sexta-feira, 8 de abril de 2016

As lágrimas e a testemunha (Conversas com Beth # 20)


Marcus Vinicius Batista

O fenômeno acontece a cada 25 anos, quase preciso como um relógio, único como admirar um cometa. Na primeira vez, as lágrimas vieram molhadas de dor e desespero. Um amigo de infância perdia o amor, deixava para trás planos e sonhos com alguém que optara por viver um dos processos da juventude, da imaturidade. É o caso de não contar mais, de perceber que se basta por ser a primeira experiência.

A segunda vez foi com você. Pude testemunhar, como motorista e confidente, novamente as lágrimas de uma fronteira que se traçava na descida de Serra do Mar. Ao volante, acompanhei, a cada túnel, uma fase que falecia e outra que brotava em água salgada, silêncio e soluços.

Duas horas antes, visitamos o Hospital do Rim pela segunda vez. Você havia passado por cinco sessões de quimioterapia, cada uma com história bem particular. Dias de quase normalidade. Dias em que paredes e teto do nosso quarto eram a única visão do dia que sobrevivia rastejava sonolento, nauseante, exausto pelas explosões de uma bomba invasora de corpo. Seu corpo!

Confiamos nela assim como em seu médico em Santos. Seu médico confiava nela, especialista na relação bélica entre lúpus e rins. Sentimos segurança em ouvir um discurso franco, sem promessas da doutora Gianna, mulher de vaidades em princípio pouco aparentes e de sobrenome impronunciável.

O consultório ao fundo do corredor nos obrigava a atravessar de forma instantânea as vidas de parentes e de pacientes transplantados. A lúpus é um doença tão incomum e incompreendida que você já se acostumou a conviver com pessoas de enfermidades tão distintas em diagnósticos quanto próximas em sofrimento.

A segunda visita deixara para trás apresentações, perguntas elementares, preliminares entre médica e paciente. Era o momento de verificar números, esmiuçar exames, planejar os próximos passos do seu tratamento. Ainda faltava, naquele dezembro sufocante de um ano esquecível, a sexta e última sessão de quimioterapia. Mais uma dia inteiro no Hospital Beneficência Portuguesa, em Santos. Três aplicações, horas de espera, reações imprevisíveis. Como seria o Natal? Qual presente cairia da árvore em nossas cabeças e em seu organismo?

A médica não sorria de graça, mas também não criava suspense ou se supervalorizava no drama da doença alheia. Pragmática, cartesiana, sem ilusões. Números e gráficos viravam anotações nas páginas amarelas do prontuário. Perguntas cirúrgicas para respostas curtas. Histórico em tratamento longo é sinal de redução de danos, de escolhas por atalhos menos pedregosos, talvez.

Doutora Gianna não teve receio de te acertar na ponta do queixo. "Vamos suspender a quimioterapia e começar a nova fase do tratamento". Agora, você entraria na nova fase, que envolvia outro tipo de expectativa. As injeções sairiam de cena, a luz seria desviada para comprimidos de cheiro ruim tão grandes quanto os meus de diabetes, estes sem odor e versão light na escala da saúde. Quatro cápsulas por dia no auge, se não houvessem efeitos colaterais. Uma caixa por mês, ao custo de R$ 2 mil.

Aprendemos com o tratamento contra a lúpus que vitórias devem ser celebradas. Um gol vale título de campeonato para quem joga sempre na casa do adversário, às vezes com muitos jogadores a menos. Isso significa que, em caso de vitória acompanhada de problemas, que os problemas fiquem para o dia seguinte, para a semana seguinte, para o limite da solução.

Não conseguimos celebrar no Hospital do Rim. Entendemos pelo olhar que precisávamos pensar no remédio. Como comprar? Como assumir este peso financeiro todos os meses diante de um ano em que contamos moedas a maior parte do tempo?

A médica das respostas práticas percebeu a fumaça de preocupação e nos assoprou a resposta. "Conversem com minha secretária, talvez ela tenha comprimidos que chegam como doações." A despedida foi desajeitada e apressada. Andamos até a entrada do hospital para acabar com qualquer mistério, como se houvesse uma fila imensa pelo micofenolato naquele minuto. Uma sensação que se tornaria real, mas para se contada em outra ocasião.

Em cinco minutos, o cadastro estava feito e medicamentos suficientes para um mês estavam em nossas mãos. Crianças famintas com doces entre os dedos. Pílulas da felicidade imediata que seriam completadas pelo médico daqui, o doutor Bruno, que obteve mais uma caixa. Dois meses de tratamento, sem pensar em como levantar dinheiro.

No carro, tentamos fazer contas, cogitamos alguma estratégia para obter comprimidos pelos próximos meses, pensamos que seríamos precipitados, esquecemos e lembramos de que deveríamos festejar a morte da Dona Quimioterapia, especulamos sobre as consequências do novo tratamento e o impacto sobre os demais remédios de sempre.

Acabamos num silêncio que veio pela janela semi-aberta, somente na estrada. Quando olhei para você, testemunhei pela segunda vez o fenômeno das lágrimas, desta vez o choro intercalado com o sorriso, as palavras que vieram a conta-gotas, quase sussurros. Tentava manter a concentração ao volante e acabei na armadilha do óbvio: "por que está chorando?"

Ouvi algo como felicidade, alegria, não me lembro das palavras exatas. Lembro que me calei e alternei o olhar entre a estrada e você. Para seus olhos. Sorríamos um para o outro. A serra trazia o horizonte que nos empurrava para nossa terra de origem. Ali, eu lia outro lugar.

O final da quimioterapia foi a divisão de território. O êxodo de uma terra insípida e cinzenta como a cor do conteúdo que atravessava as seringas grudadas em seus braços. Um terra seca como os corredores que acumulam gente cheia de dor, cansaço nos olhos e espera pela cura em etapas mensais. Uma terra de pouca extração de vida, impessoal como a cadeira marrom que te sustentava, encostada na parede verde de uma sala sem decoração.

Ocupamos um novo espaço. Largamos um dos piores anos de nossas vidas e começamos outras andanças. Os comprimidos vieram para deixar o tratamento com pose de normalidade, consumidos em frente à TV, entre uma cena e outra de nosso seriado favorito da semana.

Levei quatro meses para digerir aquela tarde na Rodovia dos Imigrantes. Um dia que apunhalou minha memória. As cenas vivem aqui comigo, mas a data exata desapareceu. Talvez como recado que combater a lúpus significa se ater a certos detalhes, ao mesmo tempo em que se descarta as irrelevâncias que aprendemos a enxergar a cada comprimido rompido na cartela e enamorado pelo copo d'água que carrego para você, no sofá da sala todas as noites.

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