segunda-feira, 30 de maio de 2016

Os peixes, a garça e a lata com barbante



Marcus Vinicius Batista

Eu tinha acabado de atravessar a avenida Siqueira Campos e andava ao lado do canal 4 quando um senhor com 75 anos mais ou menos me chamou:

— Olha os peixes! Que absurdo! Eles estão lutando para respirar.

— É, senhor, mas o canal está bem raso. Quantos ...

— Precisa limpar o canal! Olha a quantidade de sujeira no fundo.

A claridade e a miopia - estava sem óculos - não me deram uma visão real dos peixes. O fundo era escuro, fruto das ligações clandestinas de esgoto e do lixo. Forcei a vista, me aproximei da mureta e enxerguei o que jurava ter desaparecido no século passado. Ou, talvez, a ressurreição num milagre às vésperas de Corpus Christi.

Dezenas de peixes, todos aparentemente da mesma espécie, nadavam bem lentamente, bem perto da margem do canal. A profundidade era de poucos centímetros, trechos com entulho, trechos assoreados. Os peixes não pareciam lutar para respirar. Preferi não discutir pelo que não era o ponto. O ponto eram os peixes ali. A sujeira do canal era a mancha corriqueira da paisagem.

Os peixes pareciam procurar por comida. Alguns deles disputavam pedaços de pão, provavelmente doados por alguma testemunha que viu a cena minutos antes de nós.

O caminho é a ligação entre um de meus empregos e minha casa. Percorro um trecho do canal 4 e viro na rua Ministro João Mendes, no Embaré. Naquele trecho de canal, o máximo que havia visto, em anos, foram garças - não sei se são garças mesmo, mas que parecem, parecem - sempre no final da tarde, sempre vasculhando restos de comida.

Só vi uma delas uns 200 metros depois. Ela tentava, como uma dama solitária em passos elegantes pelas finas pernas, garantir o almoço na margem oposta do canal. Não queria molhar as patas, e a impressão era de que os peixes descobriram a estratégia preguiçosa. Afastaram-se para o meio do canal e deixaram de ser refeição.

Era o quarto grupo de peixes, que davam uns cem no total, capazes de chamar a atenção de uma criança que andava no sentido oposto, essa sim capaz de segurar a mãe por alguns segundos para ver a exceção ambiental.

A criança encantada como os peixes em desfile me empurrou para o começo da década de 80. Tinha cinco, seis anos quando os peixes no canal entraram na minha infância. O canal era outro, o três, uma quadra depois do que os mais antigos chamavam de linha da máquina. Tempos em que trens faziam o transporte de pessoas, em vez de servir como objeto de decoração urbana.

Ali, na avenida Washington Luiz, quase esquina com a rua Barão de Paranapiacaba, ficava a casa dos meus avós, Maria e Albertino. Era um sobrado em terreno comprido, com quintal, cachorros, tartarugas e espaço na frente. A casa era como um para-raio familiar, onde muitos se reuniam para aniversários, Natais e reveillons.

Lembro-me de, num domingo pós-almoço, atravessar o canal com meu pai, munidos de uma lata de tinta usada e furada nas laterais. A alça era presa a um barbante, que nos permitia descer a lata nas águas do canal, enquanto esperávamos na mureta, aquela tradicional, hoje um dos símbolos da cidade e banalizada em tatuagens nas pernas alheias.

Pedaços de pão velho amolecido funcionavam como iscas para atrair os peixes. Dezenas deles se espremiam em torno dos punhados de pão atirados lá de cima. A lata os recolhia. A brincadeira era pescá-los, observá-los de pertinho e devolvê-los imediatamente ao canal. Os peixes eram pequenos, sei lá, coisa de um, dois centímetros.

Num desses dias de pesca amadora, sem a presença de adultos, resolvi levar alguns peixes comigo. Fiquei com uns três, coloquei num pote com água e percebi que haviam sobrevivido. Ao chegar em casa, a criança de cinco, seis anos entendeu que os peixes mereciam um endereço melhor. O pote era demasiado apertado para quem tinha todo um canal à disposição.

A decisão foi transferi-los de moradia e, por ignorância, selar as vidas deles. Para a criança, tudo era água. Água do canal. Água do Aquário. Os peixes, de água salgada, morreram de um dia para outro na doçura do aquário decorado como simulacro de mar.

Coincidência ou não, nunca mais pesquei nos canais de Santos. A criança jurava que os peixes tinham procurado um endereço melhor. E se esqueceu daquilo por outras distrações da infância.

O adulto os reencontrou, tão crescidos quanto ele, 35 anos depois. Sem lata e barbante nas mãos, achou melhor deixá-los brincar com a garça.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 26 de maio de 2016. 

Palavras e dor


Beth Soares

Tenho ficado longos períodos sem escrever. Não porque não pense em nada, pelo contrário. Minha mente fervilha, pulsa, grita insistentemente. Desconfio que tenho escrito tão pouco porque escrever me dói.

Dói porque, por mais que eu queira fechar os olhos, todos os dias, de um jeito ou de outro, acabo encarando um monstro bem de perto. Eu vejo a miséria, a fome, a dor, o abandono e seus parentes. Eu vejo a morte em vida. Mas também a vida, no que para a maioria seria a morte. Esse (des)equilíbrio é ensandecedor para quem vê e sente o outro. Porque o outro sou eu.

Sou eu ali, na favela que eu visito. Sou eu sem água encanada em 2016. Sou eu, aos setenta anos, subindo várias vezes ao dia um morro íngreme para chegar em casa, cheio de armadilhas prontas para destruir meus ossos frágeis. Sou eu quem perdeu a única renda porque algum burocrata achou que minha vida não era suficientemente miserável para merecê-la.

Sou eu andando na lama fétida, de chinelos, cumprimentando os filhos e netos dos meus vizinhos, e silenciando diante da constatação de que estão usando drogas às 11 horas da manhã, na minha frente e na frente de seus pais. Eu estou vendo o pedido de socorro de todos eles e das meninas da vizinhança e da minha família, violentadas todos os dias, mas me sinto impotente para fazer algo. Porque tudo é normal. E o que é normal também dói. Mas é uma dor com a qual a gente se acostuma.

Doeu ouvir que o posto de saúde era bem pertinho, só 30 minutos andando. No meio da lama. Com dor. Cansado. Carregado. Doeu ver o orgulho por viver ali há 20 anos, sob as telhas que molham a sala. Porque dói, mas dói mais quando chove. Doeu olhar os tijolos das paredes sem reboco, que não podem ser contados porque ninguém na casa conhece os números. Doeu ver a sujeira se acumulando na porta da cozinha porque não há forças para levar o lixo diariamente até o pé do morro.

Eu vi tudo aquilo e me vi. Ouvi os gritos dos donos da verdade das redes sociais me dizendo que eu sou vagabundo, que não mereço viver com o mínimo de dignidade. Eles não dizem com essas palavras, mas eu sei que é isso que querem dizer. Sei que querem que eu suma, que eu morra. Mas eu continuo aqui, sujando a paisagem. Você acha que dói mais em quem?

Demoro para escrever porque me dói ver o que tem sido feito com as palavras. Porque, para mim, elas são sagradas. Não no sentido elitista e mesquinho, mas no sentido do que representam enquanto manifestação dos dons humanos. E percebi que não é preciso ser humano para saber escrever. E quantos exemplos de criaturas profundamente humanas que nunca tocaram numa caneta? Isso sim, doeu muito.

Então eu decido, de tempos em tempos, abrir mão das palavras, apesar de amá-las tanto. Fiquei só com as imagens por um tempo. Presas na retina ou na lente da câmera. Mas, não sei se infeliz ou felizmente, acabo não resistindo às letras. Talvez porque a dor seja grande demais para segurar aqui dentro. E gritar não resolve (sim, eu já experimentei).

A poesia está em todos os lugares para onde olho. Mesmo as coisas amenas me tocam. Olhei-as e me calei por meses. Até ver os olhos daquele homem velho. Ver quando ele os secou com os dedos, tentando escondê-los de mim, quando me ouviu dizer que eu acreditava nele e na sua dor. Como não crer numa dor que também é minha? Ele não sabe ler, mas leu o mundo como poucos eruditos. E eu me senti analfabeta diante dele, embora as palavras dançassem numa gênese criativa frenética, mais vivas do que nunca na minha cabeça.

De volta à minha casa, Marcus me perguntou porque eu estava tão calada. Eu só franzi as sobrancelhas e balancei a cabeça negativamente, como quem finge não ter nada extraordinário para dizer. Ele entendeu a importância e a gravidade da minha dor-silêncio e a respeitou. Porque é preciso escolher com muito zelo as palavras que vão contar coisas como estas. E ainda assim dói. Mas também cura.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Vendo meu corpo!



Marcus Vinicius Batista

A gripe, sobrinha da dor de garganta e neta da alergia respiratória, me fez tomar uma decisão: colocar meu corpo à venda neste feriado de Corpus Christi. Não me entenda mal. Jamais ousaria me comparar ao corpo mais famoso neste dia santo. É mais senso de oportunidade, de acompanhar tendências e comportamentos.

Nada de crise, é trabalho. Apenas quero aproveitar o momento para fortalecer a estratégia do negócio. Até porque o Corpus eterno opera milagres e tem índole irrepreensível. O meu corpo, por outro lado, apenas se levanta todos os dias para trabalhar. E vem impregnado de defeitos e vícios.

Antes de discutirmos o preço, acho importante falar sobre o produto. A área é grande, seja na extensão ou na largura do terreno. O metro quadrado já foi 30 quilos maior; em compensação, hoje o solo é mais estável, com alguns desníveis e pedaços de terra fofa, nada que uma reforma - ou repaginada - não seja capaz de dar jeito. A compra é investimento e, claro, exige adaptações ao novo proprietário.

No momento, como expliquei, acontecem problemas pontuais. Há vazamentos, principalmente na região do nariz. A região alagou com a gripe. A boca está sobrecarregada, servindo como respiradouro e também como exaustor. O local é irrigado para evitar a secura e amenizar as dores na região da garganta. O resto dá a impressão de que foi atropelado por uma retroescavadeira, mas - garanto - que é temporário.

Para evitar reclamações por propaganda enganosa, aviso que o corpo é um doce. A diabetes é o vizinho silencioso há seis anos, que exige gastos extras de manutenção todos os meses. Fique tranquilo que cabe no seu orçamento.

O terreno foi arado por anos e está repleto de plantações de refrigerantes, chocolates, bolachas e outras espécies de verduras e legumes da modernidade.

Se você desbastar o mato, vai encontrar no monte abdominal um pouco de cebola, tomate e batatas, cultivados com aquela carne moída, aquela linguiça calabresa em porção, aquela pizza portuguesa, às vezes meia cinco queijos. Se você for religioso (não praticante serve!), saiba que encontrará pães multiplicados, carás, médias, em forma, com ou sem casca. O único senão é que, na maioria das vezes, o pão vem acompanhado de coca-cola, de vez em quando aparece a sofisticação de uma cerveja, um vinho chileno ou um whisky escocês, fruto de doações de parceiros comerciais.

Além disso, o corpo não está em exposição. Falta a ele mobilidade para que se permita uma visita. O interessado não poderá conhecer todo o local, que permanece deitado ou sentado. Os fundos, por exemplo, dependem da confiança da relação entre vendedor e comprador, caso o negócio ocorra. Diante das circunstâncias, não existe a chance de test drive.

Outro ponto para evitar decepções: o corpo não é pronta entrega. A administradora do lugar, Beth Soares, tem a lei do usucapião ao dispor dela. Ela promete que vai colaborar na melhoria das condições do produto, mas a entrega só será feita após a separação da alma. Não dá para entregá-lo em vida, mesmo que a gripe o faça parecer um moribundo, com algumas frescuras de enfeite.

Se você ainda estiver interessado, saiba que não há chance de pechincha. A crise econômica poderia ser a desculpa para segurar o preço, alegando, entre outras coisas, lucro mínimo e juros baixos. O fato é que este corpo, com 41 anos de fabricação, é único dono, com as peças originais e selo de garantia renovado ano a ano pelos melhores institutos dos quais você nunca ouviu falar.

Não se sinta no escuro. Fotos deste corpo podem ser vistas na Internet. Tudo de família, dentro da moral e dos bons costumes. Nada mais atual do que compras online. A descrição está aqui, lida por você via computador ou celular.

As imagens estão disponíveis, em vários ângulos, no Facebook. Como o produto é gourmet, para um público selecionado como você, não utilizamos Instagram, Snap Chat, Tinder ou Linkedin. Se a negociação avançar, transfiro mais informações no chat ou a gente se adiciona no WhatsApp.

A promoção é válida até o término do estoque único de vírus da gripe. Aceitamos pagamento à vista, no cartão ou financiamento bancário. Troca com troco ou pagamento em cheques, não. Quase caímos no golpe num caso de virose.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Papai sempre tem razão



Marcus Vinicius Batista

Seu Otávio anda meio ressabiado com o casamento do filho mais novo. O sujeito acabou de ter uma filha, um mês atrás, e o convidou para ir à Santo André conhecer a neta. Seu Otávio, de 69 anos, traços e sotaque ainda forte da Paraíba, tirou folga do táxi e subiu a serra. Quando já estava na cidade, recebeu um telefonema do filho cancelando a visita.

"Assim, em cima da hora? Com a desculpa de que a nenê não dormiu e não deixou os pais dormirem? Aí tem. Essa história de casamento ..."
Seu Otávio tem outro filho. Foram dois relacionamentos longos, que geraram herdeiros de mães diferentes. No primeiro, casamento de papel passado, terno e véu e grinalda para a noiva. Dali, nasceu um rapaz, que mora no interior de São Paulo. A mãe dele morreu quando o menino tinha 13 anos.

A viuvez fez com que Seu Otávio desistisse de se casar novamente. A aposentadoria precoce, como motorista de ambulância, reforçou sua convicção de vida solitária. Seu Otávio atendia a um chamado quando houve um tiroteio. Ele foi baleado na mão esquerda e depois nas costas. Foram 75 dias internado em um hospital da Capital, "entre a vida e a morte", como adora repetir.

A aposentadoria o levou para a praça. De motorista de ambulância a motorista de táxi. Depois de seis anos de taxímetro rodando e levando milhares de pessoas, ele reconsiderou a ideia de nunca mais se casar.

Ele conheceu uma moça numa corrida. Dali, um namoro. Depois, uma gravidez inesperada. E a vontade de juntar os trapos. "Fiz a proposta para ela: precisamos acertar tudo para não pisar na bola com seus pais. Vamos nos casar!"
A moça respondeu de imediato: "Casar? Não, casar é para trouxas!"

Seu Otávio recorre a seu pai pela primeira vez. "Papai sempre me dizia que Deus nos manda recado com sutileza. Nunca é direto. Ele me mandou um recado. Não casei, terminamos e não virei corno."

O taxista é um homem fiel. Fiel à Deus, mas também às tradições do macho e dos ensinamentos do pai. Depois de pensar um pouco sobre o segundo relacionamento que o levou a execrar o matrimônio, ele voltou ao filósofo paterno para explicar o amor e as traições.

"Pensando melhor, papai dizia que a mulher nunca trai o homem. Ela aprende com o outro para ensinar o marido depois. E ele me disse mais: o homem também não trai. O homem faz caridade."
Seu Otávio optou por seguir sozinho. Três anos atrás, a conversa foi outra. Ele chegou a me dizer que procurava uma nova esposa, cansado de chegar em casa e testemunhar o apartamento vazio, entediado por jantar fora, sem companhia, durante o expediente. Disse, depois, que era uma fase, uma carência que passou.

Hoje, Seu Otávio remói lembranças porque está chateado com o filho. O taxista, cheio de orgulho, recusou o convite para voltar a Santo André e espera que filho, esposa e neta desçam para o litoral, até porque a mãe dela mora em Santos.

"Sinceramente, eu não entendo. Só queria ver, só ver minha neta. Bom, é como meu pai me ensinou: 'O destino existe para nos levar à felicidade, mas de vez em quando deixamos a felicidade de lado para driblar o destino."

terça-feira, 24 de maio de 2016

Esmeralda, a visitante


Marcus Vinicius Batista

Caro leitor, sou apenas o intermediário neste momento. Limito-me a transcrever o depoimento de alguém que nos traz uma história de superação.

"Eu sou o exemplo vivo de que se pode mudar. Meu nome era Esmeralda e, há três anos, larguei o conforto de um apartamento modesto, mas em bairro nobre, pela rua. Abandonei casa, comida três vezes ao dia e uma cama quentinha, pela frieza de um chão duro sem cobertor, pelo risco de ser chutada por qualquer maluco sem humanidade. Eu sei que me arrisquei a virar estatística, pois as previsões indicavam que minha expectativa de vida seria de dois anos. Doença, envenenamento, violência física. Dois anos.

Depois de alguns meses, não sei precisar, eu me recolhia perto do canal 5. Ali, o lixo era bom, rendia muitas vezes boas refeições. Conseguia trocar algumas palavras com moradores dos prédios por ali, afagos que afastavam a solidão e me mantinham segura.

Numa dessas noites, um rapaz me deu atenção além do habitual. Nada indecoroso; pelo contrário. Ele me tratou com respeito, agachou-se para falar comigo no mesmo nível. Eu mal conseguia dormir tamanha a fome e a sede. Muitas horas sem comer, dificuldades para pensar.

A receita da miséria me levou à porta do apartamento dele. Uma mulher, deveria ser a companheira, também me recebeu. Mas o dono da casa, que não era nenhum dos dois, sentiu meu cheiro, e veio à porta com cara de irritação.

O rapaz trocou meia dúzia de palavras com o dono, que muito tempo depois descobri se chamar Lui - nome francês, de gente metida à besta -, e me deu um prato de comida e um recipiente com água. Esqueci o mundo, ignorei onde estava, matei quem judiava de mim.

Jamais imaginaria que essa relação com destino de esporádica se transformaria numa rotina. Continuava a me virar na rua, tinha colegas eventuais na sobrevivência, porém - a cada dois dias - o rapaz passava, conversava comigo e eu acabava na porta do apartamento onde ele morava.

O proprietário rosnava, opa, reclamava, mas o casal dava um jeito de me fornecer uma refeição e água. Tentei tomar leite certa ocasião, bebida imediatamente rejeitada pelo meu estômago. Não sei se é problema de lactose, se era verminose ou apenas estava desacostumada com certos alimentos.

Soube mais tarde que as visitas para comer duraram uns três meses. Descobri também que eles acharam minha família, conversaram com ela e notaram que eu era passado por aquelas bandas. Embora não quisesse retornar para casa, qualquer chance disso acontecer havia sido riscada do mapa.

Os vizinhos do rapaz ouviram as fofocas do prédio e passaram a dar mais atenção para mim. Eu passei a ser mais conhecida na área, e um ou outro me tratava como se não fosse da rua, ou estivesse nela. Aí veio o que seria um presente.

Uma das moradoras do prédio se sensibilizou com minha história e me convidou para ficar com a família dela; na verdade, ela e o marido. Era daqueles sonhos de programa de TV, no domingo à tarde. O problema é que, como esses programas, a vida muda de figura quando as luzes se apagam e as câmeras são desligadas.

Minha teoria é que a mulher tinha problemas de comportamento. Se era doida ou sofria dos nervos? Não sei. Sei que, numa tarde, ela me colocou no carro. Disse que faríamos um passeio. Não me lembro para onde fomos, mas - duas horas depois - ela pediu que eu saísse do carro e se mandou. Foi embora e eu, de volta à rua.

Como conhecia este mundo de ausência de telhado, de hospedagem a céu aberto, retornei sem mágoas à vida de uma refeição por vez, uma noite dormida em cada lugar. Não tenho a capacidade de explicar e prefiro, francamente, não pensar nisso. O fato é que acabei, no mesmo ano, retornando às imediações do prédio daquele rapaz que me acolheu com um jantar e um recipiente com água.

Ele me tratou como se eu nunca tivesse ido embora, como se tivesse ido à padaria e retornado 15 minutos depois. Era tarde, mais de onze horas da noite, eu estava sem banho e faminta quando ele me levou para a porta do apartamento e repetiu o ritual. Até o dono da casa, o Lui, fez a mesma cara feia de sempre. Hoje, tenho certeza de que é essa mesmo, com mudanças mínimas nas expressões do rosto.

Dias depois, o rapaz - a mulher consentiu com a cabeça - perguntou se eu queria entrar e descansar. Sejamos honestas: o convite tinha vindo antes, mas a vergonha e a timidez, da minha condição mesmo, me fizeram ignorar suas palavras. Comer e matar a sede eram mais importantes.

Assim passou a ser nossa convivência. Ele ou ela chegavam do trabalho, me convidavam para entrar, eu comia e dormia por cinco, seis horas. Um dia, eles me disseram que parecia um resort para mim, efeito nenhum porque eu desconhecia o significado da palavra. O Lui me olhava, virava as costas e sumia em um dos quartos.

Em janeiro do ano passado, ouvi boatos de que poderiam me envenenar. Estava incomodando alguém ou mais gente. Chegou aos meus ouvidos a história de que eu deixava fezes espalhadas dentro do prédio do casal. No começo, pensei no Lui. Só que ele quase não saía de casa. Portanto, deveria ser outra pessoa.

Passei a aceitar os convites do casal apenas depois das onze da noite, quando o rapaz chegava em casa. Era o meio de entrar sem alarde, mas me recusava a ficar para dormir e voltava para a rua.

Num sábado à tarde, eles ouviram da síndica do prédio (aqui reproduzo o que me relataram depois) que eu poderia ser envenenada. Que eu dava prejuízo na rua. Que eu incomodava com fezes e mau cheiro. Tinha ganho até um apelido: Prejú. Vem da palavra prejuízo. Não era mais Esmeralda, virara meia palavra de sentido negativo.

A história exigia uma decisão enérgica. Para mim ou para o casal. Eu , acostumada com isso, decidi ir embora. Eles não tiveram dúvidas: naquele mesmo dia me convidaram para morar no apartamento deles. Sem possibilidade de não como resposta. 



Aceitei e descobri que o rapaz tinha dois filhos, uma menina e um garoto. O menino me adotou como melhor amiga dele. Eu o vejo de vez em quando e matamos as saudades via Internet, principalmente pelo Skype. Ainda não mexo no computador. O rapaz me chama quando conversa com o filho.

Estou há quase um ano e meio no apartamento deles. Participo da rotina, estou até mais gordinha. Mas não consegui perder o apelido que me deram por causa daquele passado de visitas ocasionais: Magriça.

Nunca mais fui para a rua. O Lui é um efeito colateral, um gato chato que insiste em trocar unhadas comigo quase todo dia. Dizem que parecemos um casal à beira do divórcio: nunca dormimos na mesma cama, comemos em pratos separados e disputamos território palmo a palmo.

Eu, como ex-gata de rua, nunca mais fui chamada de Esmeralda, nome ruinzinho por sinal. Magriça ou não, sei o quanto é importante ter meu próprio espaço. E, claro, o casal que me acolheu crê que são os donos da casa. Até hoje não sei os nomes deles. Que fiquem com as chaves!"

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 21 de maio de 2016. 

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Cancelando o serviço




Marcus Vinicius Batista

Qualquer consumidor já enfrentou a maratona para cancelamento de serviços no Brasil.

Ligações telefônicas que caem por mistério, mensagens gravadas que parecem dispostas a desabafar, números de protocolo mais longos do que o código de barras das contas dos mesmos serviços.

O exercício de paciência, muitas vezes, resulta em queixas, palavrões ou a vontade de brigar no Procon.

Quatro pessoas me ensinaram como cancelar o serviço de Internet, telefonia, plano de saúde e TV a cabo pelo telefone sem aborrecimentos.

A receita traz como ingredientes a mistura de ficção com criatividade.

Do outro lado da linha, o carrasco perde o poder e vira vítima porque sair do script significa que o único jeito de se livrar do consumo é cancelar o serviço. Até porque o atendente sobrevive se evitar outro problema.

A receita traz como ingredientes a mistura de ficção com criatividade.

Do outro lado da linha, o carrasco perde o poder e vira vítima porque sair do script significa que o único jeito de se livrar do consumo é cancelar o serviço. Até porque o atendente sobrevive se evitar outro problema.

Eis as fórmulas: 

Crise Econômica

Aparentemente, essa é a forma mais óbvia.

Mas não se engane. Se você não usar as palavras certas, acabará com um desconto (ou até gratuidade) por dois ou três meses.

Depois, a facada compensatória – para a empresa, claro – virá vestida de boleto bancário ou débito em conta.

“Boa tarde, operadora X, Maria falando.”

“Maria, gostaria de cancelar o serviço de TV a cabo e Internet.”

“A senhora é a titular? Tem também o serviço de telefone.”

“Tem sim. Só quero ficar com o telefone. O resto cancela.”

“Qual é o motivo do cancelamento?”

“A falta de grana. A falta de dinheiro.”

A atendente contra-atacou.

“Mas, senhora, isso não é motivo. Me dê um motivo. Nós podemos dar um desconto de 30%, mantendo a TV grátis por dois meses.”

Minha amiga não estava sem trabalho. Pelo contrário, ela está no mesmo emprego há uma década, com estabilidade.

“Como assim, outro motivo? Estou desempregada. DESEMPREGADA!!! Não tenho dinheiro e não vou ter tão cedo. SEM RENDAAA!!!”

“Ah, sim, entendi. Aguarde um minuto.”

Um minuto depois…

“Olha, senhora, está cancelado. Muito obrigado. Amanhã, o técnico passará aí para retirar os conversores.”

Na manhã seguinte, o técnico apareceu – por milagre – na hora marcada e, com pressa, levou os equipamentos embora.

Mudança de sexo

Minha prima estava doente e internada no hospital. O marido havia tentado cancelar a linha telefônica que estava no nome dela. A operadora alegava a necessidade do titular para o cancelamento e ignorava a doença da esposa dele. Caso contrário, a burocracia entraria em cena.

A solução foi mudar de sexo. Ele telefonou para a operadora.

“Boa tarde, aqui é Maria. Quem fala?”

Ele esganiçou a voz e disse:

“Boa tarde, é Paula falando. Queria cancelar minha linha telefônica.”

A conversa seguiu sem suspeitas, confirmação da titularidade, dados pessoais, tudo com a voz fina … até que a atendente desconfiou após uma escorregada no tom de voz do marido.

“Só para confirmar: é a Paula falando?”

Ele respirou fundo e fechou a arapuca.

“Claro, querida. Me desculpe, mas minha voz tá rouca demais. Eu sou professora, sabe? As crianças me deixam maluca.”

A conversa fiada fez com que a atendente a despachasse. Ali nunca seria canal para desabafos.

“Claro, senhora. Linha cancelada. A empresa agradece.”

Mamãe está cansada

A filha tentava cancelar o plano de saúde da mãe.

O plano era especializado em pacientes com mais de 60 anos. A mãe não o usava, preferia o SUS por teimosia chamada de facilidade, o que resultava num desperdício mensal de R$ 500. A mãe não cancelaria o plano.

A tarefa sobrou para a filha.

“Alô, é do Plano de Saúde Felicidade no Céu? Gostaria de cancelar o plano da minha mãe.”

“Ela é a titular?”

“É…”

“Então, só ela pode cancelar. Tem que ser a titular.”

“E se eu quiser cancelar por ela?”

“Olha, senhora, então a senhora terá que escrever uma carta com o pedido de cancelamento, pegar a assinatura da sua mãe, carimbar em cartório e mandar para a gente. Aí analisaremos o pedido e, então, faremos o cancelamento.”

“Quanto tempo leva?”

“Um mês.”

“Ok, obrigada.”

A filha esperou cinco minutos, telefonou novamente e foi recebida por outra atendente.

“Gostaria de cancelar o plano de saúde.” Ela deu o nome da mãe e ouviu a mesma pergunta.

“A senhora é a titular?”

“Sou sim.”

O cancelamento aconteceu em dois minutos. O plano estaria indisponível em cinco dias úteis.

A doença terminal

Um amigo desejava cancelar o serviço de TV a cabo. Ele e a mulher já tinham tomado canseira em diversos telefonemas. Um deles durou 20 minutos e caiu no abismo da rede. Até que ele resolveu ligar para matar o problema.

“Alô, gostaria de cancelar a assinatura da TV a cabo.”

Depois da confirmação do nome, a pergunta sobre o motivo do cancelamento e veio a resposta:

“Quero cancelar porque vou morrer em 30 dias. Minha doença é incurável. Meus netos me deixam aqui sozinho nessa casa. Passo mal todos os dias. Eles não me ajudam com um tostão, esses sanguessugas. Só comem, dormem e não trabalham. Vou morrer logo, menina, e quero ver como eles farão com a TV a cabo. Esses chupins não têm dinheiro.”

“Calma, senhor, calma.”

“Olha, e digo mais: vocês vão ter prejuízo. Esses dois moleques, desconfio, estão envolvidos com tóxico (fala-se, no idioma dele, tóchico!). Maconha, cocaína ou coisa pior. Eu, aqui doente, com esse soro pendurado pra cima e pra baixo, com a enfermeira que tem que dar banho em mim. Uso fraldas, moça. Uma vergonha. Não presto para mais nada, só para pagar as contas.”

“Calma, senhor, tenha calma. Vou ver aqui.”

Menos de um minuto, a ligação é retomada.

“Senhor, o serviço está cancelado. A empresa agradece.”

“Olha, mocinha, vou morrer em 30 dias. Minha doença não tem cura mais não. Quer saber do que eu sofro…?”

“tutututututututututututu…”

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 12 de maio de 2016. 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

O camarada (Conversas com Beth # 24)


Marcus Vinicius Batista

A cada viagem de ônibus, eu via um homem preocupado, pouco disposto a conversar. Talvez fosse eu. Acredito que nós dois. Ele era meu companheiro quase que diário de viagem até o Hospital Beneficência Portuguesa, onde Beth estava na UTI. Faz quase um ano, 19 dias de internação que recriaram o dia a dia, com faíscas até hoje.

Via, sentado ao meu lado no ônibus da linha 54, um sujeito que tentava se controlar, que se sentia impotente diante daquilo que ninguém poderia expulsar, exceto os médicos que cuidavam dela. Os rins - a vítima da vez - necessitavam de acompanhamento contínuo, situação que ocorre até hoje, com remédios.

Naquele trajeto diário de meia hora, ele seguia quase o tempo todo em silêncio. Eu, como sempre levo um livro, optava por ler para não aborrecê-lo. Alguma leitura leve com risco de esquecimento por causa das dificuldades de me concentrar. Pílula para pensar menos e sofrer.

Ao ler, eu temia que Seu Lauro me interpretasse como mal educado. Jamais poderia ser grosseiro com quem me trata como filho. Parava, eventualmente, de ler e puxava conversa. Nada pesado, algo sobre futebol, as crianças, a obra ao lado do prédio dele.

Às vezes, repetia perguntas de dias anteriores e, com tranquilidade, ouvia as mesmas respostas. Passagem de tempo, nada mais. Nós nos empurrávamos para amenizar a impotência, a incerteza, a melancolia e - reconheçamos - o pavor de ver Beth doente numa UTI.

Seu Lauro, pai dela, é macaco velho nas crises da lúpus. Quinta vez. Crises de vários tipos, com vários tratamentos, com dores em regiões diferentes do corpo da filha caçula. Semanas com Beth de cama em casa. Mas nada como essa, que trazia a UTI como novidade. UTI é risco de morte, não é passeio por seriados médicos, mesmo com Beth lúcida, consciente de tudo que se passava, melhor informada do que nós, os acompanhantes.

Não me lembro quantos dias estivemos juntos nessas viagens de ônibus, no cadastro da portaria do hospital, nos corredores, elevadores, salas de espera, boletins médicos e, finalmente, a visita de uma hora. Na maioria das vezes, eu retornava sozinho porque um dos acompanhantes tinha permissão de ficar mais tempo.

À noite, como a visita era de meia hora, a companhia ficava por conta de amigas nossas ou de Priscila, minha cunhada. Era a matemática para adequar os horários de todos, variando rostos e histórias que alegrassem Beth na detenção hospitalar.

A situação entre eu e Seu Lauro se alterava aos sábados. Eu os visitava, ele e Dona Maria. Na conversa de homem, simbologia curiosa, tomávamos uma cerveja (ou mais). E era a hora de dialogar. Corrigindo... era uma entrevista de uma hora e meia, duas horas, em que eu fazia perguntas-chaves, instante em que ele colocava para fora tudo aquilo que o incomodava, toda a dor de um pai que se sente paralisado por ver a filha muito doente. Pela enésima vez, sempre de um jeito diferente, que impede e congela quaisquer chances de relaxamento. Acredite, você nunca se acostuma quando a dor anda descalça e estica as pernas na sala da sua casa.

O tom da conversa era decidido por ele. O início, o fim e o meio. Um depoimento espontâneo, marcado por expressões que ele utiliza somente nessas horas. Palavras que devem ser lidas como conectivos entre uma etapa e outra do desabafo.

Ele me chamava de Camarada. Nada de fundo comunista, mas um jeito carinhoso que indicava tanto proximidade quanto um cacoete linguístico. Camarada era um dos sinais para que eu ouvisse, aprendesse, entendesse que era um momento essencial. Camarada não sou eu. Camarada é seu interlocutor, quem tem o privilégio de ouvi-lo exposto, com opiniões, qualidades e defeitos. Meu cunhado Márcio é (ou já foi) um camarada também.

O segundo sinal de que a argumentação merecia olhar exclusivo era "Na Moral." Outra conexão entre dois pontos, a gíria que poderia vir acompanhada de camarada. Aí, o pensamento era decisivo. Camarada e Na Moral eram a luz amarela para uma verdade profunda.

Seu Lauro desandava a contar histórias pós-aposentadoria, da juventude, dos tempos da fábrica, da época em que trabalhou no necrotério, dos parentes, dos amigos do Bar Dois Irmãos, das filhas quando crianças. Mas eu sabia que, talvez inconscientemente, ele se preparava e me preparava para chegar ao assunto que nos uniu: a filha mais nova dele.

Eu apenas escutava. Ele me contava da infância, da primeira crise, da força de vontade de Beth para estudar e trabalhar, para se formar como assistente social e depois jornalista. Seu Lauro rodeava - aposto outra vez no inconsciente - para entrar nos detalhes dolorosos das crises e no esforço para dar conta delas, tanto de Beth como dos parentes mais próximos.

Seu Lauro não se dava ao luxo de parar para chorar. As lágrimas escapavam com discrição dos olhos avermelhados enquanto falava, enquanto me chamava de camarada e elogiava a perseverança da filha, apoiado em um número maior de "na moral" nas frases.

Seu Lauro é um homem de sua geração, incapaz de dizer não às filhas. Como muitos homens desta "turma", como meu pai também, ele jamais sai do estado de alerta, conhece o significado da palavra sacrifício e, por vezes, toma para si as rédeas de histórias nas quais não deveria fazê-lo. Apenas tento imaginar um homem assim tomado pela impotência que a lúpus pode provocar.

O mínimo que poderia conceder nessas conversas era escutar. Usar o mínimo de inteligência para assimilar, também como pai. Aqueles sábados à tarde exigiam que eu conhecesse mais ainda Beth pelos olhos e pela narrativa do pai dela. Que eu o conhecesse como alguém que sempre me tratou com respeito e que, sem dizer palavra alguma, me escolheu como cúmplice para compartilhar memórias, ou seja, partes dele mesmo, pedaços que compõem uma história individual e familiar.

Quase um ano depois, fico contente e, agora, me divirto cada vez que ouço a palavra camarada. Da penúltima vez, a pauta foi futebol. Da última, política brasileira.

Na moral, em todas elas Beth renasce como assunto, como prova de amor paterno. Melhor assim do que o silêncio próximo do constrangimento dentro de um ônibus que teimava em nos levar para um lugar, no ano passado, indesejável.


quinta-feira, 12 de maio de 2016

O corpo e a fortaleza (Conversas com Beth # 23)



Marcus Vinicius Batista

Sempre me julguei como um sujeito resistente à dor. Contusões em inúmeras partes do corpo, sequelas nos joelhos que estalam quantas vezes eu quiser, um dedo eternamente deslocado (que preciso colocar no lugar para usar luvas de goleiro e inútil para sacolas de supermercado), um incisão sem anestesia, todas na conta do meu corpo gasto após 41 anos (quase 42).

Quando olho para você e penso em sua capacidade de suportar a dor, sinto-me como uma criança diante de uma anciã sábia. Nesta fase de tratamento contra a lúpus, seus exemplos são diários. E olha que não estou considerando os 19 dias na UTI mais o tempo de recuperação em casa.

É claro que me assusta só de lembrar, por exemplo, o dia em que você parou na Santa Casa de Santos. Naquela tarde de segunda-feira, permanecemos por sete horas à espera de uma internação que se desfez como miragem no solo arenoso. Testemunhei seu braço formigar, acompanhado por uma dor de cabeça que distorcia seu rosto. A pressão a 23 e a possibilidade de derrame me fizeram apelar para o escândalo e obter atendimento imediato.

Também me recordo do dia que você parou na UTI da Beneficência Portuguesa. A pressão também a 23, os pés inchados que não cabiam nas sandálias e a dor de cabeça que te deixava tonta, sem condições de permanecer em pé. Por sorte, mistério da fé ou conjunção dos astros, estávamos ali para uma consulta de rotina com o nefrologista Bruno Graçaplena. A lúpus atacava justamente os rins.

Agora, com o tratamento em curso, você me ensina como dar conta dos efeitos colaterais da medicação. Qualquer abuso de sal, quase sempre involuntário, traz o inchaço imediato e a necessidade de tomar uma pílula de furosemida, diurético de resposta acelerada. Se a medicação equilibra a fortaleza sob ataque, os efeitos podem ser a desidratação em dias de muito calor.

A bomba chamada micofenolato de sódio é um bicho imprevisível dentro de você. Vivemos, com o perdão do clichê, um dia por vez. O micofenolato traz consigo a criatividade e a diversidade dos efeitos colaterais. Você aprendeu a conviver com enjôos, cansaço sem esforço aparente, dores de cabeça, eventuais dores nas juntas, fora o estômago baleado por meses de combate contra diversos medicamentos. Só faltava um remédio para combater as consequências de outros comprimidos.

Não reclamo das decorrências do tratamento. Os incêndios são apagados um a um, mesmo que signifiquem mudanças de hábitos, algumas restrições ou o cancelamento de programas de final de semana. Aprendemos, sem perceber, como funciona bem se divertir dentro de casa.

Aceitamos, sem choradeira, que a praia em dia de sol deixasse de ser varanda e se transformasse em cartão postal. Andamos, com prazer, na beira do mar madrugada adentro.

Não reclamo porque me lembro de que tivemos dias bem piores. Mais do que isso: são obstáculos que devemos pular para alcançar o final do tratamento, o adormecimento do lobo por tempo indeterminado. Falta cerca de um ano. Já dobramos a metade do trajeto.

A redução da cortisona e a conquista definitiva do micofenolato – se o monstro da burocracia não contra-atacar – servem como justificativas para a frase “dos males o menor.” A cortisona poderia provocar um aumento maior de peso ou a chegada da depressão. Como incluir na conta uma doença de difícil diagnóstico como a depressão? Já basta a lúpus, que mostrou as garras cinco vezes em 15 anos.

Você faz o que pode para não parecer alguém que sofre com a dor. Sei quando isso acontece e tento não atrapalhar. O remédio, por vezes, é o silêncio. Não sou também dos melhores acompanhantes, pois – de vez em quando – te seduzo com tentações alimentares. Melhor uma pequena transgressão do que o sofrimento da ausência absoluta. Concordamos, não?

O fato é que, entre os medicamentos que compõem a bandeja a descansar na bancada da nossa cozinha, decidimos que a lúpus não teria como escudeiro a melancolia. Quando te vejo estudar em casa, aguçar a curiosidade com arte, se divertir com os seriados consumidos por nós em overdose ou apenas dar uma volta que termina em sorvete, micofenolato, cortisona e furosemida viram nomes químicos de uma obrigação duas vezes por dia durante os próximos 12 meses.

Ou até que o médico resolva racionar ainda mais a munição do fogo amigo. Fogo vestido de pílula, que invade seu organismo e gosta de se entrincheirar em seu estômago.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Meus fantasmas aparecem depois da meia noite (Crônicas além do quintal # 3)


Marcus Vinicius Batista

Como cheguei em Londres três semanas depois de Bel, tive que me hospedar em outro endereço. Ela e um colega da república estudantil me arranjaram um quarto em casa de família. Isso significava também a distância de um quilômetro e meio entre as casas. Eu, em South Merton. Eles, em Wimbledon.

Para encontrar Bel, tinha três opções de transporte: trem, ônibus ou metrô. Depois da meia noite, sobrava apenas uma viagem de meia hora de ônibus, pontualmente britânico. O problema era a temperatura, que caia a 5ºC com sensação térmica de zero grau. Não dava para ficar parado em ponto.

Na primeira noite, havíamos jantado juntos e colocado a conversa em dia. Conheci os novos colegas da república e me despedi. Decidi ignorar as recomendações de ônibus e fazer a caminhada de volta, à uma hora da manhã. Sabia o roteiro porque havia feito o trajeto uma vez, durante o dia. Memória fotográfica.

Desci a rua da república e entrei numa avenida. Silêncio, sem carros ou pessoas. Avenida desértica. Duas quadras depois, virei à esquerda e tomei uma rua com quatro quadras de extensão, basicamente formada por residências e uma escola de educação infantil.

Nenhuma alma que estivesse viva. Quase todas as casas não tinham portão e estavam apagadas. Uma luz acesa a cada quatro, cinco casas, em média. A maioria eram do hall de entrada.

A decisão estava tomada. Seria besteira voltar para a avenida e esperar o ônibus, congelando no frio, sem luvas ou gorro. A jaqueta dava conta, e a bolsa de couro, modelo carteiro, ajudava a esquentar as costas. Segui a caminhada em passos rápidos, como se fosse exercício, como andar na orla da minha cidade natal.

O final da rua se unia a uma passarela sobre a ferrovia, bem parecida com aquelas que ninguém atravessa nem durante o dia no Brasil. Aquelas estruturas de concreto que magnetizam assaltos, descartadas por pessoas que desafiam a loteria do atropelamento ao pularem a mureta sem proteção. Uma passarela muito parecida com as da Rodovia dos Imigrantes ou da Rodovia Padre Manoel da Nóbrega, no litoral sul de São Paulo. Havia uma diferença, que não refrescava o risco ou amenizava a cautela. Aqui, as muretas são de concreto; lá, grades de metal.

Passei pela passarela quase correndo. Passos acelerados o suficiente para ver que não havia trens no horizonte, que os prédios de três andares e as casas do outro lado estavam todas apagadas. Vivo, ninguém! Uma hora da manhã e a cidade morta, adormecida pela baixa temperatura, pelo inverno que anoitecia Londres às quatro e meia da tarde.

Ao sair da passarela, nova rua com sete quadras de extensão até que pudesse cruzar nova avenida e estar perto da casa que me hospedava. Na segunda ou terceira quadra, ouvi um barulho, como se fossem passos com um tom mais arrastado. Parei, olhei para os lados e para trás. Ninguém! Continuei a andar. Na quadra seguinte, o barulho se repetia. Reduzi o ritmo, olhei em volta. Casas às escuras. Ninguém na rua. Andava há quase 15 minutos e nenhuma pessoa naquela madrugada de terra arrasada.

Cristalizei a certeza de que ainda seguia contaminado pelo medo de andar tarde da noite no Brasil. Medo da violência. Temor por assalto. Inúmeros relatos de amigos e parentes. Enquanto andava, o som aparecia e sumia. Porra, estou ouvindo o que não existe. Neurose latina, febre tropical, só pode ser.

Andei mais duas quadras, estava quase na avenida e ouvi o arrasta-pé outra vez. Resolvi raciocinar e tentar descobrir a origem do ruído. Isolei todos os sons. Não foram mais do que seis passos e o diagnóstico: o barulho que me preocupava era o resultado do atrito da bolsa-carteiro com a minha jaqueta. O som andava comigo, caminhava de braços dados com a minha paranoia urbana. Ri sozinho do turista patético.

Quando virei na segunda avenida, a civilização renasceu. Duas pessoas conversavam enquanto esperavam em um ponto de ônibus. Gente após mais de um quilômetro de passos ritmados e cérebro em polvorosa. Um carro de luxo passou e trouxe outro tipo de voz ao meu trajeto. Duas pessoas que mal me olharam quando passei pelo ponto de ônibus.

Virei à esquerda, passei pelo clube de criquete, por baixo de um viaduto e virei na Springfield Street, onde estava hospedado. Eram mais uns cinco minutos andando, onde encontrei mais duas pessoas do outro lado da calçada e a mesma repetição de casas sem portão e luzes apagadas em quase todas elas. Quatro sujeitos na mesma noite. Viva a vida noturna dos gatos pingados, pensei.

Cheguei na casa do Michael, o senhor que morava sozinho e teria minha companhia por cinco dias. Conversara com ele rapidamente durante a tarde, quando deixei minha mochila e conheci o quarto onde ficaria. Só ali, mais de uma da manhã, é que me lembrei do que havia dito. Estaria em casa por volta das dez da noite. Havia quebrado a regra em mais de três horas, já fascinado pela vida londrina e envolvido pelos novos amigos brasileiros. Nada mais irritante para um britânico quanto o atraso.

A saída era uma só: tocar a campainha e me desculpar. Por algum motivo qualquer, resolvi colocar a mão na maçaneta. A porta estava aberta. Imaginei que, de repente, Mr. Michael esquecera a porta destrancada e estava no andar térreo da casa, vendo TV ou lendo um de seus livros de História e Política.

A casa estava escura e silenciosa. Entrei em todos os cômodos e nada. Subi as escadas e todos os quartos estavam fechados. Fiquei imediata e naturalmente preocupado. Quebrei o protocolo e bati na porta do quarto dele. Mr. Michael me atendeu como alguém que, de fato, é acordado no meio da madrugada. A falta de noção da hora dispensou as minhas desculpas.

"Mr. Michael, sorry, but the door is opened."

"Don´t worry, Marcus, the door is always opened."

Perdi a fala e ele também, dormindo novamente. Respirei um pouco, agradeci e fui para meu quarto. Não era possível que alguém, numa cidade do tamanho de Londres, dormisse em paz com a porta da rua aberta.

Mesmo exausto, levei um tempo para conseguir dormir. A porta do meu quarto permaneceu trancada. Minha carteira e meu passaporte repousaram embaixo do meu travesseiro. Que levassem tudo, mas dinheiro e identificação eram essenciais!

No dia seguinte, Mr. Michael me explicou sua rotina. Deixaria, quando estivesse fora, uma cópia da chave dentro de uma caixa de papelão, ao lado da porta. Isso nunca aconteceu, previsível para um homem de 70 anos.

O que aconteceu é que, na noite seguinte, refiz o mesmo caminho, mais ou menos na mesma hora. Sem promessas de chegar cedo e sem bolsa-carteiro, mas com luvas e gorro; sem os medos brasileiros. Desta vez, encontrei cinco testemunhas na rua.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Um livro para minha mãe



Marcus Vinicius Batista

A menina loira pegou o livro pela grade, sorriu como se recebesse o brinquedo mais desejado do Natal e disparou em direção ao salão de festas. As outras três crianças a seguiram também aos berros. Como uma criança poderia se encantar naquele momento com um livro para adultos? Um livro de contos que falava de temas pesados, como exploração da terra e das pessoas que trabalham nela.

A maior vantagem é que a menina desconhecia o conteúdo. Não pela qualidade, mas por amor a uma causa maior, a literatura. Ou à própria mãe! Ou ela talvez soubesse, na minha divagação idealizada, que a mãe dela precisava ler aquelas histórias naquela fase da vida. O que sei era que o fascínio vinha pelo livro em sim, não a paixão pela capa, mal vista diante da excitação infantil, mas o amor que se constrói há anos pelo objeto-livro.

A menina não olhou para trás, manteve os saltos firmes e gritou:

"Manhêêê!!! Ganhei um presente para você!"

Trinta segundos antes, voltávamos eu e Beth de uma Feira do Livro. Trazia uma caixa de papelão no ombro direito, forma mais fácil de carregar uns dez livros, fruto de trocas, presentes e vendas não realizadas. Passávamos em frente ao Edifício Costa Blanca, ali na esquina do canal 5 com a rua do Sesc. O prédio faz muro, aliás, com o Sesc.

Para mim, é um daqueles prédios estilo Alphaville, que tenta reproduzir de maneira falsa o cotidiano dos condomínios fechados numa cidade plana e litorânea. O edifício, para mim, era o endereço do jogador Arouca, quando ele atuava no Santos, a residência de uma amiga da minha irmã e possuía uma fonte de água que sempre molhava as mãos do meu filho Vinicius.

Quando estava em frente ao salão de festas, afastado da rua por uma grade, quatro crianças pararam de brincar e vieram em minha direção. Colocaram as mãos na grade branca e uma delas, loira, me perguntou:

"Tio, o que tem nessa caixa? Dinheiro?"

"Não, são livros."

A menina morena falou de bate-pronto: "Livros são a riqueza do mundo."

Beth, que caminhava dois metros à frente, parou e sorriu.

A menina loira cortou a amiga, olhou de novo para mim e pediu:

"Tio, me dá um livro?"

"Para com essa mania de incomodar as pessoas", reclamou a menina morena.

"Olha, não posso te dar um livro. São livros para adultos."

A menina loira tinha, como uma criança normal, resposta para tudo.

"Tio, quero dar um livro para minha mãe. Tem o Dia das Mães."

Tirei a caixa do ombro e coloquei em frente à cintura. Olhei para os livros e depois para Beth. Ela apenas sorriu, consentindo a doação. Retirei, da caixa, o livro "Viração", seis contos escritos pelo meu irmão André Rittes. Passei o livro pela grade e o entreguei para menina loira.

Ela tomou o livro nas mãos e começou correr gritando pela mãe. Eu me virei para a Beth e, após um sorriso, disse: "Você já sabe, né?"

Recebi dela a confirmação pelos olhos e retomamos a caminhada para casa. "Crônica, né?"

Ao fundo, os gritos: "Manhêêê! Ganhei um presente para você!"

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 6 de maio de 2016. 

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Os mestres cervejeiros


Marcus Vinicius Batista

No último feriado prolongado, Beth – minha mulher – foi trabalhar na casa de uma amiga, auxiliar na organização de um curso. No final do dia, ela me ligou para que fosse encontrá-la na casa da Mônica e do marido dela, Sérgio. Lá conheci Gustavo, filho deles, e um amigo, Leonardo, médico com fino paladar para cervejas e para a conversa.

Enquanto experimentávamos uma série de cervejas diferentes, que emagreceram o bolso do médico, conversávamos sobre cafés gourmets, exageros entre os apreciadores de vinhos, a preparação obcecada dos sommeliers internacionais e as diferenças entre cervejas. Eu, como bebedor profissional de refrigerantes, apenas degustava as pequenas garrafas, passava para Beth e admirava os rótulos. Sonhava com a carne e o pão de alho, promessa de campanha dos amigos que chegariam mais tarde. A Coca-Cola estava lá, no freezer, se preparando para o consumo duas horas depois.

A conversa boa foi permeada por uma TV que exibia episódios em sequência do seriado Game of Thrones, numa sala que se enchia de convidados com sacolas para o churrasco improvisado. A aula que o médico Leonardo me dava provocou as lembranças de amigos apreciadores, também estudiosos e fabricantes de cervejas artesanais.

As cervejas artesanais tinham sido o presente mais comentado no último Natal. O tesouro foi esculpido e fermentado pelo primeiro mestre cervejeiro desta história, Ricardo Rugai. Fomos amigos na infância e em parte da adolescência. O futebol e a mudança de escola e de cidade nos separaram.

Ricardo tentou a carreira como meia. Chegou a treinar no São Paulo. Eu fui um goleiro mediano que jogou pela Portuguesa Santista e passou pelo Santos. Acabamos universitários. Viramos acadêmicos e professores do ensino superior. Ricardo trilhou uma carreira brilhante, com mestrado e doutorado em História Econômica. Eu sigo jornalista.

Resumir o currículo dele não seria uma forma de lisonjeá-lo. A História, dele e da cerveja, nos aproximou novamente. A bebida nos tornou parceiros profissionais. Rugai soube unir o conhecimento acadêmico com a paixão pela cerveja. Ele é profundo conhecedor da origem e da evolução da bebida em diversas culturas e utilizou este universo como um dos motores para virar um sommelier (título não é exclusividade dos experts em vinhos) e um fabricante em caráter artesanal. 



A Nosotros é nome que estampa os rótulos dos sete tipos de cerveja que ele fabrica. A diversidade e o profundo nível de informação me levaram a ajudá-lo na organização de um curso, em 2015, sobre História e Degustação de Cervejas. Acabei assessor de imprensa dele e aluno por osmose.

Às vésperas do Natal, estava em dúvida sobre os presentes que compraria. Descobri que Rugai havia montado kits com embalagens especiais – criação da irmã dele, Renata, que trabalha como diretora de arte – de quatro variedades de cervejas. Problema resolvido. Três garrafas para meu sogro Lauro; três para meu pai; e uma para meu cunhado Márcio.

Os presentes nasceram para durar pouco. Menos de meia hora. Muita gente experimentando, muitos confirmando o bom gosto da produção do Rugai. No ano anterior, ele me deixou de presente uma garrafa da Nosotros após fazer a gentileza de comprar meu livro. 600 mililitros para quatro pessoas depois de dez dias na geladeira, conforme as orientações do mestre. Menos de um copo para cada um, o prazer em dez segundos e quatro ou cinco goles.

A Nosotros começa a se desenhar como uma brincadeira que deu certo como trabalho. Rugai, que produzia cerveja na casa do amigo Alcides, em São Vicente, teve que se mudar para uma casa na Vila São Jorge, em Santos. Lá chega a produz 300 garrafas por mês, estoque vendido para amigos e admiradores na Baixada Santista e em São Paulo.

Rugai mantém uma rotina de degustações e cursos para diversos públicos dentro e fora da região. A cerveja hoje compete com o ensino de História. De vez em quando, elas se unem quando Rugai estuda ou pesquisa e espera pela conclusão de uma das etapas de fabricação da bebida. Um olho no livro e outro no cronômetro. Precisão pode nos dar a felicidade da cerveja de produção limitada. A imprecisão pode aumentar o peso da lata de lixo.

Ricardo Rugai foi o sujeito o mais próximo possível do Papai Noel, mas o segundo mestre cervejeiro foi quem me apresentou o mundo das artesanais. Edwar Fonseca é também um amigo desde o tempo da adolescência. Sempre gostou de cerveja, refinou o paladar, estudou e se tornou um produtor e professor.

A primeira vez que prestei atenção em lúpulos, fornos, custos e na existência de um planeta além das pilsens foi no apartamento dele, em um aniversário há cerca de seis, sete anos. Fui à cozinha para apanhar uma cerveja quando vi os equipamentos na área de serviço. A curiosidade provocou uma conversa sobre bebidas e o início da exploração deste mercado, mais um hobby mesmo, naquela época embrionário. 



Dois anos depois, Edwar me convidou para acompanhar um encontro estadual de produtores artesanais, numa barraca de praia em frente à avenida Conselheiro Nébias. Ali, cerca de 50 pessoas aprendiam todas as etapas, discutiam detalhes de fermentação, falavam de seus fracassos e êxitos na fabricação e, principalmente, tomavam cervejas diferentes. Tinha gente ali no ramo há mais de 20 anos. Bebedor que virou fornecedor.

Edwar transformou a cerveja em um negócio prazeroso. Frequenta diversos eventos ligados ao setor, forma novos produtores de cerveja artesanal e representa uma marca de alta credibilidade no segmento. Às quintas à noite, recebe os amigos em casa para degustações e conversas que incluem o mundo das cervejas.

Quando penso nisso, me lembro de que dar aulas às quintas à noite ajuda a pagar as contas. Se serve de consolo, retribui o prazer de acompanhar o mundo das cervejas artesanais e, eventualmente, bebê-las dando aulas de escrita para o Edwar. Ele tem talento nato para a crônica – publiquei textos dele sobre as artesanais -, inversamente proporcional às minhas habilidades como bebedor.

O terceiro mosqueteiro é um colega de profissão, sinônimo de versatilidade. Eugênio Martins Júnior é um jornalista especializado na área cultural. Chegou a editar uma revista consistente sobre o assunto antes de se tornar um dos mais importantes produtores musicais da região. Eugênio se especializou em blues, organizou – por exemplo - a Mostra que está em andamento neste mês de abril em Santos, sempre com casa cheia. Um livro sobre o assunto está no forno e pode ser um presente no final do ano, ao lado de uma cerveja tão sofisticada quanto o texto. 



Soube das aventuras de Eugênio pelo mundo das cervejas quando nos encontramos pela primeira vez. Uma reunião no meio da tarde para falar de literatura e – quem sabe? – de um projeto conjunto. Atrasei-me uns cinco minutos para o encontro numas destas padarias chiques e o vi acompanhado de uma cerveja cujo nome, para mim, era impronunciável. Optei pelo suco de laranja. Diante de um mestre, faça o simples, diz a regra que evita gafes.

Eugênio gosta de cerveja forte, coerente com suas opiniões e seu grau de politização e de crítica quanto à nossa profissão em comum. Ele aprendeu – e compartilho da fé dele – de que os jornalistas devem inventar seus empregos em tempos de crise econômica e, antes disso, de desvalorização do ofício.

O jornalista que virou produtor musical virou mestre cervejeiro. Nasceu a Cais, uma cerveja na qual cada tipo recebe a numeração dos canais de Santos, referência cultural, histórica e geográfica para as origens daquela bebida e de seu mentor.

Um dos presenteados com a cerveja Nosotros no último Natal, meu cunhado Márcio conhece dois dos três mestres e, inspirado pela necessidade de superar o muro das pilsens, vestiu o equipamento de mergulho (copo, abridor e garrafas) e submergiu nas águas amareladas. Ainda não é um professor cervejeiro, mas se abraçou aos livros. Comprou três de uma vez para estudar o planeta cerveja. Uma das publicações mapeia marcas e bebidas do mundo todo, quase tão pesadas quanto um daqueles pequenos barris que cabem na geladeira. Cada visita na casa dele é a garantia de uma surpresa que brota na cozinha e enche meu copo.

E sabe o médico Leonardo, que aguçou todas essas lembranças e pessoas que viraram assunto naquele churrasco improvisado? Ele também produz sua cervejinha em casa. Modesto, fala que teve que jogar metade da produção fora. O restante evaporou pela garganta e virou história, não de pescador, mas de gente sentada em volta de garrafas, copos e tampas viradas de barriga pra cima enquanto o pão de alho e a carne não chegam.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 2 de maio de 2016. 

quinta-feira, 5 de maio de 2016

A guerra dos gorros (Crônicas além do quintal # 2)


Marcus Vinicius Batista

A visita ao bairro de Camden Town estava perto do fim. Tínhamos passado a tarde por lá, um bairro de artistas e gente alternativa que se tornara mais conhecido porque fora a última residência da cantora Amy Winehouse.

As casas com esculturas nas fachadas e grafites estilizados davam um ar de arte contemporânea, somado às lojas de discos, histórias em quadrinhos e outros produtos culturais que se misturavam com o comércio de souvenirs para turistas. Era um bairro de Londres onde, nitidamente, as pessoas desrespeitam a lei que proíbe o consumo de bebidas alcoólicas nas ruas. Apenas um saco de supermercado finge encobrir o prazer da garrafa. A desobediência civil integra o pacote de estilo de vida fora do padrão. Uma contradição que flutua entre o atendimento ao turista e estar alheio a ele.

Eu e Bel entramos numa das lojas para ver o preço de uma camiseta estampada com um pote de Nutella. Seria um presente para Mariana, minha filha, e doida pelo creme de avelã. Tati e Rodrigo, amigos que fiz em Londres, ficaram do lado de fora. Fizemos aquela tradicional negociação com o vendedor, que chamou o chefe dele, que empurrou a mercadoria, que não quis saber de nossas dúvidas e que baixou o preço em 40% do valor inicial desde que não abríssemos a camiseta dentro da loja. O voto de confiança e a compra realizada.

Quando saímos da loja, havia cerca de 20 pessoas em torno de três grandes caixas de papelão, encostadas num poste. Rodrigo observava o movimento enquanto sonhava com uma faixa do Chelsea, seu time de coração. O vendedor não havia sido condescendente. Tinha sido, de fato, inflexível: 15 libras, é pegar ou largar e ponto final.

Tati e Bel saíram para o lado direito da loja. Eu fui para o lado oposto, curioso para ver o que atraía tanta gente, por que se debatiam para fuçar o conteúdo das caixas. Uma senhora estava bem perto de nós e fez o alerta em inglês, que tivéssemos cuidado com os pickpockets, batedores de carteiras que apareciam na hora do descarte das mercadorias. Para ela, as bolsas de Tati e Bel corriam riscos.

Chegando mais perto, vi que as pessoas saíam contentes com xícaras de café, canetas, pen drives, camisetas, canecas, uma diversidade de quinquilharias, todas em perfeito estado. Mercadorias descartadas na rua pela loja ao lado. Descobri depois que eram produtos chineses, comprados a preço de banana e que eram jogados fora porque entupiam os estoques das lojas. Era uma prática usual se livrar de produtos que não sensibilizavam mais os turistas. Nada de caridade, apenas reciclagem de mercadorias.

Resolvi dar a volta, sair da calçada e, pela rua, me aproximar do tumulto. Com meu tamanho, poderia chegar perto das caixas. Dane-se! Se era de graça, valia resgatar algum presente de ocasião.

Antes de alcançar uma das caixas, uma senhora esbarrou em mim e desculpou-se enquanto carregava uma xícara e uma camiseta. Encostei atrás de um rapaz de chinelos, pés sujos e roupas de uns três dias. O odor dava o toque final. Parei do lado dele, me agachei e coloquei a mão direita na caixa. O que viesse era loteria, pois os corpos à frente não me deixavam ver o interior dela.

Dali, saiu um gorro vermelho. De graça, seria um presente para alguém, até porque não suporto usar algo na cabeça, seja boné, chapéu, boina, capuz. Fiz o caminho de volta - feliz da vida como criança - por ter conquistado algo naquela pequena batalha de consumo, naquela micro experiência turística.

Ao voltar para a calçada, notei que Tati e Bel conversavam. Rodrigo estava junto com elas, revezando-se entre o testemunho da guerra pelas caixas e o desejo de levar uma lembrança do Chelsea para o Brasil. 15 libras. 15 libras seriam 90 reais. A frustração era digerida pela conversão das moedas.

Percebi que havia escolhido o lado errado da trincheira. Bel estava com seis gorros nas mãos. Tati, com outro. Eu, um único filhote. Soube que o dono da loja ofereceu às duas os gorros. Ele se divertia com a briga para retirar a mercadoria na calçada. Bel havia perguntado diante do braço estendido: "Free?" "Free" foi a resposta dele.

Decidimos nos afastar do tumulto. Conferimos e confirmamos que a camiseta da Mariana estava sem defeitos. Juntamos os gorros numa sacola e seguimos o passeio por Camden Town.

No Brasil, deixamos que Mariana e Vinicius, além dos presentes que ganharam, escolhessem os gorros que quisessem. Mariana adorou um gorro azul, mas - ao ver que estava escrito o nome do grupo One Direction - fez a doação para o irmão caçula.

Bel também ficou com um deles, um gorro branco. Só no Brasil é que ela notou que estava escrito Cocaine. O gorro descansa na gaveta até hoje, desejando que a coragem apareça. E Fernando, meu cunhado, ganhou outro de presente.

As crianças conhecem a história. Meu cunhado? Até hoje não sei se ele sabe a origem do mimo. Só sei que, por uns dias, andou com o gorro para cima e para baixo, sem lavá-lo.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Derrubando o monstro (ou quatro meses em dez minutos!) - Conversas com Beth # 22




Beth Soares e Marcus Vinicius Batista

* Todos os funcionários citados estão sob pseudônimo.

Entrar na Justiça se transformou em ideia concreta no sábado. Encontrei meu tio Albertino na entrada do Teatro do Sesc. A esposa dele, Heloísa, já havia nos sugerido a necessidade de obter uma liminar que garantisse o Micofenolato de sódio, remédio de alto custo (R$ 2 mil), para Beth.

Meu primo, Luiz Fernando, havia obtido uma liminar contra a Prefeitura de Itanhaém, que assegurava mensalmente o remédio dele contra a diabetes. A Prefeitura recorreu duas vezes e perdeu. Nando segue o tratamento.

Decidimos que a hipótese era desgastante, porém viável. Enquanto isso, faríamos uma nova visita ao Ambulatório Médico de Especialidades (AME), anexo ao INSS, para enfrentar o monstro da burocracia. O pedido do remédio foi feito em dezembro e a aprovação, em 8 de janeiro. Quatro meses vendo o monstro ruminar nossa paciência.

A visita (já perdemos a conta do número de visitas anteriores) aconteceu na última terça-feira. A informação mais recente que havíamos recebido foi de que deveríamos comparecer após 13 horas. Chegamos lá, olhamos a fila e Beth resolveu perguntar para uma das funcionárias. A resposta foi: "mas o atendimento, no seu caso, é feito por uma pessoa que só está de manhã".

O monstro, deveríamos ter percebido, é esperto. Nunca nos encara, nunca se expõe, sempre manda recado. Na quarta-feira pela manhã, com receio de perder mais uma viagem, Beth foi para o telefone. A funcionária que "só estava pela manhã", confirmou que não precisaríamos comparecer pessoalmente. Afinal, nada havia mudado: "Ainda nenhuma novidade. Você precisa aguardar mais um pouco".

Decidimos que era a hora de brigar na Justiça. Ao mesmo tempo tentaríamos, dentro do próprio sistema, alguma alternativa para conseguir o remédio ou, pelo menos, descobrir até quando o monstro permaneceria adormecido.

Beth procurou uma amiga assistente social que trabalha na área da saúde. Ela explicou a situação e foi aconselhada a procurar a Ouvidoria do AME. Na prática, fazer uma queixa formal. Em paralelo, eu entrei em contato com nosso advogado. Usaríamos o exemplo do meu primo como base para a ação judicial.

No começo da tarde, nós nos separamos. Enquanto eu seguia para o trabalho e aguardava retorno do nosso advogado, Beth foi à Ouvidoria. Ao chegar lá, nova brincadeira do monstro. Um bilhete na porta indicava que a única funcionária não estaria no posto nos dias 4, 5 e 6 de maio. Logo, não voltaria mais essa semana. A queixa ficaria para semana que vem.

Beth procurou uma das funcionárias do setor administrativo da unidade. As duas foram a um dos escritórios da direção do AME. Laura Alves* foi quem as atendeu, e Beth explicou o caso. Laura chegou a dizer que, de fato, é preciso esperar o dinheiro do Governo Federal para comprar as medicações, mas não conseguia entender por que tanta morosidade para fornecer um medicamento que, no caso do tratamento de Beth, é crucial para mantê-la viva.

O Micofenolato de sódio é usado também no tratamento de pessoas que fizeram transplante renal. Para eles, a autorização da entrega é automática, sem processo interno. Isso significa que o medicamento existe em estoque na unidade. Bastaria fornecer à Beth as caixas de Micofenolato do estoque e repô-las, assim que a compra se concretizasse.

Laura e outra colega, Carolina*, contataram a responsável pelo departamento que entrega a medicação. Descobriram que o monstro funciona pela inércia. O processo dormia em berço esplêndido, ou seja, na mesa da responsável, há quatro meses. Se o trabalho tivesse sido feito com um pouco mais de bom senso e empatia, nós teríamos poupado quatro viagens a São Paulo, cujas despesas somaram, entre gasolina, pedágio e alimentação, quase R$ 1 mil. Fora que o medicamento obtido lá, pela simpatia e generosidade do Hospital do Rim, estaria nas mãos de outro paciente.

A burocrata em questão fez aquela cara de constrangimento e iniciou o festival de redundância.

"Beth, sua documentação está em ordem, né?"

"Está sim!"

"Eles (aqui uma nota nossa: eles são uma entidade espiritual, genérica e sem nome) pelo que vejo aqui, autorizaram a compra".

"Sim, pelo que me informaram a autorização saiu em 8 de janeiro, há quatro meses."

Beth e a funcionária foram parar na farmácia do posto. A caixa de Micofenolato de sódio, com 120 comprimidos, estava disponível. Como Beth toma quatro comprimidos ao dia, dá exato para um mês.

O monstro treina bem seus súditos. As perguntas são repetidas de maneiras diferentes, como num interrogatório que procura contradições no acusado, que perde a presunção da inocência. Neste caso, a mesma funcionária perguntou:

"Você tem a receita?"

"Claro! Sem ela, o processo não seria aprovado por vocês há quatro meses."

"É... só precisava da receita."

Após retirar a caixa da medicação, Beth ouviu:

"Até dia 3 de junho. Mas traga uma nova receita. Ela só é válida por três meses e, como a que temos aqui é de dezembro, o prazo dela já expirou". Era a voz querendo ter razão, talvez o desfecho de quatro meses em um capítulo de dez minutos.

Depois, Laura explicou que o processo é desumanizador. Neste sentido, um remédio como dipirona - que custa menos de R$ 1 - enfrenta o mesmo caminho rumo à toca do monstro. A diferença, claro, é que o paciente se cansa de esperar e compra na farmácia.

Ao voltar do trabalho, vi a caixa na bancada da cozinha, em companhia do furosemida e do final do estoque anterior de Micofenolato, que estava em racionamento. Peguei o celular e expliquei ao nosso advogado que, por enquanto, o Poder Judiciário não terá mais uma pilha de papéis que representam a história de quem precisa brigar pelo que é de direito.