, de fato, é acordado no meio da madrugada. A falta de noção da hora dispensou as minhas desculpas.

"Mr. Michael, sorry, but the door is opened."

"Don´t worry, Marcus, the door is always opened."

Perdi a fala e ele também, dormindo novamente. Respirei um pouco, agradeci e fui para meu quarto. Não era possível que alguém, numa cidade do tamanho de Londres, dormisse em paz com a porta da rua aberta.

Mesmo exausto, levei um tempo para conseguir dormir. A porta do meu quarto permaneceu trancada. Minha carteira e meu passaporte repousaram embaixo do meu travesseiro. Que levassem tudo, mas dinheiro e identificação eram essenciais!

No dia seguinte, Mr. Michael me explicou sua rotina. Deixaria, quando estivesse fora, uma cópia da chave dentro de uma caixa de papelão, ao lado da porta. Isso nunca aconteceu, previsível para um homem de 70 anos.

O que aconteceu é que, na noite seguinte, refiz o mesmo caminho, mais ou menos na mesma hora. Sem promessas de chegar cedo e sem bolsa-carteiro, mas com luvas e gorro; sem os medos brasileiros. Desta vez, encontrei cinco testemunhas na rua.

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