terça-feira, 8 de março de 2016

Conversa (breve) com jovens jornalistas



Este texto é, originalmente, o discurso que fiz na colação de grau em Jornalismo (Unisanta), em 7 de março de 2016. Resolvi atender alguns pedidos de publicação. É um texto breve, diante do tempo exigido pela cerimônia.

Marcus Vinicius Batista


Este discurso é dedicado a vocês, meus ex-alunos e colegas de profissão, mas também é para um sujeito que me faz falta neste momento. Nós nos conhecemos no início dos anos 90, ao trabalharmos juntos pela primeira vez. Quando o vi em sala de aula, perguntei: "O que você faz aqui? Não tenho nada a te ensinar." Ele me respondeu: "Eu também não!" De fato, aprendemos juntos o que é ser humano, principalmente na ausência, na adversidade, no luto, na saudade. Wagner Tavares, este discurso é dedicado a você!

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Vivemos tempos difíceis. Tempos em que boato vira fato. Uma miragem se transforma em imagem definitiva. Um época em que achismo vira opinião. Chute vira informação. Hoje, vidas são inventadas e destruídas pela velocidade e selvageria de um clique, destroçadas por quem se julga armado e absoluto quando está vestido de mouse e monitor.

Nestes tempos cinzentos, vale falar sempre. Vomitar e ter opinião formada sobre tudo, como pregava o maluco-beleza. Ficamos com a língua solta e os ouvidos tapados. Olhamos para o outro como selfies de vida feliz, porém editada em nossos celulares. Somos gulosos pelo que acontece com os outros, mas anoréxicos de interpretação.

Publicamos todos. Poucos leem. Raros contextualizam. Não alimentam a ilusão de uma crise profissional. Jornalistas nunca foram tão importantes quanto agora. Falo de jornalistas, e não de seguradores de microfone. Jornalistas, e não artistas ou celebridades de segunda linha.

Mais do que o clichê de contadores de histórias, os jornalistas se interessam por gente. Gente boa, gente ruim, gente de toda espécie. Quanto menos importante for o sujeito, mais ele precisa de nós, jornalistas. Precisa para formar uma opinião sobre o mundo, para pensar sobre o que acontece ali do lado ou lá longe, para discordar de nós, para respirar, refletir e se localizar. Não sejam panfletários ou servis, sejam sujeitos de caráter.

O Jornalismo ainda pode ser uma voz, e não um eco de palavras ocas. Uma voz comprometida não com os elementos do poder, mas com quem está marginalizado por ele. Fazer Jornalismo é pensar coletivamente, é pensar na coletividade. Não é mudar o mundo, mas é sacudir a nossa rua, nosso bairro, nossa cidade, talvez.

Sejam, por favor, jornalistas, empregados ou à procura de trabalho. Free-lancers ou com FGTS garantido todo mês. Ser jornalista é levar a vida como verbos, jamais com a vaidade dos adjetivos. Vocês são verbos de ação, ativos e incômodos. Desconfiem, provoquem, questionem, admitam, enfrentem, desafiem, ouçam, avaliem, sintam, percebam, informem, expliquem, estudem, se interessem, sejam curiosos. Se importem! Não sejam hamsters presos numa rodinha previsível e contínua. Estejam vivos.

Sejam aquilo que a técnica nunca ensina. Sejam aquilo que nenhum professor pode ensinar. Sejam sensíveis. Sejam sensíveis às pessoas que procuram no Jornalismo as respostas. Sejam sensíveis às dúvidas, suas e de outras pessoas. Não é ordem, quem sou eu?, mas um favor que peço a vocês: sejam relevantes!

2 comentários:

Mozar Costa de Oliveira disse...

Não admira, MARCUS, que você tenha sido o paraninfo. Claro, porque sente valores da vida, sabe pensar, possui a velha ars dicendi, gosta de gente. Os seus ex-alunos estão de parabéns. Continue assim. Você é uma alegria para os que, como eu, somos parentes seus.
Beijo do seu tio,
Mozar Costa de Oliveira

Deborah Okida disse...

Sensível e relevante.
Parabéns!