sábado, 27 de fevereiro de 2016

Natasha, você me enganou!

Foto: Caio Del Lucchesi
Marcus Vinicius Batista

Natasha Guerrize está sempre sorrindo. Sorri quando fala, sorri quando canta. Desconfio, com honestidade, que ela sorri até quando está puta da vida. Mas não sabia que Natasha podia mentir sem querer. E sorrindo. Poderia se esconder atrás de um jeito simpático de receber as pessoas, da meiguice de movimentos de quem não parece ter pressa.

Eu e Beth chegamos atrasados no bar Black Jaw, em Santos. Perdemos o primeiro tempo, como ela nos disse entre sorrisos, abraços e agradecimentos mútuos. Era cumprir a promessa feita duas semanas antes, ao vermos o convite para o show. Uma noite de duetos, era o que sabíamos.

O bolo na mesa confirmava a descoberta de quatro horas antes. Natasha faria aniversário. 28 anos. Eu a conheci no curso de Jornalismo, quando dei aula para ela. Como muitos estudantes, ela era uma garota de 17, 18 anos com os olhos brilhantes a cada história supostamente engraçada em sala de aula. Sonhos e visões de uma profissão às vezes glamourosa no discurso, embrutecida na vida prática.

Anos depois, trabalhamos juntos no mesmo jornal. Ela escrevia sobre esportes; eu, uma coluna semanal. Não nos encontrávamos no cotidiano porque meu trabalho é em casa. A última vez foi na festa da firma, como todos chamam, na Ilha das Palmas. Conversas breves, regadas à churrasco e amigo secreto.

Enquanto aguardava a segunda parte do show, acomodado entre a caipirinha e a batata frita, eu tentava imaginar o repertório. Dos músicos que a acompanhariam, o baterista era a exceção. Cabelos grisalhos, curtos, visual casual. Os demais vestiam o figurino roqueiro, das camisetas pretas aos cabelos compridos ou fora do padrão comportadinho do pop rock. Bom sinal.

Natasha também vestia preto, blusa e saia, esta com discreta estampa. Um salto alto completava a imagem de cantora de jazz. Parecia com Amy Winehouse no início de carreira, desfilando covers das divas jazzísticas em pubs de Londres.

Entre parabéns e conversas de mesa em mesa, veio o segundo tempo. O que era aquilo? Quem era aquela moça, em metamorfose? Eu e Beth estávamos numa mesa parcialmente encoberta por uma pilastra. Continuei escondido atrás dela, somente para ouvir a voz. Uma voz que parecia incompatível com a meiguice da jornalista-cantora. Ali, havia uma cantora do ramo (temporariamente ex-jornalista), com voz poderosa, que se arrisca num repertório em inglês de várias épocas. Ali, no palco do bar, testemunhamos eu e Beth uma cantora de rock, profissional, mais do que um hobby ou diversão de final de semana.

Depois de umas quatro músicas, nós movemos as cadeiras. Tínhamos que assistir por completo. Steppenwolf, 4 non blondes, Pharrell Willians compunham a lista de músicas, revezadas com outros intérpretes. Lembrava de cantoras como Melissa Etheridge e outras mulheres de voz sólida, forte, com corpo.

De repente, Adele no palco, com a diferença de que a moça que nos entorpecia no Black Jaw era menor, de cabelos pretos e franja. Diferença física e admiração nas notas. Coragem à frente de um microfone pessoal – pinta de diva – que poderia ser suicídio. “Hello” nos saudou pela competência e segurança, inclusive para ignorar uma ou outra entrada levemente antecipada.

A noite de rock permitia mais concessões e mais riscos. Natasha, que parece tão delicada no trato da vida comum, gosta de andar na linha fina entre dois arranha-céus. Se cair, levanta e sobe outra vez. Mas não há irresponsabilidade musical. O risco é calculado, filho de muito ensaio e estudo. Lição de casa feita e aprendida, o Fantasma da Ópera vem ao palco em novo dueto, como a cereja do bolo de 28 anos.

No fim da festa, o ritual simples não nos permite percebê-lo como tal. Agradecimentos, abraços e a ressurreição da voz meiga e simpática, que dança entre os sorrisos de quem fala e sorri enquanto canta ou bate-papo. Como outros, saímos impressionados, ouvindo os mesmos acordes de quem viu uma cantora em formação contínua. “Que voz poderosa!”, disse uma mulher. “Ela canta pra caralho!”, comentou um amigo.

Algumas horas depois, numa rede social, a denúncia: a cantora trocava a blusa e saia pretas, mais o salto alto, pela bermuda, camiseta e gravador na mão para entrevistar um casal de corredores na orla da praia. A mesma mulher, em músicas diferentes.

Como é ótimo ir a um aniversário e receber tamanho e singelo presente.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

O sobrinho e o mecânico


Marcus Vinicius Batista

Antônio pegou o telefone no terceiro toque. A esposa, que costumava atender às ligações, estava viajando. Ele mal disse alô e veio a resposta:

"Tio, tudo bem?"

"Quem é?"

"Pôxa, tio, se esqueceu dos pobres?"

"Beto, é você? Tudo bem?"

"Sou eu mesmo, tio. Quanto tempo!"

"E aí, o que manda, Beto?"

"Tio, estou indo pra aí. Posso passar uns dias contigo?"

O apartamento estava mais vazio. A esposa viajando, o filho caçula trabalhando direto e namorando. Havia um quarto livre para abrigar o sobrinho. Adalberto era um dos favoritos, sempre o respeitara e os encontros rendiam longas conversas. Não se viam há 15 anos, desde que o sobrinho foi morar na Alemanha para trabalhar, casou-se e teve filhos por lá.

"Quando você vem aqui pra Santos, Beto?"

"Tio, já estou perto, na verdade. Estou em São Paulo."

"Você veio de carro do Espírito Santo? Tá doido?"

"Tranquilo, tio. Vale pelo passeio."

"E quando chega? Preciso comprar umas cervejas pra gente colocar a conversa em ordem."

"Então, tio, aí tá o problema. Meu carro quebrou aqui em São Paulo. Preciso de uma ajuda."

"Sério? Do que você precisa?"

"Meu carro quebrou na saída de São Paulo. É uma peça que nem sei o que faz. O mecânico garante que precisa trocar. Fica em R$ 1140. Eu tenho esse dinheiro. O problema é que o cara não aceita cheque nem tem máquina de cartão. Tem que ser em dinheiro. Tenho aqui, na carteira, R$ 200. O senhor pode me emprestar o resto? Chegando aí, a gente acerta."

Antônio ficou uns três segundos em silêncio. Como resolver isso, pensou? Não tenho esse dinheiro em casa. Tirar da poupança? Teria que ir ao caixa eletrônico. E como levar até São Paulo?

"Tio?"

"Bom... Beto, posso ir ao caixa eletrônico, mas como vamos fazer para levar o dinheiro pra ele?

"Pera aí, tio."

Silêncio na linha. Depois, Antônio ouvia dois homens conversando, sem entender o conteúdo. Silêncio novamente até ...

"Tio, o cara aceita transferência bancária. Tranquilo. Assim, o senhor não sai de Santos nem anda com esse dinheiro todo na carteira."

"Bom...mas minha conta é do Banco Atalaia."

"Deixa eu ver." Logo em seguida: "Tio, bateu. A oficina tem conta nesse banco. Já passo os dados."

A conta estava em nome do mecânico, Antônio confirmou com o sobrinho. Desligou o telefone, se arrumou e correu na agência a duas quadras de casa. Fez a transferência e voltou para o apartamento. Meia hora depois, o telefone tocou de novo. Atendeu no primeiro toque.

"Tio?"

"Fala, Beto! Fiz a transferência."

"Maravilha, tio. O cara vai checar aqui. Espera na linha."

Sons perto do telefone. Duas vozes novamente.

"Tio, deu certo. Agora, é só esperar o carro ficar pronto."

"Beto, você vem ainda hoje? A cerveja já tá gelando."

"Tio, tenho medo de dirigir à noite. Vou dormir por aqui. O mecânico me disse que tem um hotelzinho ótimo perto. E eles devem aceitar cartão. Amanhã estou aí na hora do almoço. Obrigado."

No dia seguinte, o telefone tocou por volta do meio-dia. Antônio levantou mais cedo do que de costume, o que o deixou com dores no corpo, comuns para um homem de 75 anos. Mas nada que reduzisse a expectativa de reencontrar o sobrinho depois de 15 anos. Precisava deixar a casa em ordem.

"Tio, tudo bem?"

"Tudo certo, Beto. Quando chega?"

"Ih, tio, deu merda aqui. O conserto é mais longo que eu imaginava. Talvez no final da tarde. Ligarei de novo. O cara, inclusive, disse que tem outro problema no carro. Pelo jeito, terei que gastar mais. Te ligo depois."

Antônio desligou o telefone e imaginou como a viagem deve ter sido cansativa para o sobrinho. Muito azar para um cara só. Foi dormir um pouco, compensar por ter acordado com as galinhas. No meio do sono, duas horas depois, o telefone gritou outra vez. O filho caçula atendeu e berrou:

"Pai, telefone para você!"

"Quem é?"

"É um cara com sotaque nordestino. Não perguntei o nome."

"Eita, filho, é o Beto. Não reconheceu a voz não?"

"Sério? Não reconheci não. A voz parecia diferente."

Antônio pegou o telefone e já saiu falando...

"Beto, você tá perto? Já chegou em Santos?"

"Ih, tio, tá foda aqui. Mais uma peça quebrada, que vai atrapalhar o desempenho na estrada. Posso ficar na mão no meio da serra. Tenho que esperar trocar. Se tem uma boa notícia, é que a facada é mais barata: R$ 500. Mas tem um pepino. O chip do meu cartão tá dando problema. Não consigo sacar o dinheiro no caixa eletrônico. Fui até o shopping, aquela fila, e nada. O senhor pode me dar uma força? Prometo que acerto quando chegar aí, tio, ainda hoje."

Antônio sentiu um estalo, daqueles que despertam sem razão. O mecânico deve ser cascateiro. Porra, como o sobrinho cai numa dessas? Aí olhou para o telefone e prestou atenção no identificador de chamada. Não era 11 o DDD. De onde o sobrinho estava ligando?

"Beto, de onde é este número? É da oficina?"

"Claro, tio, tô com o mecânico aqui do lado. Ele troca a segunda peça ainda hoje de tarde. O cara é gente boa."

Antônio ficou em silêncio, pensou e jogou verde. "Beto, teu primo tá aqui me enchendo o saco. Já te ligo."

"Mas tio ..."

"Beto, cinco minutinhos. Já te ligo de volta."

Antônio olhou para o filho no computador e falou: "Paulo, pesquisa para mim aí, na Internet, um código de telefone."

Após alguns cliques, Paulo se virou para o pai e respondeu: "Pai, é de uma cidade no interior de Tocantins."

"Obrigado."

Antônio digitou alguns números no telefone e esperou.

"Alô?"

"Márcia?"

"Antônio?"

"Isso, minha irmã, tudo bem?"

"Oi, Toninho, é o Espírito Santo de sempre. Tudo certo?"

" Tudo. O Beto tá por aí?"

"Claro, Toninho, ele vai ficar aqui até semana que vem. Depois, ele volta pra Alemanha. Ah, mas não dá pra falar com ele agora. Ele tá no vizinho tomando umas cervejas. E aí, como você tá? E meus sobrinhos?"

"Márcia, posso te ligar depois? É que surgiu um imprevisto aqui. Depois eu ligo. É que andei pensando muito no Beto."

Antônio se despediu, desligou o telefone e se encostou no sofá. Só teve vontade de ligar para a filha mais velha. Precisava contar para alguém. Nem adiantava discar para Tocantins. Sabia que o número cairia em caixa postal. Digitou outros números e, assim que ouviu uma voz feminina, perguntou:

"Filha, tudo bem? Você está sentada?"

Obs.: Esta história é verídica. Apenas nomes e locais foram alterados para preservação da identidade da vítima do golpe.