sábado, 9 de janeiro de 2016

A voz da senzala



Marcus Vinicius Batista

Entrar no shopping é obrigação. Nas férias de janeiro, fui a uma loja de rede, especializada em roupas. Jurava ser uma ação guerrilheira. Tinha que trocar presentes de Natal do meu filho. Na primeira tentativa, a esperança de menos movimento e rapidez na solução.

Enquanto procurávamos camisetas para o moleque, veio a voz: "Fulano, parabéns pelo seu aniversário. São pessoas como você que incentivam ..." Olhei para minha mulher e sorrimos com desconfiança. Falamos, com ironia, sobre quem seria o autor do texto, inspirador e oco. Continuamos nossa busca e, cinco minutos depois, a mesma voz: "Beltrano, parabéns pelo seu aniversário. São pessoas como você que incentivam ..."

A voz feminina era robótica, mecânica, tão desumanizada quanto os nomes impossíveis de memorização, espremidos em pequenas letras nos crachás, no palavreado de quem te atende olhando através de você para mascarar o cansaço. Os cumprimentos de aniversário se repetiram mais três vezes, mesmo número de multiplicação de pessoas na fila, mesmo número de funcionários exaustos após horas em pé nos caixas. Troca de roupas abortada.

Dois dias depois, o retorno ao mesmo endereço. Menos movimento, dia de semana, quantidade menor de turistas, presumo. Achamos um número maior de camiseta e andávamos para o caixa quando veio a gravação. "Equipe, alcançamos (aí vinha um código). Foco e concentração. Foco e concentração!" Os códigos estabeleciam as metas e quanto era o resultado até aquele momento.

A mensagem se repetia em intervalos regulares. Confesso que há eficiência na lavagem mental, pois meu foco deixou de ser a troca e passou a ser a voz. A voz feminina, de um feitor de primeiro emprego, nascido depois de 1984, mas reprodutor da lógica orwelliana de vigilância como ritmo de respiração.

A bermuda e a sunga ficaram para uma terceira viagem na mesma semana. Desisti de cogitar a força de minha paciência perante um bem maior. Resolver a troca do presente era uma promessa de Ano Novo, mas daquelas que devemos cumprir.

Dentro da loja, retornamos ao mesmo setor. Meu filho experimentou duas, três peças e aconteceu. A voz feminina vinha com códigos de vendas e uma falsa empolgação: "Não para! Não para! Não para!" Por um segundo, duvidei de onde estava. Voyeurismo auditivo? O orgasmo nas vendas escondia o sexo mal resolvido das relações trabalhistas.

No setor de troca, uma vendedora se esforçava para sorrir a cada cliente impaciente após 15, 20 minutos de fila. No caixa, outra funcionária perguntava laconicamente sobre as peças de roupa, enquanto passava o leitor de tarja magnética e informava o valor da conta.

Nesse tempo, a voz relembrava o gemido sado-masoquista: "Não para!! Não para!! Não para!!"

Coincidência ou não, passei com meus filhos na frente do shopping no mesmo dia, por volta da meia noite. Voltávamos para casa quando, no ponto de ônibus, reconheci as duas vendedoras. Ambas arqueadas, cotovelos nos joelhos, balbuciando uma conversa que nascia de rostos exaustos, umas dez horas depois do meu atendimento. Quanto tempo de espera? Quanto tempo de viagem até em casa? Alguém as aguardava?

Sem as respostas, lembrei-me que a loja tinha um ponto positivo, que talvez compensasse o estupro motivacional. A loja inovava no regime semi-aberto, que permite aos escravos dormir em casa. Se é que conseguirão parar, parar, parar ...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Três presentes


Luna, entre as cerâmicas. Em primeiro plano, um presente

Marcus Vinicius Batista

Enquanto Júnior abria o porta-malas do carro, eu me perguntava: "o que pode ser tão pesado?" Quatro horas antes, durante a festa de confraternização do jornal, Jota Amaral - o Júnior - parou do meu lado e disse: "quando soube que a Nara (esposa dele) te tirou no amigo secreto, pensei também em te dar um presente! Está no carro."

Ele mal sabe, mas Júnior é uma espécie de Papai Noel fora do padrão. A barba passou a ser controlada por fios brancos, assim como os cabelos que o levaram à fama, quando se parecia com personagem de novela. Júnior é capaz, uma vez por ano, no amigo secreto da firma, de me dar excelentes presentes, ainda mais porque chegam aos pacotes. Sempre mais de um.

Neste ano, o primeiro começou a nascer com Luna, a filha dele de oito meses. Menina curiosa, de sorriso permanente e amante de melancia, Luna voltava às origens e nadava como fazia no ventre de Nara, no Natal anterior. Mergulhava a cabeça na água e sorria para todos.

O pequeno malabarismo virou questão de honra para meu filho Vini, de seis anos. Sentindo-se desafiado, aprendeu a mergulhar, mesmo agarrado no corrimão da escada da piscina, por questão de segurança. Júnior o presenteou - e a mim também - quando fez com que conseguisse ficar submerso por eternos cinco segundos. E ainda ouviu, ao fim do diálogo de desenho animado: "Vini, você é um escafandrista!"

Júnior abriu o porta-malas do carro, olhou para mim e tirou um pote de cerâmica, nova criação artística deste sujeito de cultura versátil. No presente-surpresa, outra novidade: "Marcão, tem esse outro furo e pode ser instrumento de percussão." Agradeci e assisti à micro-performance na calçada.

No ano passado, na mesma piscina, Júnior me deu de Natal duas crônicas, publicadas neste espaço. Este ano, ele aumentou a cota: o mergulho e a cerâmica pariram mais um texto, como eu havia pedido de presente no começo da festa.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Um homem de Deus


Marcus Vinicius Batista

Seu Silveira é um sujeito solitário. Embora encontre dezenas de pessoas durante o dia, mal as conhece, com pouca chance de estabelecer uma relação de confiança. Ele é motorista de táxi 12 horas por dia e, por causa do ofício, nos encontramos duas, três vezes por ano.

A solidão o transformou em um homem metódico. Janta, por exemplo, no mesmo restaurante, às margens do canal 1, todas as noites, atrás do bom bife de sempre. É a fé no cozinheiro, como se ele preparasse nova remessa de hóstias a cada refeição.

Seu Silveira crê que a solidão morrerá se achar uma companheira para o final da vida. "Tem que cuidar de mim e cozinhar bem. Não precisa de mais nada." Ele só não sabe se o irônico isolamento pelo trabalho ou a vida de rotina rigorosa afastam as mulheres. "Religioso já sou. Ajuda."

Cada encontro nosso é uma história nova, de um cronista oral, com origens e feições pernambucanas, que incluem expressões regionais e a habilidade de seduzir pela palavra. A última delas tinha cara de fábula natalina.

Ao longo da história, ele repetiu várias vezes: "sou um homem temente à Deus. Ele estava olhando para mim." Tudo começou na última sexta-feira, dia em que a féria do dia estava acima da média. Eram 800 reais, em 150 quilômetros de corridas, só dentro de Santos. Como muitos colegas, ele se inscreveu para fazer uma viagem no final da tarde, início de noite. Seriam mais 200 reais. Já que estava na rua, sem ninguém para vê-lo em casa, por que não engordar o Natal?

Seu Silveira foi chamado pela central de rádio, dirigiu até o endereço do passageiro e, quando virou a última esquina, recebeu a comunicação da atendente: a corrida havia sido cancelada. Ou melhor, a viagem seria de outro motorista.

Seu Silveira encostou o carro e procurou por um dos diretores da empresa de táxi. Havia algum erro na distribuição do serviço. O diretor explicou que não houve falha humana. O sistema da empresa o tirou da lista e inseriu o próximo motorista. E complementou: "Seu Silveira, o senhor é um homem de Deus. Não fique chateado. O senhor receberá outro presente."

O taxista respirou profundamente e ficou em silêncio. Terminou o dia e foi comer no restaurante de sempre. Esqueceu-se do assunto até que descobriu pela manhã, na roda de conversa do ponto, que aquela viagem resultara em acidente. Ninguém se feriu, mas o carro perdeu toda a frente no choque.

Seu Silveira pediu licença, entrou no carro e pensou que era momento de refletir sobre as palavras do diretor, manipuladas ou não. Em um sábado de corrida mais fraca, 96 quilômetros percorridos em 12 horas, ele me agradeceu pela companhia e perguntou: "O senhor tem alguma dúvida que sou um homem de Deus?"

Fechei a porta do táxi, sorri para ele e fiquei de pensar.