quinta-feira, 28 de abril de 2016

Negociando com o indiano (Crônicas além do quintal # 1)



Marcus Vinicius Batista

As passadas lentas viraram inércia diante da loja de casacos. Eu e Bel paramos para ver os casacos de couro, estilo motociclista. Em Londres, a manhã era ensolarada, mas sabíamos que anoitecia por volta das 16 horas, e a temperatura caia a menos de cinco graus em certas noites. Já tinha um casaco e poderia usar o clima como desculpa; como souvenir.

O passeio por Notting Hill se justificava porque conheceria a livraria onde Julia Roberts e Hugh Grant gravaram o filme “Um lugar chamado Notting Hill”. A livraria se transformou em loja de lembrancinhas e outras quinquilharias, um rascunho do cenário cinematográfico. O bairro de origem negra recebeu artistas a partir dos anos 70 até virar um endereço de novos ricos, repleto de comércio para turistas e lojas de grifes.

Apontei para um casaco com dois emblemas de motos. Desconfiei porque vi outros modelos iguais. Pensei: “deve ser de origem chinesa, produção em série a la 25 de março.” O vacilo entre olhar as roupas e pensar sobre elas permitiu que o dono da loja se aproximasse. Não havia como evitar o contato visual, regra de ouro para escapar da abordagem.

O dono da loja era um sujeito na casa dos 70 anos, calvo, com uma barba branca e traços faciais típicos de um indiano. Vestia-se como um lorde de terno, gravata e meio fraque. Os sapatos brilhavam à luz do sol. A conversa começou em inglês e os braços dele sinalizavam para que entrássemos como presas na toca. O truque de dialogar em português não funcionou diante da insistência.

Dentro da loja, ele me mediu de cima a baixo e pediu para um funcionário trazer o casaco. Ouvindo nossa conversa, perguntou: “Venezuelanos?” Disse que éramos brasileiros e ouvi na sequência: “Obrigado, de nada.”

Enquanto o funcionário tirava o casaco de um saco plástico, o indiano já retirava minha jaqueta. Colocou o casaco nas minhas costas, puxou meu braço e olhou para mim. Bel apenas sorria. A conversa seguia em inglês. Eu expliquei que a roupa ficou apertada e ele pediu um número maior, que serviu bem. Aí começou a negociação.

O indiano olhou de cima a baixo e foi firme: “200.” Na hora, quebrei outra regra, que pode ser resumida na frase “quem converte não se diverte.” Inevitável pensar que, com a libra a R$ 6, o casaco custaria R$ 1200. Resolvi usar a desculpa básica, geralmente eficaz no Brasil. “Vamos dar uma volta e passamos aqui mais tarde.”

O indiano chamou o funcionário outra vez, que trouxe a calculadora. Ele digitou 90 libras e apontou para mim. Bel apenas sorria, enquanto eu pensava como era abusivo o preço original. De 200 para 90 libras. Reforcei a desculpa do passeio e fiz o movimento de sair da loja.

O homem de terno segurou meu braço esquerdo e digitou na calculadora: 80 libras. Olhei para Bel e ela sorriu novamente. Comecei a pensar na hipótese da compra, mas o casaco ainda estava caro. Balancei a cabeça negativamente, falei que voltaríamos mais tarde e vi o indiano mexer na calculadora. 70 libras.

Olhei para Bel e falei em português: “se cair para 50 libras, eu levo.” Virei-me para o indiano, que parecia impaciente e insistia na venda, desta vez tentando fazer com que eu segurasse o casaco. Repeti o mantra da voltinha e ele, a dança de empurrar a roupa.

Pressionado, observei que Bel tentava sair de fininho. Mudei a tática e falei: “I will think about it!” O indiano se enfureceu, deu o casaco nas mãos do funcionário e me disse: “se soubesse que você iria pensar, não tinha te oferecido o casaco.”

Antes que ele se aproximasse outra vez, percebi o espaço livre e sai da loja. Ao notar que não haveria venda, o indiano mudou de feição. A cara fechada voltou a ser sorriso, e ele insistiu, em tom mais baixo, que o casaco poderia ser meu por 70 libras.

Lá fora, falei para Bel: “Quase, por 50 eu levava”. Passeamos pelo bairro e a lembrança foi um caderno para anotações. Ganhei dela também uma carteira de couro, presente que incluiu a gravação das iniciais do meu nome.

À tarde, em Camden Town, hoje o bairro dos artistas, entramos numa loja. Dezenas de casacos de couro, idênticos aos da loja do indiano, estavam pendurados à direita. Não aguentei a curiosidade e perguntei ao vendedor.

“Quanto?”

“70 libras.”

“Qualquer um?”

“Qualquer um!”

Minha jaqueta, definitivamente, vai aguentar o tranco de outras viagens.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O homem duplicado


Marcus Vinicius Batista

Adoro observar pessoas. Além de perceber algumas manias de desconhecidos, as observações me divertem quando vejo alguém parecido com uma pessoa famosa. Ela perde o nome e jamais saberia que foi batizada como seu clone-celebridade.

Este exercício começou nos anos 90 com um amigo, o Alessandro Padin. Estudávamos em São Paulo e combatíamos o tédio de algumas aulas com comparações entre colegas e professores e seus respectivos gêmeos (ou algo próximo) de renome. Hoje, esta maledicência interna arranca risadas da minha esposa, principalmente quando assistimos à filmes e seriados de TV. A fofoca no conforto do sofá da sala. De vez em quando, a perversidade ressuscita na rua.

Comecei a pagar meus pecados ao entrar no ônibus da linha 77, em Santos. Acabara de sair de um trabalho e iria para outro. Subi as escadas do veículo, paguei o motorista e congelei na catraca. Foram dois segundos, desfeitos antes que o passageiro atrás de mim se irritasse. Vi o sujeito sentado no fundo do ônibus, na penúltima fileira de bancos. Vi a mim mesmo sem acompanhante, no banco do corredor.

Passei a catraca, dei meia dúzia de passos e me postei perto da porta, numa posição que me permitia olhar para o fundo do ônibus sem parecer acintoso, pervertido ou com olhar específico para alguém. Ele estava ali, um irmão gêmeo uns cinco anos mais novo (novas fronteiras da ciência, talvez), um ser humano Dolly, clonado clandestinamente a partir de exames de sangue que fiz o ano passado, é provável.

O cabelo tinha o mesmo corte, a expressão de calmaria (lentidão, dizem os detratores) e os traços faciais eram bem semelhantes. Até a barba por fazer dava a impressão de estar no mesmo comprimento. Olhava para mim mesmo e pensava no que poderia dizer se eu me cumprimentasse, se eu dissesse com licença para descer do ônibus antes que eu mesmo descesse.

Alguns pontos depois, o homem duplicado se levantou. Vestia-se do mesmo jeito, só que em cores diferentes. Não tenho camiseta rosa. Aliás, eu contrastava com uma camiseta preta, de estampa discreta, nada roqueira. Como eu, meu espelho mais conservado vestia calça jeans e tênis. Usava óculos, embora tenha conseguido notar que as lentes eram mais grossas. Uma anomalia genética, deduzi, lembrando dos genes recessivos das aulas de biologia do cursinho. Assim, descartei a hipótese de estar morto ou vendo espíritos. Do lado de lá, miopias de todas as ordens perdem sentido.

O relógio de pulso, também no braço esquerdo, se assemelhava nos ponteiros, sem vida digital. Até que notei que a tatuagem em meu braço esquerdo informava qual corpo eu habitava.

Meu irmão de transporte coletivo estacionou do meu lado. Tinha a mesma altura. Verifiquei se eu ou ele não estávamos envergados por causa do teto baixo do ônibus. Nada. É quase certeza que tínhamos os mesmos centímetros. A diferença estava na largura. Nas laterais, ele teria que se duplicar para ser a mim mesmo.

Viajamos juntos por uns cinco minutos sem trocar palavra. Eu, embasbacado de considerar a teoria de viagem no tempo ao preço de R$ 3,25 a passagem. Ele, alheio a minha presença. É duro quando o sujeito não conhece a si próprio. Quase disse a ele: “Eu sou você amanhã!”, parafraseando o slogan de uma marca de vodka. Será que minha imagem e semelhança bebia?

Dei dois passos à frente para descer no ponto seguinte. A cópia não se mexeu. Pensei: “Só faltava descer no mesmo lugar.” Nós quebraríamos – sei lá quantas – leis de espaço-tempo. Falando em legislação, Murphy se apresentou quando o ônibus brecou. Meu retrato de Dorian Gray às avessas deu dois passos. Eu desci dois degraus e o sujeito me seguiu.

Na calçada, virei à esquerda e ele à direita. Nunca mais veria o homem duplicado? Dissipei qualquer semelhança quando me lembrei de suas últimas palavras. Antes de eu descer, o motorista me desejou boa tarde. Eu respondi: “Obrigado!”, enquanto meu clone sussurrou: “Deus te abençoe!”

Definitivamente, ele não era sequer um rascunho de mim.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos em 12 de abril de 2016. 


sexta-feira, 15 de abril de 2016

Os peregrinos buscam exceções (Conversas com Beth # 21)


Marcus Vinicius Batista

A novela se repete todos os meses. Em março, foram dois capítulos. Quando você estava internada, em junho do ano passado, os médicos haviam informado sobre todos os pontos de parada desta estrada de nome tratamento. Um ano e meio de viagem.

A quimioterapia duraria seis meses, mas tivemos em dezembro a melhor das notícias. A quinta sessão seria a última, a sexta estava cancelada pela reação positiva de seu organismo, e adiantaríamos a segunda fase do teu tratamento contra a lúpus, o quinto round em 15 anos.

A nova etapa implicaria no consumo diário de quatro comprimidos de micofenolato de sódio, que cheiram à borracha velha e reduzem ao mínimo sua imunidade, visando silenciar o lobo. Duas gripes em dois meses - uma com duração de dez dias e uma ida ao hospital e outra em andamento - são a prova de que a medicação combate o lobo com voracidade. E cobra seu preço.

O preço, aliás, representa o motivo da descrição desta saga. Cada caixa de micofenolato dura um mês. E custa R$ 2 mil. Sou testemunha do quanto você penou na Internet em pesquisas para conseguir o medicamento por caminhos mais baratos. A esperança nasceu com a queda para R$ 900, via importação dos Estados Unidos. Descobrimos, depois, que a importação era legalmente impossível para você.

Com a importação descartada, tentamos compra em sites de laboratórios que operam no Brasil. Nenhum deles tinha o remédio à venda. Procuramos cadastro para doação em um dos laboratórios e soubemos que só entidades assistenciais, depois de um volume de papelada, teriam direito ao medicamento.

Você saiu do mundo virtual e caminhamos juntos pela via da burocracia brasileira. Às vezes, confesso que fico contente quando você se esquece do SUS, que aprovou seu pedido em dois meses para informar, por meio de uma funcionária, que o processo de compra do medicamento leva vários meses. Estamos no quarto mês de gestação de expectativa.

A corrida se estendeu ao seu plano de saúde. Mais papelada, filas e espera. Recebemos o "não" do médico perito que não pediu documentos que provavam o tratamento. Apenas disse não sem ser especialista. E levou um mês para isso. Ele deve ter ficado com a consciência tranquila ao economizar dinheiro para os cofres públicos municipais.

Admiro sua perseverança e me sinto um aprendiz em te acompanhar. Os primeiros 15 dias de remédio foram resolvidos com uma doação do Hospital do Rim, em São Paulo. O mês de janeiro passou com uma caixa doada pelo médico Bruno Vieira, da Beneficência Portuguesa, em Santos.

Você passou fevereiro em racionamento porque tivemos que respeitar o recuo de uma ex-paciente, residente em Itanhaém. Ela prometeu nos doar uma caixa e, após dezenas de telefonemas não atendidos, disse que não poderia mais fazê-lo.

Você suportou a primeira quinzena de março com outra doação do Hospital do Rim e, em meados do mesmo mês, conseguimos no mesmo endereço comprimidos suficientes para a dose necessária de todos os dias. Mas sinto medo ao me lembrar que o estoque acaba em 28 de abril. Será a quarta viagem à São Paulo, com o tiro no escuro sobre o número de pílulas.

Faltam oito meses para o término do tratamento contra a lúpus, nesta atual crise. Comemoramos a redução pela metade da dose diária de prednisona, o temido corticóide. Ainda tem o ramipril, para os rins. E, eventualmente, a furosemida - diurético para reduzir o inchaço das pernas - e remédio para o estômago, abalado por todos os ítens do cardápio acima. Se são três medicamentos diferentes, não me esqueço que - em dezembro - eram o dobro.

Parte da peregrinação seria evitada se o próprio sistema de saúde - e muitos de seus profissionais e burocratas - soubessem lidar com a lúpus. No caso do SUS, a burocracia seria bem menor se você tivesse feito um transplante de rim. "Para transplante, o medicamento é fácil. Mas lúpus...", explicou certa vez uma funcionária.

Esta semana, quando a gripe te atacou novamente, fui à farmácia comprar remédio para dor de garganta. Expliquei à atendente que não precisava de uma pastilha qualquer. Precisava de uma pastilha mais forte porque sua imunidade estava baixa.

A farmacêutica ouviu a conversa e se aproximou. Repeti meu argumento e falei em lúpus. Ela me perguntou:

— Ela toma corticóide?

— Toma.

— Qual dosagem?

— 10 miligramas.

— Olha, eu recomendo esta pastilha que é também anti-inflamatório. O medicamento vai agir de forma localizada, apenas na garganta. Sem risco de efeito colateral.

No balcão, estavam duas caixas do medicamento, uma com quatro pastilhas e outra com 16. A farmacêutica olhou para elas e me disse:

— Não leve a de 16 pastilhas. Leve a caixa com quatro. Ela deve tomar a cada seis horas. É por um dia. Se houver pus ou a dor piorar, aí ela deve procurar um médico e tomar antibiótico. Não se preocupe com o corticóide, repito. A inflamação é localizada.

Sai impressionado com o preparo técnico da farmacêutica e de ter me oferecido o remédio mais barato. A caixa de pastilhas durou um dia. A gripe permaneceu, enquanto a dor de garganta foi embora, também com o auxílio da aplicação de moxa, tratamento alternativo de quentura em pontos do corpo. Sugestão de uma amiga terapeuta.

Nesses cinco meses de peregrinação, apenas lamento que somos dependentes das exceções. O problema é que nada vem escrito na testa ou no crachá daqueles que nos atendem.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

As lágrimas e a testemunha (Conversas com Beth # 20)


Marcus Vinicius Batista

O fenômeno acontece a cada 25 anos, quase preciso como um relógio, único como admirar um cometa. Na primeira vez, as lágrimas vieram molhadas de dor e desespero. Um amigo de infância perdia o amor, deixava para trás planos e sonhos com alguém que optara por viver um dos processos da juventude, da imaturidade. É o caso de não contar mais, de perceber que se basta por ser a primeira experiência.

A segunda vez foi com você. Pude testemunhar, como motorista e confidente, novamente as lágrimas de uma fronteira que se traçava na descida de Serra do Mar. Ao volante, acompanhei, a cada túnel, uma fase que falecia e outra que brotava em água salgada, silêncio e soluços.

Duas horas antes, visitamos o Hospital do Rim pela segunda vez. Você havia passado por cinco sessões de quimioterapia, cada uma com história bem particular. Dias de quase normalidade. Dias em que paredes e teto do nosso quarto eram a única visão do dia que sobrevivia rastejava sonolento, nauseante, exausto pelas explosões de uma bomba invasora de corpo. Seu corpo!

Confiamos nela assim como em seu médico em Santos. Seu médico confiava nela, especialista na relação bélica entre lúpus e rins. Sentimos segurança em ouvir um discurso franco, sem promessas da doutora Gianna, mulher de vaidades em princípio pouco aparentes e de sobrenome impronunciável.

O consultório ao fundo do corredor nos obrigava a atravessar de forma instantânea as vidas de parentes e de pacientes transplantados. A lúpus é um doença tão incomum e incompreendida que você já se acostumou a conviver com pessoas de enfermidades tão distintas em diagnósticos quanto próximas em sofrimento.

A segunda visita deixara para trás apresentações, perguntas elementares, preliminares entre médica e paciente. Era o momento de verificar números, esmiuçar exames, planejar os próximos passos do seu tratamento. Ainda faltava, naquele dezembro sufocante de um ano esquecível, a sexta e última sessão de quimioterapia. Mais uma dia inteiro no Hospital Beneficência Portuguesa, em Santos. Três aplicações, horas de espera, reações imprevisíveis. Como seria o Natal? Qual presente cairia da árvore em nossas cabeças e em seu organismo?

A médica não sorria de graça, mas também não criava suspense ou se supervalorizava no drama da doença alheia. Pragmática, cartesiana, sem ilusões. Números e gráficos viravam anotações nas páginas amarelas do prontuário. Perguntas cirúrgicas para respostas curtas. Histórico em tratamento longo é sinal de redução de danos, de escolhas por atalhos menos pedregosos, talvez.

Doutora Gianna não teve receio de te acertar na ponta do queixo. "Vamos suspender a quimioterapia e começar a nova fase do tratamento". Agora, você entraria na nova fase, que envolvia outro tipo de expectativa. As injeções sairiam de cena, a luz seria desviada para comprimidos de cheiro ruim tão grandes quanto os meus de diabetes, estes sem odor e versão light na escala da saúde. Quatro cápsulas por dia no auge, se não houvessem efeitos colaterais. Uma caixa por mês, ao custo de R$ 2 mil.

Aprendemos com o tratamento contra a lúpus que vitórias devem ser celebradas. Um gol vale título de campeonato para quem joga sempre na casa do adversário, às vezes com muitos jogadores a menos. Isso significa que, em caso de vitória acompanhada de problemas, que os problemas fiquem para o dia seguinte, para a semana seguinte, para o limite da solução.

Não conseguimos celebrar no Hospital do Rim. Entendemos pelo olhar que precisávamos pensar no remédio. Como comprar? Como assumir este peso financeiro todos os meses diante de um ano em que contamos moedas a maior parte do tempo?

A médica das respostas práticas percebeu a fumaça de preocupação e nos assoprou a resposta. "Conversem com minha secretária, talvez ela tenha comprimidos que chegam como doações." A despedida foi desajeitada e apressada. Andamos até a entrada do hospital para acabar com qualquer mistério, como se houvesse uma fila imensa pelo micofenolato naquele minuto. Uma sensação que se tornaria real, mas para se contada em outra ocasião.

Em cinco minutos, o cadastro estava feito e medicamentos suficientes para um mês estavam em nossas mãos. Crianças famintas com doces entre os dedos. Pílulas da felicidade imediata que seriam completadas pelo médico daqui, o doutor Bruno, que obteve mais uma caixa. Dois meses de tratamento, sem pensar em como levantar dinheiro.

No carro, tentamos fazer contas, cogitamos alguma estratégia para obter comprimidos pelos próximos meses, pensamos que seríamos precipitados, esquecemos e lembramos de que deveríamos festejar a morte da Dona Quimioterapia, especulamos sobre as consequências do novo tratamento e o impacto sobre os demais remédios de sempre.

Acabamos num silêncio que veio pela janela semi-aberta, somente na estrada. Quando olhei para você, testemunhei pela segunda vez o fenômeno das lágrimas, desta vez o choro intercalado com o sorriso, as palavras que vieram a conta-gotas, quase sussurros. Tentava manter a concentração ao volante e acabei na armadilha do óbvio: "por que está chorando?"

Ouvi algo como felicidade, alegria, não me lembro das palavras exatas. Lembro que me calei e alternei o olhar entre a estrada e você. Para seus olhos. Sorríamos um para o outro. A serra trazia o horizonte que nos empurrava para nossa terra de origem. Ali, eu lia outro lugar.

O final da quimioterapia foi a divisão de território. O êxodo de uma terra insípida e cinzenta como a cor do conteúdo que atravessava as seringas grudadas em seus braços. Um terra seca como os corredores que acumulam gente cheia de dor, cansaço nos olhos e espera pela cura em etapas mensais. Uma terra de pouca extração de vida, impessoal como a cadeira marrom que te sustentava, encostada na parede verde de uma sala sem decoração.

Ocupamos um novo espaço. Largamos um dos piores anos de nossas vidas e começamos outras andanças. Os comprimidos vieram para deixar o tratamento com pose de normalidade, consumidos em frente à TV, entre uma cena e outra de nosso seriado favorito da semana.

Levei quatro meses para digerir aquela tarde na Rodovia dos Imigrantes. Um dia que apunhalou minha memória. As cenas vivem aqui comigo, mas a data exata desapareceu. Talvez como recado que combater a lúpus significa se ater a certos detalhes, ao mesmo tempo em que se descarta as irrelevâncias que aprendemos a enxergar a cada comprimido rompido na cartela e enamorado pelo copo d'água que carrego para você, no sofá da sala todas as noites.