terça-feira, 15 de março de 2016

O Urso (Conversas com Beth #19)


Beth Soares

Há alguns meses falei sobre a fauna de gente que vive na selva do meu universo particular. Tigre, Cachorro, Tartaruga, Cordeiro, Bem-te-vi, Coelho, Beija-flor, Leoa, Coruja, Esquilos, Cavalo, Vaga-lume... Prometi, na ocasião, escrever sobre uma outra espécie, que precisaria de um espaço à parte, para que sua história na minha vida fosse contada com menos injustiça possível. O Panda merece um capítulo só para ele.

A primeira vez que o vi, ele entrou na toca atrasado. A presença dele me desconcentrou por alguns instantes. Seria ele, como eu, um espectador mais experiente (para não dizer mais velho), que aprenderia naquela espécie de caverna high-fi a ouvir e materializar as histórias da floresta?

A resposta veio em segundos, destruindo minhas esperanças de vê-lo sentar-se ao meu lado. Ele era um dos bichos que transmitiria o conhecimento milenar de compartilhar com outros tudo que viu, ouviu e viveu pelas savanas, desertos, oceanos e todos os espaços possíveis onde vivem e interagem os animais. Nos ensinaria, especialmente, a registrar tudo isso da melhor maneira possível. Foi empolgante viver naquele ambiente fértil de boas histórias, e aprender a mergulhar nas palavras e caçar as que melhor representassem as minhas sensações.

Mas a selva quase nunca é um lugar tranquilo para se viver. Na luta diária para aplacar as fomes que temos - de reconhecimento, de conforto, de esperança, de felicidade, de sentidos - em algum momento o couro que nos reveste pede para que nos refugiemos na toca. Ele quer que esperemos a seiva do tempo cicatrizar as feridas. Porque todos os animais, por mais resistentes que suas carapaças sejam, em algum momento se ferem - sejam tigres, elefantes, jacarés, rinocerontes ou fênix.

Num dia que antecedia uma temporada de hibernação racionalmente pré-decidida, o Panda se aproximou. Com movimentos calmos, que mais pareciam cenas de câmera lenta, sentou ao meu lado. Pediu para dar uma olhada de urso naquele que seria, para mim, meu último registro sobre uma das histórias da floresta. Nem ele nem ninguém sabia daquela minha íntima decisão de abandonar para sempre o grafite e a pasta de celulose que a natureza há muito me presenteava com tanto gosto. Eu achava que não era mais digna deles.

A cada parágrafo lido, aquele grande urso soltava um profundo suspiro, que tornava, para mim, o ambiente ainda mais misterioso. Seria um suspiro de "Nossa! Que olhar de águia sobre os fatos selvagens" ou "Nossa! Que olhar obtuso de morcego sem sonar". Ao final, mais um suspiro. Dessa vez, ainda mais profundo que os anteriores. Com olhos de bicho dócil e seriedade de instrutor honesto, disse que meu texto não seria publicado no jornal da toca. Aceitei como um cordeiro. Aquelas palavras só corroboravam com uma decisão que já estava tomada.

Foi quando o grande urso me desafiou: "Como um animal da sua natureza vai aceitar assim tão fácil? Não vai lutar? Não vai se defender? Não quer saber ao menos o porquê da minha decisão? Eu, já profundamente ferida em meus brios de fera, mas triste demais para sequer rosnar, perguntei já esperando o urro do grande carnívoro: "Por quê?"

Ele sorriu, mostrando dentes de urso menino, incoerentes com sua gigantice. Disse que meu texto não seria publicado na toca, porque seria compartilhado com toda a selva. As lágrimas - distantes das de crocodilo - desceram violentas, arrebentando represas que eu nem sabia que havia construído para me proteger.

Passei a ouvir o Panda com atenção. E a lê-lo também. Era lindo como ele falava da natureza com poesia e sensibilidade. O Panda capturou minha admiração. Passei a olhá-lo cada vez mais de perto. Até que a distância entre a minha toca e a dele ficou insuportável.

De vez em quando, meu impulso de hibernação ainda tenta minar meu instinto de registrar as cenas e sentidos da natureza - tanto da minha quanto dos que observo. Então olho para o lado e vejo o Panda trabalhando incansavelmente. Por ele, pelos que ensina, pelas coisas que acredita. A natureza me deu a oportunidade imperdível de vivenciar isso, por mais de duas mil luas. Até hoje, continuo sendo a aluna mais difícil.

Será que algum dia aprendo?

4 comentários:

Banesprev Baixada Santista disse...

Belo retrato do urso panda.

Banesprev Baixada Santista disse...

Belo retrato do urso panda.

Beth Soares disse...

Que bom que gostou, Cidinha! Obrigada pela leitura.

Beth Soares disse...

Que bom que gostou, Cidinha! Obrigada pela leitura.