quinta-feira, 5 de maio de 2016

A guerra dos gorros (Crônicas além do quintal # 2)


Marcus Vinicius Batista

A visita ao bairro de Camden Town estava perto do fim. Tínhamos passado a tarde por lá, um bairro de artistas e gente alternativa que se tornara mais conhecido porque fora a última residência da cantora Amy Winehouse.

As casas com esculturas nas fachadas e grafites estilizados davam um ar de arte contemporânea, somado às lojas de discos, histórias em quadrinhos e outros produtos culturais que se misturavam com o comércio de souvenirs para turistas. Era um bairro de Londres onde, nitidamente, as pessoas desrespeitam a lei que proíbe o consumo de bebidas alcoólicas nas ruas. Apenas um saco de supermercado finge encobrir o prazer da garrafa. A desobediência civil integra o pacote de estilo de vida fora do padrão. Uma contradição que flutua entre o atendimento ao turista e estar alheio a ele.

Eu e Bel entramos numa das lojas para ver o preço de uma camiseta estampada com um pote de Nutella. Seria um presente para Mariana, minha filha, e doida pelo creme de avelã. Tati e Rodrigo, amigos que fiz em Londres, ficaram do lado de fora. Fizemos aquela tradicional negociação com o vendedor, que chamou o chefe dele, que empurrou a mercadoria, que não quis saber de nossas dúvidas e que baixou o preço em 40% do valor inicial desde que não abríssemos a camiseta dentro da loja. O voto de confiança e a compra realizada.

Quando saímos da loja, havia cerca de 20 pessoas em torno de três grandes caixas de papelão, encostadas num poste. Rodrigo observava o movimento enquanto sonhava com uma faixa do Chelsea, seu time de coração. O vendedor não havia sido condescendente. Tinha sido, de fato, inflexível: 15 libras, é pegar ou largar e ponto final.

Tati e Bel saíram para o lado direito da loja. Eu fui para o lado oposto, curioso para ver o que atraía tanta gente, por que se debatiam para fuçar o conteúdo das caixas. Uma senhora estava bem perto de nós e fez o alerta em inglês, que tivéssemos cuidado com os pickpockets, batedores de carteiras que apareciam na hora do descarte das mercadorias. Para ela, as bolsas de Tati e Bel corriam riscos.

Chegando mais perto, vi que as pessoas saíam contentes com xícaras de café, canetas, pen drives, camisetas, canecas, uma diversidade de quinquilharias, todas em perfeito estado. Mercadorias descartadas na rua pela loja ao lado. Descobri depois que eram produtos chineses, comprados a preço de banana e que eram jogados fora porque entupiam os estoques das lojas. Era uma prática usual se livrar de produtos que não sensibilizavam mais os turistas. Nada de caridade, apenas reciclagem de mercadorias.

Resolvi dar a volta, sair da calçada e, pela rua, me aproximar do tumulto. Com meu tamanho, poderia chegar perto das caixas. Dane-se! Se era de graça, valia resgatar algum presente de ocasião.

Antes de alcançar uma das caixas, uma senhora esbarrou em mim e desculpou-se enquanto carregava uma xícara e uma camiseta. Encostei atrás de um rapaz de chinelos, pés sujos e roupas de uns três dias. O odor dava o toque final. Parei do lado dele, me agachei e coloquei a mão direita na caixa. O que viesse era loteria, pois os corpos à frente não me deixavam ver o interior dela.

Dali, saiu um gorro vermelho. De graça, seria um presente para alguém, até porque não suporto usar algo na cabeça, seja boné, chapéu, boina, capuz. Fiz o caminho de volta - feliz da vida como criança - por ter conquistado algo naquela pequena batalha de consumo, naquela micro experiência turística.

Ao voltar para a calçada, notei que Tati e Bel conversavam. Rodrigo estava junto com elas, revezando-se entre o testemunho da guerra pelas caixas e o desejo de levar uma lembrança do Chelsea para o Brasil. 15 libras. 15 libras seriam 90 reais. A frustração era digerida pela conversão das moedas.

Percebi que havia escolhido o lado errado da trincheira. Bel estava com seis gorros nas mãos. Tati, com outro. Eu, um único filhote. Soube que o dono da loja ofereceu às duas os gorros. Ele se divertia com a briga para retirar a mercadoria na calçada. Bel havia perguntado diante do braço estendido: "Free?" "Free" foi a resposta dele.

Decidimos nos afastar do tumulto. Conferimos e confirmamos que a camiseta da Mariana estava sem defeitos. Juntamos os gorros numa sacola e seguimos o passeio por Camden Town.

No Brasil, deixamos que Mariana e Vinicius, além dos presentes que ganharam, escolhessem os gorros que quisessem. Mariana adorou um gorro azul, mas - ao ver que estava escrito o nome do grupo One Direction - fez a doação para o irmão caçula.

Bel também ficou com um deles, um gorro branco. Só no Brasil é que ela notou que estava escrito Cocaine. O gorro descansa na gaveta até hoje, desejando que a coragem apareça. E Fernando, meu cunhado, ganhou outro de presente.

As crianças conhecem a história. Meu cunhado? Até hoje não sei se ele sabe a origem do mimo. Só sei que, por uns dias, andou com o gorro para cima e para baixo, sem lavá-lo.

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