terça-feira, 8 de março de 2016

Você, sempre (Conversas com Beth #18)

Céu de Boiçucanga - Foto: Beth Soares
Marcus Vinicius Batista

Observei você com a distância segura de quem teme o não. De quem teme se machucar por desejar o que se desenha inalcançável. Mantinha-me concentrado em minhas obrigações, fingindo não perceber que você me rondava, me cercava, se aproximava. Era um blefe, uma brincadeira com quem lutava para não expor fragilidades.

Você, a mulher única em suas perfeições imperfeitas, achegou-se. Aconchegou-se. Tocou-me com seu cotovelo. Falei sem te olhar, atuando como canastrão que se recusa a sentir o toque. Posando como se choque elétrico fosse sensação ordinária.

Falava para você um texto quase decorado, como se cumprisse o protocolo de um guichê de repartição, numa conversa pseudorrobótica que camuflava a ansiedade do que havíamos marcado. Um café com ares de solenidade. Um pão de queijo sem preço ou gosto, mas mais caro que uma lagosta que ainda não saboreamos. Ansiedade não nasce em qualquer bolso.

Enrolei a dinâmica daquela manhã. Vi meu espaço esvaziar de pessoas e se encher de uma testemunha. Testemunha insistente, que cozinhava no computador enquanto me observava a cinco metros. Olhos me cutucavam como pontas de dedos curiosos de uma criança sem pudores, mas esperançosa pela aventura no restante do dia.

Quando a sala se encolheu para dois seres humanos, você acionou a sirene que determinava o início do jogo, do combate, do flerte ou do café sem compromisso. Eram fichas que subiam ou desciam nas cotações das minhas apostas. Estava empatado, vencia por isso, mas a ideia de uma derrota me apavorava. Aí, você encerrou a cortina e abriu a porta: "O café está de pé?"

Fomos em território conhecido. Doceria Dona Flor, uma terra que produzia cheiro de segurança, que fertilizava o que poderia ser algo inédito. Inédito enquanto imprevisível. Inédito enquanto melancólico em seu desfecho. Achei melhor arriscar o lugar de onde poderia escapar em caso de incêndio. Solo onde poderia me enterrar em caso de autocombustão.

O café passou por todas as etapas do plantio e colheita. Um café de seis horas, com cardápio amplo e irrestrito. Um café com gosto de biografia dupla, com relatos de vida, erros, acertos, encontros, desvios, saltos, avanços, retrocessos. Confidências de um primeiro dia com rugas de décadas de relacionamento. Profecia de cumplicidade de muitos anos, ameaças e retomadas a um rumo de amor pleno e desejo contínuo.

As seis horas resultaram em suspense, a convite de uma doceria que precisava de descanso da glicose. Aquela dança entre nós, entre uma mesa, precisava de novos acordes. Os movimentos ritmados em direção à despedida eram adiados, protelados por palavras que se misturavam na calçada e, preguiçosamente, se entrelaçaram numa praça do SuperCentro Boqueirão. Lembrávamos de uma novidade como se a intimidade fosse de outros sábados.

O novo café enganava como repetição de uma conversa que se renovava em continuidade. Dali, diante de uma audiência que nos ignorava, temi pela rejeição, optei pela cautela que você dispensou. Seu olhar - aquele - que produz dezenas de frases para me convencer de que o beijo é real, necessário, a comunhão de peles, me empurrou contra a parede inexistente do encosto da cadeira. Tomei uma dose de covardia para adormecer o medo do erro. Covardia para não resistir. Covardia para alterar o curso em definitivo e dar a você o comando, sem pensar em provisório ou definitivo.

Uma tarde em que você revirou minha vida do avesso até moê-la e refazê-la. Um final de tarde que construiu o primeiro capítulo da mais intensa narrativa entre cúmplices. Desde aquela dia, me orgulho em vivenciar e saber que nunca perdermos a vontade de conversar, de compartilhar, de ser o primeiro a saber um do outro como foi o dia, em muitos capítulos.

E jamais se sentir exausto do mesmo desfecho. Um beijo longo, em qualquer praça, rua, avenida, alameda ...

Um comentário:

Cidinha Santos disse...

Linda e comprometida declaração. É cada vez mais claro o quanto vocês pertencem um ao outro e, os dois, ao mundo. Bela história que merece ser compartilhada. Aguardando novos textos sobre vocês.