segunda-feira, 21 de março de 2016

A roça caiçara



Marcus Vinicius Batista

Enquanto ela me mostrava as prateleiras de caixas de feira, tratadas e limpas, o sotaque forte canalizava lembranças minhas. Nas primeiras frases, apareceu um verbo “judiar” com o erre puxado. Quando veio o “uai”, era a hora de perguntar, antes que viessem o “sô” e a “sá”.

“A senhora é mineira?” A pergunta parecia redundante, mas era melhor ouvir o óbvio do que cometer um erro de interpretação.

Ela estava cercada de garrafas de cachaça, potes de geleia e de pimenta, canecas e bules de fazenda, queijos curados, potes de doce de leite e de bolinhas de queijo de Araxá, panos de prato decorados e suportes para passar o café no coador.

“Não, eu nasci em Santos e voltei para cá em definitivo há dois anos, quando me aposentei”. Ainda bem que perguntei, pois nasceu uma boa conversa daquelas que só mineiros sabem travar à beira do fogão à lenha.

Ali, na loja de Conceição Oliveira, não tinha fogão à lenha, mas ela fez questão de mostrar a horta de temperos, num corredor à esquerda das mesinhas e das prateleiras que abrigavam bolos e queijos da Serra da Canastra.



Conceição tem o desapego das mulheres que deixam os cabelos completamente brancos. No corpo, um vestido florido, coberto parcialmente por aqueles aventais de quem comanda os quitutes que nascem na cozinha. Óculos de Dona Benta e sorriso permanente no rosto.

Soube da existência da loja dela, Vem lá da Roça, duas semanas antes, na casa do meu pai. Ao entrar na cozinha dele, vi um pilão em pedra sabão. Ele comprou lá. Pediu que eu abrisse um armário no corredor e pegasse uma sacola. Ganhei um pilão igual, o segundo em minha casa. O primeiro é de madeira.

Na loja, Conceição me disse que o pilão havia sido feito em Mariana, cidade que conheci há 17 anos e nome da minha filha. Conceição morava em Santos, na verdade. É que trabalhou por anos com Recursos Humanos na Vale do Rio Doce, onde permanecia de segunda à sexta. Desta experiência, brotaram o sotaque carregado e a paixão por Minas Gerais e seus atrativos culinários da roça. Até hoje, ela tem casa na Serra da Mantiqueira.

A loja foi uma visita inesperada. Não costumo passar em frente. É um ponto cego nas imediações do SuperCentro Boqueirão, quase na esquina das ruas Lobo Vianna e Oswaldo Cruz. Costumo atravessar a rua antes, seja para entrar no próprio SuperCentro ou para ir à Universidade Santa Cecília, um de meus empregos.

Naquele dia, mudei o trajeto, me lembrei do pilão de presente e resolvi entrar para conhecer. Antes, o local abrigava um estúdio fotográfico, entre uma loja de sapatos e um antigo boteco de esquina, daqueles com enormes portas verdes e ovos rosas como um itens do cardápio.

Quando se aposentou, Conceição resolveu que deveria fazer o que mais gostava. Investiu com o marido num espaço que poderia ser a extensão de casa, desta vez mais perto do mar, seis quadras em vez de centenas de quilômetros. Rodou mais de 20 mil quilômetros, entre pesquisas e buscas por fornecedores.


Estas viagens incluíram Goiás e interior de São Paulo, regiões onde também trabalhou. Enquanto conversávamos, ela se desdobrava para explicar a uma cliente as vantagens do café no coador, servido em canequinhas verdes de bordas pretas. Para outro freguês, falava do queijo da Serra da Canastra que, para curar, deveria ficar numa base de madeira, coberto por uma rede, proteção contra mosquitos e moscas. O queijo pode ficar por três anos ali.

Sai de lá com dois presentes para minha mulher Beth: um pote de pimenta malagueta, nível sete numa escala de zero a nove, sendo que nove é a ardência máxima. E um sabonete de maçã, fabricado em Monte Verde. Até o sabonete gerou uma prosa sobre Joanópolis, cidade ao lado conhecida pela lenda do lobisomem.

Comprei também a janta, um sanduíche de linguiça tradicional, com queijo e cebola. Uma refeição de gala, mas este é outro causo para outra roda em torno da fogueira.


Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 15 de março de 2016.  

terça-feira, 15 de março de 2016

O Urso (Conversas com Beth #19)


Beth Soares

Há alguns meses falei sobre a fauna de gente que vive na selva do meu universo particular. Tigre, Cachorro, Tartaruga, Cordeiro, Bem-te-vi, Coelho, Beija-flor, Leoa, Coruja, Esquilos, Cavalo, Vaga-lume... Prometi, na ocasião, escrever sobre uma outra espécie, que precisaria de um espaço à parte, para que sua história na minha vida fosse contada com menos injustiça possível. O Panda merece um capítulo só para ele.

A primeira vez que o vi, ele entrou na toca atrasado. A presença dele me desconcentrou por alguns instantes. Seria ele, como eu, um espectador mais experiente (para não dizer mais velho), que aprenderia naquela espécie de caverna high-fi a ouvir e materializar as histórias da floresta?

A resposta veio em segundos, destruindo minhas esperanças de vê-lo sentar-se ao meu lado. Ele era um dos bichos que transmitiria o conhecimento milenar de compartilhar com outros tudo que viu, ouviu e viveu pelas savanas, desertos, oceanos e todos os espaços possíveis onde vivem e interagem os animais. Nos ensinaria, especialmente, a registrar tudo isso da melhor maneira possível. Foi empolgante viver naquele ambiente fértil de boas histórias, e aprender a mergulhar nas palavras e caçar as que melhor representassem as minhas sensações.

Mas a selva quase nunca é um lugar tranquilo para se viver. Na luta diária para aplacar as fomes que temos - de reconhecimento, de conforto, de esperança, de felicidade, de sentidos - em algum momento o couro que nos reveste pede para que nos refugiemos na toca. Ele quer que esperemos a seiva do tempo cicatrizar as feridas. Porque todos os animais, por mais resistentes que suas carapaças sejam, em algum momento se ferem - sejam tigres, elefantes, jacarés, rinocerontes ou fênix.

Num dia que antecedia uma temporada de hibernação racionalmente pré-decidida, o Panda se aproximou. Com movimentos calmos, que mais pareciam cenas de câmera lenta, sentou ao meu lado. Pediu para dar uma olhada de urso naquele que seria, para mim, meu último registro sobre uma das histórias da floresta. Nem ele nem ninguém sabia daquela minha íntima decisão de abandonar para sempre o grafite e a pasta de celulose que a natureza há muito me presenteava com tanto gosto. Eu achava que não era mais digna deles.

A cada parágrafo lido, aquele grande urso soltava um profundo suspiro, que tornava, para mim, o ambiente ainda mais misterioso. Seria um suspiro de "Nossa! Que olhar de águia sobre os fatos selvagens" ou "Nossa! Que olhar obtuso de morcego sem sonar". Ao final, mais um suspiro. Dessa vez, ainda mais profundo que os anteriores. Com olhos de bicho dócil e seriedade de instrutor honesto, disse que meu texto não seria publicado no jornal da toca. Aceitei como um cordeiro. Aquelas palavras só corroboravam com uma decisão que já estava tomada.

Foi quando o grande urso me desafiou: "Como um animal da sua natureza vai aceitar assim tão fácil? Não vai lutar? Não vai se defender? Não quer saber ao menos o porquê da minha decisão? Eu, já profundamente ferida em meus brios de fera, mas triste demais para sequer rosnar, perguntei já esperando o urro do grande carnívoro: "Por quê?"

Ele sorriu, mostrando dentes de urso menino, incoerentes com sua gigantice. Disse que meu texto não seria publicado na toca, porque seria compartilhado com toda a selva. As lágrimas - distantes das de crocodilo - desceram violentas, arrebentando represas que eu nem sabia que havia construído para me proteger.

Passei a ouvir o Panda com atenção. E a lê-lo também. Era lindo como ele falava da natureza com poesia e sensibilidade. O Panda capturou minha admiração. Passei a olhá-lo cada vez mais de perto. Até que a distância entre a minha toca e a dele ficou insuportável.

De vez em quando, meu impulso de hibernação ainda tenta minar meu instinto de registrar as cenas e sentidos da natureza - tanto da minha quanto dos que observo. Então olho para o lado e vejo o Panda trabalhando incansavelmente. Por ele, pelos que ensina, pelas coisas que acredita. A natureza me deu a oportunidade imperdível de vivenciar isso, por mais de duas mil luas. Até hoje, continuo sendo a aluna mais difícil.

Será que algum dia aprendo?

quinta-feira, 10 de março de 2016

O Capitão América mora no Embaré

Vinicius e o super-herói. Foto: Mari Amarante

Marcus Vinicius Batista

Vinicius andou dez metros e paralisou. Congelou diante da Igreja dos Mórmons. Aos seis anos, meu filho não se movia, olhava para frente como se tivesse visto algo que eu não conseguia enxergar. Alguma epifania religiosa por causa do templo, talvez. Um herói de proporções bíblicas andava entre nós.

"Você quer voltar e falar com ele?", perguntei com a certeza absoluta da resposta.

"Quero, pai."

"Então, vamos."

Ao virarmos para o sentido contrário, notei que o Capitão América havia percebido o impacto que causara no menino. Ele andava em nossa direção. Sorridente, estava vestido para a próxima missão. Da roupa ao escudo. Loiro, atlético e de olhos claros, uma descrição física que o aproximava do ator que interpreta o herói nos filmes recentes. A imagem materializada para o fã.

O encontro começara a se desenhar uns cinco minutos antes. Na tarde daquele sábado, voltávamos para casa e decidimos passar no supermercado. Comprar o lanche de final de tarde e umas besteiras de final de semana. Após as compras, no canal 4, entramos na rua Ministro João Mendes, no Embaré, uma caminhada de 15 minutos até em casa.

Vinicius, depois de duas quadras, deu o alerta: "Pai, olha o Capitão América!". O rapaz, com a roupa do herói, aguardava em frente a um edifício, o Cidade de Ancona, entre as ruas Castro Alves e Benjamin Constant. Ao lado dele, a Branca de Neve.

O passo do meu filho mudou de ritmo. Mais acelerado, seguido de respiração ofegante. Ansioso, ele andava na frente, uns dois metros de mim e da irmã Mariana. Olhar decidido, a ser pulverizado pela timidez e pela vergonha em segundos.

Diante de nós, a Branca de Neve sorriu. O Capitão América olhou para o Vinicius e disse: "Oi!" A resposta foi direta, sem que Vini alterasse a velocidade das passadas. "Oi!" Ele perceberia a chance perdida e estancaria os pés na calçada dez metros depois.

Quando o Capitão América reduziu a distância para menos de meio metro, Vinicius se sentiu acuado, como se grades aparentes e paredes o detivessem. O capitão o chamou para conversar: "Oi, meu amigo, tudo bem?" Vini se aproximou enquanto o herói se agachava e o golpeava. Eram golpes verbais, perguntas sobre força, de quais heróis gostava, num breve interrogatório gentil para respostas quase monossilábicas.

Alguém sugeriu uma foto e o Capitão América o abraçou. Com a imagem captada, o herói se levantou, e nós agradecemos pela educação. Vini permaneceu parado, sob efeito de raios invisíveis do encontro imprevisível.

Evitei fazer perguntas ao capitão. Todas eram inúteis. O nome dele já sabíamos: Steve Rogers. Jamais poderia ser Thiago, Mateus ou Paulo. Ele estava ali para uma missão, quem questionaria se morava naquele edifício e seguia para uma festa à fantasia ou se animaria um parabéns qualquer de sábado à noite. Também não tive coragem de perguntar se ele era amigo, namorado, parente ou colega de trabalho da Branca de Neve. Ela não cabia naquele episódio ao ar livre. Era uma falha no roteiro do menino.

Vinicius tagarelou o restante do dia sobre o Capitão América. Era o seu herói preferido, alvo de discursos sobre poderes, aventuras, inimigos e lutas. O fascínio de quem jamais esperava encontrá-lo ao vivo e ser elogiado por sua força.

O relacionamento do Capitão América mudou como a carruagem que vira abóbora à meia-noite. Mais ou menos neste horário, quando assistíamos a desenhos na TV, Vinicius me disse:

"Pai, posso te contar uma coisa?"

"Claro, Vini."

"Pai, eu me enganei. O Capitão América não é meu herói preferido. Meu herói preferido ainda é o Homem-Aranha."

Não há paixão de verão que resista ao amor de uma vida.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 3 de março de 2016.

quarta-feira, 9 de março de 2016

A mulher mineira

Dona Norvina, ao lado da minha irmã Catarina.
Início dos anos 80
Marcus Vinicius Batista

Nunca fui tão longe atrás de uma mulher. Só poderia ser amor para me fazer trocar o sono por uma madrugada e uma manhã na estrada. Amor suficiente para dirigir 850 quilômetros em dez horas, com uma única parada para abastecimento do carro, ida ao banheiro e compra de uma garrafa de água.

A mulher estava do outro lado do rio, na terra mineira onde nasceu e para onde retornou 40 anos depois. Ela optara por morar sozinha, como prova de independência e capacidade de reconstruir a rotina numa cidade pequena. Deixou Santos porque não conseguia mais se adaptar a uma cidade mais acelerada, mais poluída em vários sentidos e mais impessoal. Andava até a igreja e não reconhecia mais ninguém, dizia. O boa tarde havia morrido por atropelamento, talvez pelos carros que ela jurava trafegar a 120 (quilômetros por hora).

Aquela mulher me esperaria de braços abertos e mesa posta. Arroz branco, tutu, purê de batatas, quiabo babando e uma carne compunham o cardápio tradicional. Ali, onde o tempo não corria, se arrastava, havia sempre uma fornada de pão de queijo, tão amarelo como o queijo curado que descansava em cima da geladeira.

A bebida destoava na previsível Coca-Cola. Às vezes, eu sentia falta do Campari que me ela dava quando criança. Adorava assustar as freguesas quando eu me exibia com o copo, no ateliê de costura. A garrafa de Campari, mistério desfeito pela dona da bebida, era groselha Milani, doce como os chocolates que ganhava de suas amigas, a glicose para o pequeno bebum.

Naquelas bandas mineiras, a sabedoria era aliar comida e conversa. A cada visita, a mulher passava um café novinho em fumaça sedutora, assava uma travessa de pão de queijo, cortava uns pedaços de bolo nêga maluca e completava com pães de sal (média é coisa de gente caiçara) quase tão quentes quanto o café.

A dona da casa abria uma exceção para minhas visitas e de meus parentes. Deixava-se dormir mais tarde, para aproveitar as conversas no alpendre. Na entrada da casa, o noticiário local tinha mais relevância que os telejornais da noite; por sinal, ela só assistia a um deles. “Quem viu um, viu todos”, profetizou no século passado.

Dormir mais tarde não significava enrolar na cama até depois. Anfitriã é a primeira a esticar as pernas. Acordava com as galinhas, os cachorros da vizinhança e os caminhões de boiada que gritavam pelos escapamentos e cruzavam com as camionetes atulhadas de latões de leite.

Aquela mulher, que veio fazer a vida em Santos, soube nos convencer quando chegou a hora de voltar. Ela nos convenceu de mansinho, como mineira. Viagens periódicas cada vez mais longas. Sem brigas, prevaleceu a persuasão do já está feito.

A cidade pequena a acolheu como se nunca tivesse saído. A amiga que comeu hamburger pela primeira vez aos 70 anos. O dono da pizzaria que fez a entrega de carro e se esqueceu de perguntar o endereço. O dono do açougue que telefonava para perguntar qual parte do boi recém-abatido que ela desejava.

Quando a saúde titubeou, ela usou o jogo de cintura, resistiu, mas retornou à cidade maior, perto do mar. Aqui, ela também me deu uma experiência única. A única vez que abandonei uma sala de aula e retornei para casa. A memória falha sobre os detalhes de seu sepultamento, mas ela me concedeu a honra de carregar seu corpo – e me despedir solitariamente – duas vezes.

Minha avó, Dona Norvina, foi a pessoa mais sábia que conheci. Achei por anos que até o nome dela era único, até descobrir que existiram outras duas, nascidas na mesma época, na mesma cidade, de nome Luz. Deve ter sido moda, lá nos anos 20, mas como não a conheci, a lenda se sobrepôs ao fato.

São as lembranças que indicam Feliz Dia Internacional da Mulher, a todas elas que nos presenteiam matando saudades.

terça-feira, 8 de março de 2016

Você, sempre (Conversas com Beth #18)

Céu de Boiçucanga - Foto: Beth Soares
Marcus Vinicius Batista

Observei você com a distância segura de quem teme o não. De quem teme se machucar por desejar o que se desenha inalcançável. Mantinha-me concentrado em minhas obrigações, fingindo não perceber que você me rondava, me cercava, se aproximava. Era um blefe, uma brincadeira com quem lutava para não expor fragilidades.

Você, a mulher única em suas perfeições imperfeitas, achegou-se. Aconchegou-se. Tocou-me com seu cotovelo. Falei sem te olhar, atuando como canastrão que se recusa a sentir o toque. Posando como se choque elétrico fosse sensação ordinária.

Falava para você um texto quase decorado, como se cumprisse o protocolo de um guichê de repartição, numa conversa pseudorrobótica que camuflava a ansiedade do que havíamos marcado. Um café com ares de solenidade. Um pão de queijo sem preço ou gosto, mas mais caro que uma lagosta que ainda não saboreamos. Ansiedade não nasce em qualquer bolso.

Enrolei a dinâmica daquela manhã. Vi meu espaço esvaziar de pessoas e se encher de uma testemunha. Testemunha insistente, que cozinhava no computador enquanto me observava a cinco metros. Olhos me cutucavam como pontas de dedos curiosos de uma criança sem pudores, mas esperançosa pela aventura no restante do dia.

Quando a sala se encolheu para dois seres humanos, você acionou a sirene que determinava o início do jogo, do combate, do flerte ou do café sem compromisso. Eram fichas que subiam ou desciam nas cotações das minhas apostas. Estava empatado, vencia por isso, mas a ideia de uma derrota me apavorava. Aí, você encerrou a cortina e abriu a porta: "O café está de pé?"

Fomos em território conhecido. Doceria Dona Flor, uma terra que produzia cheiro de segurança, que fertilizava o que poderia ser algo inédito. Inédito enquanto imprevisível. Inédito enquanto melancólico em seu desfecho. Achei melhor arriscar o lugar de onde poderia escapar em caso de incêndio. Solo onde poderia me enterrar em caso de autocombustão.

O café passou por todas as etapas do plantio e colheita. Um café de seis horas, com cardápio amplo e irrestrito. Um café com gosto de biografia dupla, com relatos de vida, erros, acertos, encontros, desvios, saltos, avanços, retrocessos. Confidências de um primeiro dia com rugas de décadas de relacionamento. Profecia de cumplicidade de muitos anos, ameaças e retomadas a um rumo de amor pleno e desejo contínuo.

As seis horas resultaram em suspense, a convite de uma doceria que precisava de descanso da glicose. Aquela dança entre nós, entre uma mesa, precisava de novos acordes. Os movimentos ritmados em direção à despedida eram adiados, protelados por palavras que se misturavam na calçada e, preguiçosamente, se entrelaçaram numa praça do SuperCentro Boqueirão. Lembrávamos de uma novidade como se a intimidade fosse de outros sábados.

O novo café enganava como repetição de uma conversa que se renovava em continuidade. Dali, diante de uma audiência que nos ignorava, temi pela rejeição, optei pela cautela que você dispensou. Seu olhar - aquele - que produz dezenas de frases para me convencer de que o beijo é real, necessário, a comunhão de peles, me empurrou contra a parede inexistente do encosto da cadeira. Tomei uma dose de covardia para adormecer o medo do erro. Covardia para não resistir. Covardia para alterar o curso em definitivo e dar a você o comando, sem pensar em provisório ou definitivo.

Uma tarde em que você revirou minha vida do avesso até moê-la e refazê-la. Um final de tarde que construiu o primeiro capítulo da mais intensa narrativa entre cúmplices. Desde aquela dia, me orgulho em vivenciar e saber que nunca perdermos a vontade de conversar, de compartilhar, de ser o primeiro a saber um do outro como foi o dia, em muitos capítulos.

E jamais se sentir exausto do mesmo desfecho. Um beijo longo, em qualquer praça, rua, avenida, alameda ...

Conversa (breve) com jovens jornalistas



Este texto é, originalmente, o discurso que fiz na colação de grau em Jornalismo (Unisanta), em 7 de março de 2016. Resolvi atender alguns pedidos de publicação. É um texto breve, diante do tempo exigido pela cerimônia.

Marcus Vinicius Batista


Este discurso é dedicado a vocês, meus ex-alunos e colegas de profissão, mas também é para um sujeito que me faz falta neste momento. Nós nos conhecemos no início dos anos 90, ao trabalharmos juntos pela primeira vez. Quando o vi em sala de aula, perguntei: "O que você faz aqui? Não tenho nada a te ensinar." Ele me respondeu: "Eu também não!" De fato, aprendemos juntos o que é ser humano, principalmente na ausência, na adversidade, no luto, na saudade. Wagner Tavares, este discurso é dedicado a você!

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Vivemos tempos difíceis. Tempos em que boato vira fato. Uma miragem se transforma em imagem definitiva. Um época em que achismo vira opinião. Chute vira informação. Hoje, vidas são inventadas e destruídas pela velocidade e selvageria de um clique, destroçadas por quem se julga armado e absoluto quando está vestido de mouse e monitor.

Nestes tempos cinzentos, vale falar sempre. Vomitar e ter opinião formada sobre tudo, como pregava o maluco-beleza. Ficamos com a língua solta e os ouvidos tapados. Olhamos para o outro como selfies de vida feliz, porém editada em nossos celulares. Somos gulosos pelo que acontece com os outros, mas anoréxicos de interpretação.

Publicamos todos. Poucos leem. Raros contextualizam. Não alimentam a ilusão de uma crise profissional. Jornalistas nunca foram tão importantes quanto agora. Falo de jornalistas, e não de seguradores de microfone. Jornalistas, e não artistas ou celebridades de segunda linha.

Mais do que o clichê de contadores de histórias, os jornalistas se interessam por gente. Gente boa, gente ruim, gente de toda espécie. Quanto menos importante for o sujeito, mais ele precisa de nós, jornalistas. Precisa para formar uma opinião sobre o mundo, para pensar sobre o que acontece ali do lado ou lá longe, para discordar de nós, para respirar, refletir e se localizar. Não sejam panfletários ou servis, sejam sujeitos de caráter.

O Jornalismo ainda pode ser uma voz, e não um eco de palavras ocas. Uma voz comprometida não com os elementos do poder, mas com quem está marginalizado por ele. Fazer Jornalismo é pensar coletivamente, é pensar na coletividade. Não é mudar o mundo, mas é sacudir a nossa rua, nosso bairro, nossa cidade, talvez.

Sejam, por favor, jornalistas, empregados ou à procura de trabalho. Free-lancers ou com FGTS garantido todo mês. Ser jornalista é levar a vida como verbos, jamais com a vaidade dos adjetivos. Vocês são verbos de ação, ativos e incômodos. Desconfiem, provoquem, questionem, admitam, enfrentem, desafiem, ouçam, avaliem, sintam, percebam, informem, expliquem, estudem, se interessem, sejam curiosos. Se importem! Não sejam hamsters presos numa rodinha previsível e contínua. Estejam vivos.

Sejam aquilo que a técnica nunca ensina. Sejam aquilo que nenhum professor pode ensinar. Sejam sensíveis. Sejam sensíveis às pessoas que procuram no Jornalismo as respostas. Sejam sensíveis às dúvidas, suas e de outras pessoas. Não é ordem, quem sou eu?, mas um favor que peço a vocês: sejam relevantes!