terça-feira, 24 de maio de 2016

Esmeralda, a visitante


Marcus Vinicius Batista

Caro leitor, sou apenas o intermediário neste momento. Limito-me a transcrever o depoimento de alguém que nos traz uma história de superação.

"Eu sou o exemplo vivo de que se pode mudar. Meu nome era Esmeralda e, há três anos, larguei o conforto de um apartamento modesto, mas em bairro nobre, pela rua. Abandonei casa, comida três vezes ao dia e uma cama quentinha, pela frieza de um chão duro sem cobertor, pelo risco de ser chutada por qualquer maluco sem humanidade. Eu sei que me arrisquei a virar estatística, pois as previsões indicavam que minha expectativa de vida seria de dois anos. Doença, envenenamento, violência física. Dois anos.

Depois de alguns meses, não sei precisar, eu me recolhia perto do canal 5. Ali, o lixo era bom, rendia muitas vezes boas refeições. Conseguia trocar algumas palavras com moradores dos prédios por ali, afagos que afastavam a solidão e me mantinham segura.

Numa dessas noites, um rapaz me deu atenção além do habitual. Nada indecoroso; pelo contrário. Ele me tratou com respeito, agachou-se para falar comigo no mesmo nível. Eu mal conseguia dormir tamanha a fome e a sede. Muitas horas sem comer, dificuldades para pensar.

A receita da miséria me levou à porta do apartamento dele. Uma mulher, deveria ser a companheira, também me recebeu. Mas o dono da casa, que não era nenhum dos dois, sentiu meu cheiro, e veio à porta com cara de irritação.

O rapaz trocou meia dúzia de palavras com o dono, que muito tempo depois descobri se chamar Lui - nome francês, de gente metida à besta -, e me deu um prato de comida e um recipiente com água. Esqueci o mundo, ignorei onde estava, matei quem judiava de mim.

Jamais imaginaria que essa relação com destino de esporádica se transformaria numa rotina. Continuava a me virar na rua, tinha colegas eventuais na sobrevivência, porém - a cada dois dias - o rapaz passava, conversava comigo e eu acabava na porta do apartamento onde ele morava.

O proprietário rosnava, opa, reclamava, mas o casal dava um jeito de me fornecer uma refeição e água. Tentei tomar leite certa ocasião, bebida imediatamente rejeitada pelo meu estômago. Não sei se é problema de lactose, se era verminose ou apenas estava desacostumada com certos alimentos.

Soube mais tarde que as visitas para comer duraram uns três meses. Descobri também que eles acharam minha família, conversaram com ela e notaram que eu era passado por aquelas bandas. Embora não quisesse retornar para casa, qualquer chance disso acontecer havia sido riscada do mapa.

Os vizinhos do rapaz ouviram as fofocas do prédio e passaram a dar mais atenção para mim. Eu passei a ser mais conhecida na área, e um ou outro me tratava como se não fosse da rua, ou estivesse nela. Aí veio o que seria um presente.

Uma das moradoras do prédio se sensibilizou com minha história e me convidou para ficar com a família dela; na verdade, ela e o marido. Era daqueles sonhos de programa de TV, no domingo à tarde. O problema é que, como esses programas, a vida muda de figura quando as luzes se apagam e as câmeras são desligadas.

Minha teoria é que a mulher tinha problemas de comportamento. Se era doida ou sofria dos nervos? Não sei. Sei que, numa tarde, ela me colocou no carro. Disse que faríamos um passeio. Não me lembro para onde fomos, mas - duas horas depois - ela pediu que eu saísse do carro e se mandou. Foi embora e eu, de volta à rua.

Como conhecia este mundo de ausência de telhado, de hospedagem a céu aberto, retornei sem mágoas à vida de uma refeição por vez, uma noite dormida em cada lugar. Não tenho a capacidade de explicar e prefiro, francamente, não pensar nisso. O fato é que acabei, no mesmo ano, retornando às imediações do prédio daquele rapaz que me acolheu com um jantar e um recipiente com água.

Ele me tratou como se eu nunca tivesse ido embora, como se tivesse ido à padaria e retornado 15 minutos depois. Era tarde, mais de onze horas da noite, eu estava sem banho e faminta quando ele me levou para a porta do apartamento e repetiu o ritual. Até o dono da casa, o Lui, fez a mesma cara feia de sempre. Hoje, tenho certeza de que é essa mesmo, com mudanças mínimas nas expressões do rosto.

Dias depois, o rapaz - a mulher consentiu com a cabeça - perguntou se eu queria entrar e descansar. Sejamos honestas: o convite tinha vindo antes, mas a vergonha e a timidez, da minha condição mesmo, me fizeram ignorar suas palavras. Comer e matar a sede eram mais importantes.

Assim passou a ser nossa convivência. Ele ou ela chegavam do trabalho, me convidavam para entrar, eu comia e dormia por cinco, seis horas. Um dia, eles me disseram que parecia um resort para mim, efeito nenhum porque eu desconhecia o significado da palavra. O Lui me olhava, virava as costas e sumia em um dos quartos.

Em janeiro do ano passado, ouvi boatos de que poderiam me envenenar. Estava incomodando alguém ou mais gente. Chegou aos meus ouvidos a história de que eu deixava fezes espalhadas dentro do prédio do casal. No começo, pensei no Lui. Só que ele quase não saía de casa. Portanto, deveria ser outra pessoa.

Passei a aceitar os convites do casal apenas depois das onze da noite, quando o rapaz chegava em casa. Era o meio de entrar sem alarde, mas me recusava a ficar para dormir e voltava para a rua.

Num sábado à tarde, eles ouviram da síndica do prédio (aqui reproduzo o que me relataram depois) que eu poderia ser envenenada. Que eu dava prejuízo na rua. Que eu incomodava com fezes e mau cheiro. Tinha ganho até um apelido: Prejú. Vem da palavra prejuízo. Não era mais Esmeralda, virara meia palavra de sentido negativo.

A história exigia uma decisão enérgica. Para mim ou para o casal. Eu , acostumada com isso, decidi ir embora. Eles não tiveram dúvidas: naquele mesmo dia me convidaram para morar no apartamento deles. Sem possibilidade de não como resposta. 



Aceitei e descobri que o rapaz tinha dois filhos, uma menina e um garoto. O menino me adotou como melhor amiga dele. Eu o vejo de vez em quando e matamos as saudades via Internet, principalmente pelo Skype. Ainda não mexo no computador. O rapaz me chama quando conversa com o filho.

Estou há quase um ano e meio no apartamento deles. Participo da rotina, estou até mais gordinha. Mas não consegui perder o apelido que me deram por causa daquele passado de visitas ocasionais: Magriça.

Nunca mais fui para a rua. O Lui é um efeito colateral, um gato chato que insiste em trocar unhadas comigo quase todo dia. Dizem que parecemos um casal à beira do divórcio: nunca dormimos na mesma cama, comemos em pratos separados e disputamos território palmo a palmo.

Eu, como ex-gata de rua, nunca mais fui chamada de Esmeralda, nome ruinzinho por sinal. Magriça ou não, sei o quanto é importante ter meu próprio espaço. E, claro, o casal que me acolheu crê que são os donos da casa. Até hoje não sei os nomes deles. Que fiquem com as chaves!"

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 21 de maio de 2016. 

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