sábado, 31 de dezembro de 2016

Stranger Things e a volta da sessão da tarde

Marcus Vinicius Batista

Devorei, ao lado da minha mulher Beth, a primeira temporada de Stranger Things em dois dias. Os oito episódios da série produzida pelo Netflix foram consumidos madrugada adentro, com a ansiedade de conhecer o final provisório da história. Ansiedade foi apenas um dos sentimentos que compuseram um caldeirão de reações nossas, com conversas que incluíram amigos. E paralisação, claro, das outras séries que constituem nosso vício por este tipo de narrativa.

Stranger Things não é uma grande série, daquelas que mudam o rumo da TV pela técnica, pelo marketing ou pelo conjunto de produtos comercializados, como Breaking Bad ou Game of Thrones. E isso não significa demérito algum. A série não se coloca como ambiciosa. Não tem a pretensão de romper com modelos ou fórmulas narrativas. É diversão para marmanjos com vontade de reviver algo que ficou para trás pela idade que corre em sentido oposto.

A série se propõe a fazer uma homenagem, a aguçar a nostalgia de quem nasceu nas décadas de 70 ou 80 e respirou cultura pop dos Estados Unidos. É como se os irmãos Matt e Ross Duffer, os criadores de Stranger Things, falassem para eles mesmos, em audiência pública.

A série é rica em diversidade de referências. Os anos 80, para a indústria cultural, estão ali. Com uma pequena correção, se me permite, a década anterior flutua na questão temporal, pois aparece em cartazes, como Tubarão, ou no fanatismo no grupo de quatro crianças por Star Wars.

A nostalgia funcionou como motor para uma história bem contada. A série se passa nos anos 80 numa pequena cidade qualquer do interior. A guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética serve de cimento para as conspirações que os norte-americanos adoram e nós compramos, temperadas com monstros e alienígenas mais um governo que esconde informações.

No microcosmo de uma cidadezinha, o garoto Will desaparece. As linhas de investigação, da mãe dele, da polícia, de cientistas misteriosos e dos amigos de colégio, conduzem a história, os conflitos e a complexidade de muitos dos personagens.

As referências culturais, nem sempre explícitas, nos empolgavam quando descobertas. A cena nos trilhos de trem, em Conte Comigo, Carrie, as aventuras das crianças em Goonies, as bicicletas em ET, The Evil Dead, Dungeons & Dragons no tabuleiro por horas, He-Man na TV, formam uma lista de almanaque sobre o período. Mas, repito, nada disso adiantaria se não houvesse boa história, boas atuações, personagens interessantes e capricho técnico, do cenário à fotografia, da trilha sonora aos caracteres e nomes dos episódios.

A série é uma colcha de retalhos bem pensada e, por causa disso, escolhe transitar entre gêneros narrativos. Um de seus méritos é saltar do terror à comédia, do drama à ficção científica. A história se sobrepõe aos critérios classificatórios de gênero que, por vezes, engessam uma obra.

Stranger Things será lembrada também por recuperar a carreira de seus protagonistas. Winona Rider e Mathew Modine se encaixam nos papéis de mãe do garoto desaparecido e de cientista-chefe, respectivamente. Eles nos fazem esquecer que a indústria cultural os esqueceu por motivos variados. Como uma boa série não sobrevive sem um bom elenco de apoio, Stranger Things nos fascina pelo grupo de crianças que roubam a costura interior da história.

Os garotos e Eleven, à procura de Will

Os cinco são como nós e nossos amigos, aos 10, 12 anos, quando criamos um mundo à parte, inclusive como sobrevivência na escola. Os quatro garotos mais Eleven, a menina que fala pouco e possui poderes telepáticos, uma personagem que foi abduzida de um livro de Stephen King.

Eu e Beth devoramos a série porque ela nos empurrou para a infância e adolescência, adormecidas pelo clichê de quem envelheceu e sucumbiu ao conforto de dizer: "no meu tempo era melhor". A passagem da história nos anos 80 não apaga sua atualidade, principalmente por causa dos valores mais tradicionais, com relação entre pais e filhos, a construção de amizades, as fugas e perseguições por status, a dependência das convenções sociais e a prática da criação de estigmas.

A lista é nova? Não é e não precisa ser. Basta nos lembrarmos de que muito do que somos brotou e se moldou lá, nos tempos da infância e da adolescência. Lembranças divertidas e recorrentes na imaginação dos personagens da série. Atos, como pactos de amizade, que fizemos e hoje vemos como coisas de criança, sem enxergarmos que repetimos a atitude com pretensa sofisticação, encharcando de verniz que nos fazem parecer adultos.

Stranger Things é sessão da tarde e das boas, do tempo que valia a pena ver TV aberta depois do almoço. Hoje, envelhecemos em formol, mas cientes de que a série nos disse, em oito doses: "seu tempo é hoje!"

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O amor nasce nos neurônios





Marcus Vinicius Batista

Não sentia, há algum tempo, uma sensação contraditória diante de um livro. Acabei de ler Sempre em Movimento, autobiografia do neurologista Oliver Sacks. Passeei pelas 350 páginas em menos de uma semana. Ao longo do trajeto, sentia uma necessidade de avançar na leitura – o livro foi meu companheiro de insônia e de ônibus, entre outros intervalos -, ao mesmo tempo que me incomodava o fato do final do texto se aproximar de mim.

O livro foi publicado no Brasil pouco antes da morte de Sacks, em agosto de 2015, vítima de câncer, aos 82 anos. Ele publicou uma carta tocante falando da própria morte, em fevereiro, no jornal The New York Times.

Conheci o médico por meio do cinema, quando assisti à Tempo de Despertar, filme estrelado por Robin Willians e Robert de Niro, em 1990. O primeiro interpretava Sacks, enquanto De Niro fazia um sujeito que acorda da catatonia depois de mais de 30 anos. Nos anos 70, houve um documentário de mesmo nome, exibido na TV somente uma vez, a pedido dos pacientes.

A história, publicada em livro escrito pelo neurologista, foi ignorada inicialmente pela comunidade médica. Sacks conseguiu por meio do uso de L-Dopa tirar dezenas de pacientes do estado catatônico, num hospital em Boston, e dar a eles, por meses, uma vida ativa.

É evidente que uma autobiografia carrega a tendência em esconder certos aspectos da vida do autor ou ir ao outro extremo, aumentando os feitos da mesma pessoa. Apenas posso dizer que Sacks, além de escrever bem, fato comprovado em uma dúzia de livros com relatos médicos e de pacientes, como Um antropólogo em Marte e O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, teve uma trajetória bastante interessante e, ao mesmo tempo, solitária.

Nascido na Inglaterra, Oliver Sacks enfrentou a reação negativa da mãe – e a omissão do pai – diante da homossexualidade. A mãe chegou a dizer que o filho era “uma abominação”. O tema sempre foi difícil para ele. Primeiro, porque a Inglaterra, até os anos 80, considerava crime a relação homossexual.

Segundo, pelos poucos relacionamentos e a opção por uma vida sozinho. Sacks chegou a ficar 35 anos – entre os 40 e 75 anos – sem um relacionamento amoroso.

Os problemas familiares incluíam a relação difícil com um dos irmãos, Michael, que sofria de esquizofrenia. O pacote familiar o fez se mudar para os Estados Unidos assim que se formou em Medicina, na Universidade de Oxford. Uma culpa que Oliver Sacks tentaria equacionar mais maduro.

O livro também traz a face cosmopolita do médico, inicialmente um pesquisador de má qualidade, depois um clínico sensível e defensor da aproximação entre psiquiatria e neurologia. Sacks, um sujeito apaixonado por motocicletas, encontrou seu caminho na Califórnia e depois em Nova Iorque.

Sempre em Movimento também me interessou por trazer os bastidores dos livros que o consagraram como escritor. Sacks era obcecado por escrever, a ponto de possuir centenas de cadernos que serviram como diários, seja de viagens, do cotidiano, do processo criativo e das relações com os pacientes.

Independentemente das várias faces de Sacks, o que mais admirava nele era a capacidade de se inquietar. Ele foi capaz de reconhecer erros, de procurar novas saídas para tratamentos, de rever sempre o olhar humano sobre os pacientes e, principalmente, sobre a prática da medicina. Compartilhava experiências com outros médicos, poetas, artistas e cientistas de outras áreas. Todos, na visão do neurologista, poderiam ajudá-lo a entender os porquês das ações de seus pacientes.

Oliver Sacks era, como os melhores costumam ser, um homem multidisciplinar e interdisciplinar. Mesclava arte e ciência com naturalidade. Percebia e defendia a necessidade de se associar biologia e comportamento para a compreensão de uma enfermidade neurológica. Transitava entre a literatura científica e de divulgação para o grande público, em jornais, revistas e – claro – nos livros. A autobiografia dele é o 13º obra publicada no Brasil.

Sempre em Movimento é um texto com fluidez incomum, que dá a sensação de estar sentado ao lado do autor, ouvindo-o relatar mais um caso médico como se fosse um romance.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O caminho que machuca o escritor




Marcus Vinicius Batista

O preço do livro é alto no Brasil? Depende de uma série de variáveis. A primeira questão envolve onde o leitor compra o livro. Na Internet, os preços são obviamente mais baixos, pois descartam o ponto de venda (a livraria) e seus custos do processo, que incluem funcionários, espaço físico, impostos, taxas e outros gastos de menor peso.

Grandes redes chegam a ficar com 30% do valor de capa. Em muitas delas, as vitrines são mais um fator de custo. As redes não só compram em quantidades grandes, como pressionam as livrarias independentes (ou de rua), obrigadas a cobrir os preços e manter estoques razoáveis, que também implicam em ônus financeiro.

Neste caminho, ficou mais fácil para o consumidor a chegada da Amazon ao mercado brasileiro. A gigante global jogou os preços abaixo, com sucessivas promoções e descontos generosos. A competição é tão agressiva que ressuscitou a discussão utópica sobre a adoção do preço único para livros no país. 

O debate não gerou a repercussão desejada e rapidamente desapareceu da imprensa segmentada. Muitos livreiros chegaram a citar o caso francês, terra onde se pratica o preço único, mas a informação me soou como fora de contexto, ignorando as particularidades do mercado nacional.

As editoras também entraram na dança, e muitas delas utilizam seus próprios sites para oferecer promoções e descontos de até 50%, inclusive com ausência de frete. É outra tentativa de driblar o convidado que come a maior fatia do bolo e pouco se fala dele na festa.

As promoções direto com as editoras seriam um mecanismo para tirar o impacto das distribuidoras, que costumam morder, em média, 40% do preço final do livro. Em alguns casos, a mordida alcança 50%.

A Internet, por outro lado, abriu espaço para uma série de editoras chamadas de independentes. Independentes porque sobrevivem à margem das livrarias e das distribuidoras. Elas quebram a cadeia e interagem diretamente com o consumidor final, o leitor. A venda é direta via Internet e algumas delas sequer fazem lançamentos. A divulgação também é predominantemente virtual. Boca a boca é tudo. De elemento físico neste processo, só o livro.

Nesta ciranda, sobra para o elo mais fraco da corrente: o escritor. O autor permanece muitas vezes alheio à contabilidade de sua própria obra e limitado aos 10% do preço de capa como direito autoral. 

Por isso, muitos apostam em edições independentes, como formas alternativas de financiamento, deixando de lado a legislação de apoio cultural, por vezes burocrática em excesso e lenta para viabilizar a publicação do livro.

Não acho, mesmo diante de tantas dificuldades, que livro seja um objeto caro. Há múltiplas alternativas e endereços, com vantagens e desvantagens, para comprá-lo. A conversa, neste caso, não é preço, e sim valor. Falaremos disso em breve!

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Dóris quase foi sequestrada




Dóris como marido de aluguel
Marcus Vinicius Batista

Dóris é uma mulher independente, daquelas que não dá satisfação a ninguém. Não revela o sobrenome (muitos acreditam que não possua um), a idade é incerta, mas a beleza permanece intocável. Ruiva, nunca deixa o cabelo crescer, que valoriza o rosto sem rugas e ressalta os olhos azuis. Não tem frescuras com maquiagem. No máximo, um batom vermelho para ganhar o mundo.

Dóris é o símbolo da diversidade que povoa o Café Teatro Rolidei, sede do projeto TamTam, em Santos. Ela não possui braços e pernas, mas a simpatia e o olhar enigmático fazem com que muitos se afeiçoem a ela e a convidem para um passeio. Suas amizades não podem ser medidas por classes sociais, escolaridade ou conta bancária. Só há uma exigência: que a tragam de volta para casa, no Teatro Municipal.

Quando a conheci, usava um vestido vermelho. O chapéu da mesma cor e a echarpe laranja a transportavam para 50 anos no passado. Quando perguntei o que estava vestindo, Claudia Alonso se antecipou: “Ela está colorida e vestida de alegria e felicidade.”

A data de mudança de Dóris para o Café Teatro Rolidei é um mistério. Sua origem é igualmente desconhecida. O nome dela foi inspirado no filme “Conduzindo Miss Daisy”. No caso do TamTam, “Conduzindo Miss Dóris” significa o compromisso de levá-la para o mundo e, segundo Claudia, “pagar o mico de andar com ela em público”.

Saúde faz parte da receita de ser bela

Dóris, um manequim de loja, já esteve em consultório dentário, residências de vários tipos e bairros diferentes e até fez compras na rua 25 de março, em São Paulo. Não se sabe se ela gosta de futebol, mas vestiu outro dia uma camisa do Corinthians. Ganhou, de um fã, uma calcinha com o símbolo do clube da Capital.

A manequim pode ser levada por qualquer pessoa, desde que o “novo amigo” se comprometa a registrar os passeios e devolvê-la para o Café Teatro Rolidei. Todas as imagens ficam guardadas em um álbum de capa preta e protegidas por plásticos. São as provas de que Dóris gasta muita sola de sapato sem jamais ter usado um.

No calor infernal, sem perder a pose

Muitas das fotos são selfies, antes mesmo da expressão inglesa ter sido inventada, registrada no Dicionário Oxford e propagada nas redes sociais. Até montagens são feitas com a moça, nas quais ela é premiada com braços e pernas.

"Sequestro" - No final de 2013, Dóris e o pessoal do projeto Tam Tam passaram por um susto. A manequim chegou a ser dada como desaparecida. Ela foi levada para Cubatão e seu acompanhante não a trouxe de volta. Sequer atendia aos telefonemas dos integrantes do grupo teatral. Ela e seu novo companheiro.

Uma mulher eclética

O retorno da manequim aconteceu no começo de 2014. Sem ferimentos, pedido de resgate ou envolvimento da polícia, Dóris voltou a morar no Café Teatro Rolidei. Quando a conheci, estava elegante e pronta para uma nova viagem.

Abaixo, a definição de Dóris, na visão de seu pai:

“Um mictório, um urso de pelúcia caolho. Um manequim sem membros, expulso, esquecido, encontrado no lixo. Dóris é um símbolo. A arte sem destino contida no homens que circulam em busca da identidade perdida. Dóris foi re-adaptada, foi recuperada. Dóris recuperou nosso cuidar! Dóris contém todas as dores e todos os nossos risos! Por isso, tem que saber cuidar! Dóris é mais que um amigo, é mais que uma terapia ambulante. Dóris é mais que a justificativa para a solidão contemporânea! Muito prazer: ela é assim!" (Renato Di Renzo)


segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O alquimista e a missa




Marcus Vinicius Batista

Uma amizade não tem endereço combinado ou hora marcada. O sujeito vira amigo e você só descobre a origem do relacionamento nas conversas tempos depois, daquelas que podem gerar risadas ou lágrimas. Ou ambas.

Cid Marcos Lima virou meu amigo numa missa. Foi meu colega de empresa, depois virou meu aluno, tornou-se meu vizinho de laboratório e colega de docência. Os cinco anos que passaram por um banho de emoções em 20 minutos de ritual religioso.

Cheguei atrasado na missa de sétimo dia da mãe dele. Fora um dia de relógio contado, de compromissos encaixados, de pressa e pouca reflexão. Entrei na Igreja Nossa Senhora dos Passos e desacelerei. Morte proposital do celular, concentração num ponto adiante, o altar, mais alguns minutos de meditação e solidariedade a um colega.

Via-me de certa forma nele, pois minha mãe morrera dois anos e meio antes, mas entendia que não estava lá por isso. Não estabelecera uma conexão entre nós por este motivo. Era um gesto de respeito a um colega de trabalho.

Quando a missa terminou, fui à primeira fileira, como todas as pessoas, para prestar condolências. Quando Cid me viu, nos abraçamos. Ele começou a chorar e a agradecer minha presença. Só consegui dizer: “era o mínimo, era o mínimo”. Os olhos ficaram marejados, eu o abracei novamente e me despedi. Tinha que ir à faculdade dar aula. O dia seguia no morde e assopra.

Na mesma semana, começamos a conversar sobre nossas vidas, nos intervalos na sala dos professores. É o melhor remédio para fugir dos colegas que ficaram viciados em tagarelar sobre provas, notas e comportamentos (ruins, quase sempre, na visão catedrática) dos alunos.

A amizade começou a se construir pela ausência de nossas mães. Conversamos sobre a morte – é difícil achar um interlocutor que queira mexer nesse tema-tabu -, sobre os sentimentos que a envolvem. O primeiro passo estava dado.

Com o tempo, as conversas e os encontros se estenderam às nossas esposas. A amizade cresceu em progressão geométrica, fizemos amigos em comum, incluímos meus filhos, e as histórias de vida se cruzaram com naturalidade. As encruzilhadas com outros personagens, os enredos com subtramas semelhantes, intersecções de tombos e poeiras sacudidas.

Da missa, me tornei amigo de um alquimista. Cid transforma pessoas pela convivência. O artificialismo que mora nele reside sozinho nos cabelos pintados de amarelo. A naturalidade ocupa todo o resto do território. As camisetas são tão coloridas quanto o sorriso antes do boa noite.

O tênis All Star calça a alma jovem, que contradiz os 49 anos da carteira de identidade. Qualquer desafinada de avaliação desmorona quando o músico sobe no palco de boné para trás. A imitação perfeita da voz de Dinho Ouro Preto ou o timbre bem parecido com o de Herbert Vianna. Tocar é uma desculpa para manter vivo o humor, que disputa vaga com a disciplina diante da arte, em qualquer das duas bandas, Discover ou Insistentes, ou no violão e voz.

Cid é tão disciplinado quanto fã de tecnologia. Admiro quem se dispõe a passar horas esmiuçando (o verbo que ele usa é outro, mais comprometedor, como um papel de seda) um manual para melhorar seu desempenho como fotógrafo. Ou para melhorar um equipamento auxiliar de show. Ou para sofisticar a edição de um vídeo.

A seriedade se apossa do fotógrafo. O riso retoma a liderança entre os cliques. Artista não tem a ver com boca mole. Artista é busca pela perfeição, pelo auge da expressão de uma ideia maturada por longo tempo. A imagem de um leão cansado, de uma escultura africana ou de crianças saltando na piscina do sítio têm valor idêntico, que perdem apenas para a convivência de fotografar entre amigos, pelos amigos e para eles.

Cid Marcos Lima não é Midas; caso contrário, estaria longe daqui, mas tem a habilidade de transformar o que toca em arte, sem alarde, sem empáfia, sem marketing pessoal (até demais), sem a soberba dos charlatães da cultura. 

Costumo me divertir quando conversamos sobre tecnologia. Ele fala de termos técnicos como se batesse papo sobre ingredientes de uma pizza. A naturalidade dele se contrapõe à minha cara de paisagem e o balançar de cabeça positivamente, feito bonequinho canino de traseira de carro.

As palavras em inglês, de nomes de equipamentos a expressões do idioma, pertencem ao repertório dele, tão divertidos no meio das frases, como as gírias e as caretas que descrevem os personagens alheios. Na lição involuntária deste professor, aprendi a imitá-lo em seu trejeitos.

Ser multiverso está na biografia dele. Trabalhou com joias, em turno de fábrica em Cubatão, em setor de fotocópia de universidade, como técnico de estúdio. Na música, tocou em casas noturnas para 1300 pessoas. Noites de Carnaval lotadas como cordão de abadá na Bahia. Por outro lado, testemunhou na carne o esvaziamento da força dos músicos na cidade.

Cid é meu professor mais recente na cozinha. Na lapidação específica do churrasco. Picanha de forno, pernil, maminha, carne de porco. “Vamos matar o bicho”, ele brinca. Cid, por exemplo, aprendeu a amolar as facas com o cunhado de origem japonesa. Ele as carrega em cases, como faz com os instrumentos musicais. Comer é a lição do compartilhar.

No último encontro nosso, Cid transformou a água dos bifes em um saboroso molho madeira. Quatro dias antes, tornei-me – graças à pedagogia do mestre – mais preciso no preparo do vinagrete. E para 30 pessoas!

Nossas mães se foram, inclusive, para nos aproximar. A missa mudou nossa liturgia. A Cultura encontrou na afinidade o empurrão para criarmos juntos. A arte e a tecnologia me deram um professor além dos muros da escola, daqueles em que as conversas fora da sala trazem as melhores lições.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Não gosto do Natal



Paula Vinhedo

Não gosto do Natal. Olha, não se trata de um antagonismo ao réveillon, daquelas opiniões que estabelecem um termômetro de alegria para que o Ano Novo vença a enquete.

Não gosto do Natal e o comparo com ele mesmo. Quando digo “não gosto de Natal”, é preciso esclarecer: a noite de 24 de dezembro. O Natal é uma data melancólica, na qual predomina um protocolo de excessos, determinados por uma cartilha de comportamentos, vista como muito mais importante do que as pessoas.

Não troco um amigo de fé por uma árvore iluminada. Não troco um parceiro de vitórias e derrotas por um cunhado ou primo oportunista ou uma guirlanda. Pessoas que muitas vezes não escolhemos para ver o ano todo e somos obrigadas – ou nos obrigamos – a conviver com sorrisos, abraços e palavras decoradas de bem-estar. Tudo embalado com músicas chiclete tão deprimentes quanto a abertura do Fantástico no domingo à noite, a lembrança sonora de que a realidade é sempre outra.

O Natal não transforma, como em filmes da Disney, as pessoas. Ninguém apaga o que fez, o que disse, durante o resto da história em uma garfada de chester ou de tender bolinha. Passamos a acreditar, como se fosse um inconsciente coletivo, que o espírito natalino está em todos. É premissa de todos. É inerente a todos. A vida dá uma parada para a entrada triunfal do conto de fadas.

O Natal, em muitas ocasiões, é um festival de obrigações. Obrigação de dar presentes para quem não merece. Ou se desesperar para comprar algo, de forma apressada, às cotoveladas em lojas de shopping, gastando-se o que não tem, para cumprir o prazo. Dar algo com carinho depois da data parece uma heresia digna de fogueira em praça pública.

Vejo uma dança de convenções sociais acima da média do dia a dia. Parecer feliz. Parecer amável. Parecer cordial com quem te prejudicou várias e várias vezes. Abraçar quem te discrimina. Ir na festa da firma para não parecer antissocial e engolir a seco a caridade de quem te detesta ... ou te escraviza. Vender-se por um panetone. Lamber o saco alheio por um peru (sem intenção de trocadilho). Viver uma catarse como se tua empresa fosse modelo acima do capitalismo.

Não gosto de romã. Como lentilhas por obrigação. Prefiro nozes como sorvete ou em recheio de bolo. Castanha do pará me faz pensar em dieta alimentar. Frutas se amontoam na mesa, com risco de perder, pois foram compradas em quantidade para alimentar um campo de refugiados. Por que temos que comer um cardápio padronizado, onde a sofisticação não supera muito – aliás, bem pouco – um almoço de domingo com aniversário?

Passei, durante anos, o Natal com parentes que só via uma vez ao ano. Justamente, no Natal. Gente que queria me ver pelas costas durante 364 dias. Que nunca perguntou sequer se eu estava bem. Que exercitava a maledicência como se caminha todo dia para se manter saudável. Gente que roubou, caluniou, fofocou e segue a cutucar nas entrelinhas da festa onde todos parecem alegres e bondosos.

Respeito o Natal alheio. O que não suporto é a obrigação social – e os olhares reprovadores para quem sai do script escrito sei lá por quem – de ouvir músicas irritantes, de viver um falso contentamento somente para repetir uma tradição como se fosse um ritual supersticioso. Se não o fizer, o ano seguinte será de desastres, tragédias e frustrações. E muitas vezes não o é, mesmo que você tenha entornado uma panela de lentilhas e engasgado com uma arroba de romãs?

O Natal que respeito é aquele que ultrapassa os limites do 25 de dezembro. É o Natal que segue os valores que o criaram. É o Natal que acontece todos os dias, com respeito, tolerância, amizade e convivência cheia de cumplicidade. É o Natal de quem não precisa me dizer Feliz Natal com palavras decoradas de atendente de loja de fast food.

É o Natal de quem está sempre ao lado, mesmo que não esteja do meu lado. O Natal não me representa quando é a festa do vou dar qualquer coisa para dizer que dei. Inclusive sentimentos que fingem ser amor.

O meu Natal é para poucos. E esses podem ser ou não com minha família de sangue. Depende deles, se são capazes de se libertar da cartilha. Família de sangue é um conceito tão fantasioso quanto o Papai Noel, mas esta é uma fábula para outra festa.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Salvando as joias da Espanha



Marcus Vinicius Batista


Lauro desceu do ônibus cantando após duas horas de estrada. Na voz, pedaços da música “Tocando em frente”, de Almir Sater e Renato Teixeira. Ajudou a retirar as bagagens do ônibus, que levara e trouxera 20 pessoas da confraternização de final de ano, num sítio em Pedro de Toledo, no limite entre o Vale do Ribeira e a Baixada Santista.

Depois de tudo no chão, ali no Canal 5, começou a divisão do que sobrou do churrasco. Picanha, maminha, linguiça com queijo, presunto, sucos. Lauro, que voltaria a pé para casa, numa caminhada de 20, 25 minutos, escolheu umas dez latas de cerveja. Tinha experimentado a marca de origem espanhola no churrasco. Adorou.

As latinhas caberiam numa sacola de supermercado. De bagagem, só uma sacolinha de loja de cosméticos, que abrigava uma camiseta sobressalente. A neta e a sobrinha-neta dormiriam na casa da filha e do genro. Voltaria sozinho. Era a receita para abrir mais uma latinha e seguir assobiando o refrão de “Tocando em frente”.

Lauro se despediu de todo mundo, disse que estava “tudo na moral, camarada”, não precisava de carona. Andou três quadras e começou a pingar mais forte. “Dá pra chegar em casa”, pensou.

Mais uma quadra e caiu o pé d’água, daqueles que os pingos machucam, feito chuveiro de jato forte. Lauro decidiu se abrigar embaixo da primeira árvore. A decisão não parecia eficiente, já que escapava do volume de água, mas recebia os pingos selecionados pelas folhas e galhos na cabeça. A camiseta começava a grudar.

Ele decidiu que era melhor continuar a caminhada. Molhado estava. O apartamento seria a linha de chegada. Banho quente e cama. A chuvarada colocaria para fora o restante da últimas latinhas consumidas no churrasco.

Na quadra seguinte, a chuva deu o sinal de que não pararia por reza, macumba ou decreto. A sacola de supermercado se rompeu. Como Lauro já tinha tomado a latinha debaixo da árvore, ele estava com um dos braços livres para encurralar as fujonas no muro. As latinhas insistiam em rolar rumo ao meio-fio. Medidas urgentes para um instante de emergência.

Se estava na chuva, era para não se preservar. Lauro foi para o sacrifício. A sacola menor, com a camiseta sobressalente, estava encharcada. Ele a enrolou até que coubesse no maior bolso da bermuda. E as cervejas? Ele tirou a camiseta, colada ao corpo, transformou-a numa trouxa e salvou as dez latas de cerveja. Deu um nó em cada ponta, jogou a trouxa no ombro e apertou o passo na chuva.

Quinze minutos depois, o telefone tocou na casa da filha. “Lila, cheguei em casa. Não sabe o que aconteceu. Salvei todas as latas de cerveja.” Lauro ria e pensava no aniversário de 71 anos, que faria em dois dias.

Na noite do aniversário, as cervejas estavam lá, trincando de geladas na cozinha. Faziam companhia à concorrente alemã, que o marido da outra filha comprou para a festa.

Só depois do bolo, Lauro confessou: aos 71 anos, a caminhada como anfíbio para salvar as preciosidades espanholas tinha dado a ele uma gripe. Uma febre que o deixou de cama o dia anterior todo, prostrado no sofá diante da TV. Aí todos entenderam porque tamanha quietude no próprio aniversário, mas com o presente estocado no cofre que gela, ali do lado, na cozinha.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Amigos




Marcus Vinicius Batista

Final de ano exala cheiro de balanço. Não me agrada este tipo de contabilidade, mas parece que, com a idade, aprendi a necessidade de fazê-lo, mais para purificar a mim mesmo do que acertar as contas. Essas exigem olho no olho, além da capacidade de qualquer texto.

Nada de exibir façanhas, computar vitórias e erros. Aqui, falemos de pessoas, de gente que ministra aulas cotidianas de convivência. Não é uma lista dos dez mais, ranking dos notáveis ou compêndio dos eleitos. É uma forma de reconhecimento e gratidão, moedas caras num mundo no qual muitos humanos começam a se ausentar.

Meus melhores amigos voltaram, a quem amo na fronteira da dor física desde que nasceram. Mari e Vini retornaram à casa de quem sempre será de direito afetivo. A pena, de dois anos, terminou. Saudades que podem ser remediadas, eu te saúdo!

Perdi amigos. Wagner, o cinegrafista/jornalista que enxergava gente por várias dimensões. Valdir, o companheiro de peladas que me elogiava por ser um adversário difícil e contava histórias de cachimbo na boca. Paulinho, ainda acho que vou te encontrar na banca, para conversas de minutos que parecem e valem por dias.

Vi amigos perderem por injustiça da burocracia desumanizada (é redundante, eu sei, mas aposto na ênfase). André, meu irmão, e André, meu amigo poeta, vocês estarão no lugar onde a competência os chama de parceira. A literatura é a arma. Não existe sorte. Existe decência e postura, impregnadas naquilo que fazem.

Tenho saudades de amigos que a quilometragem teima em tentar afastar. Gazú, Léo e Syl, amigos de décadas, de fato ou por simbolismo, a tecnologia está entre nós para não coloquemos o mapa do Brasil entre a gente. Vamos usar e abusar dos simulacros.

Fiquei mais perto de amigos que um dia estiveram sentados à minha frente, para ouvir, dialogar, aprender e também me ensinar. Cidinha e Thaís, semelhantes na generosidade além do tamanho diminuto. Grandeza não se mede em centímetros corpóreos, mas em polegadas de ações e conversas verdadeiras.

Cultivo, na medida do possível, amigos que só fazem semear e me permitir colher o fruto no ponto. Ewa, conhecedora de todos os (meus) cantos entre as vias que interligam coração, alma e cérebro, das lineares as que se escondem atrás dos arbustos. Celi, precisa na escolha da hora em estar por perto, ouvidos enormes, conversas de duração biográfica. 


Lauro e Português, homens de mesma idade, filhos da mesma geração, presentes para dar a mão quando minhas mãos e as de Beth não conseguem carregar um desejo, um sonho, uma realização.

Descobri sem procurar – e aí reside o prazer da surpresa, a alegria da contemplação – amigos de pouca data, mas de riqueza e antiguidade museológicas. Cid, saímos da missa para entrar na história um do outro. Júnior e Renata, professores com diploma na parede ou não, as aulas são sempre regadas pela mineirice doce de um pão de queijo com sabor de causo.

A crônica nasce para contar um instante, para esmiuçar uma página, nos detalhes de uma foto 3X4, com suas rugas e feições únicas. Assim, repito, não é lista, é um panorama breve, construído numa madrugada de insônia sentimental. Sabemos onde o calo cutuca, o sorriso brota e a lágrima escorre. Você que lê, sinta-se também abraçado.

Não posso reclamar de 2016. Se o fiz, foi para ser coerente com a cultura da qual faço parte. 2016 trancou 2015 no baú para salvar as experiências, mas jogou a chave fora.

Em 2016, amei muito, viajei como nunca, escrevi bastante, li mais ainda, cheguei a endereços essenciais, mudei para um endereço jamais visto com quem é vital para mim. Vivi como poucos anos. Convivi melhor do que os calendários anteriores.

O problema é que, por inerência, sou um sujeito falível. Para 2017, uma resolução de réveillon, mais para cara de primeira do que única: me aproximar do meu amigo mais antigo, aquele que inoculou em mim qualidades e defeitos. O amigo que, como todos demais deste texto, é exemplo. O primeiro a dar exemplo.


domingo, 18 de dezembro de 2016

Santos, a gata borralheira



Marcus Vinicius Batista

Era uma vez ... uma moça de mais de quatro séculos que caiu no conto da carochinha. Ela ganhou um convite para o baile mais importante da vida dela. Era o reconhecimento para quem trabalhava todos dias, via seus amigos sem trabalho, ganhava um salário abaixo da média do mercado fora dali, mas pagava todos os impostos. Com ou sem a desculpa da crise.

O baile tinha data marcada: 2 de outubro. Todos estariam lá. Vestiu a melhor roupa, na esperança de encontrar o príncipe. O homem encantado pelo marketing político a encontrou. Estava montado num cavalo branco de nome VLT.

Os dois dançaram a valsa no meio do salão. Ela, conhecida como terra da caridade e da liberdade, esperava pelo beijo que a tornaria a número 1 para se viver. No meio do salão, lembrou-se da recomendação daquela velha, a política. Corra para casa quando começarem as 12 badaladas da urna eletrônica. E jamais, jamais, aperte o botão sem pensar em todos os caminhos que esta história, que a sua história pode tomar.

Quando ela ouviu a primeira badalada do sino, despediu-se do príncipe e tentou correr. Na pressa, esqueceu-se de um sapato, feito de cristal, de grife quatro anos. Aos tropeções, alcançou a carruagem, que havia virado abóbora. O feitiço começava a fazer efeito.

O cocheiro estava ali parado, perdido. “Não sei onde estou. Meu partido me indicou para levar uma moça, mas ...”. Machucada pelas quedas, a gata borralheira pediu que a levasse ao hospital mais próximo. “Não posso, ele ainda não abriu. E, se abrir, só terá maternidade. Você está grávida, moça?”

Chorando na calçada, ela testemunhava o fim do encanto. As luzes que deixavam o castelo colorido desapareceram. O Natal seria sombrio. Os fogos de artifício, que traziam barulho e contemplação, deram lugar ao breu da meia noite.

Os convidados, que saíam do baile sem entender, não vestiam mais roupas de gala. Usavam trapos de segunda mão, sem dinheiro para viver aquela noite carnavalesca. As roupas teriam caído no grande rio que passa ao lado do castelo?

O buffet recolhia as travessas, copos e pratos. Antes, de prata. Agora, de papel e plástico. Também estava sem dinheiro. O resultado da festa, que entupia os latões de lixo, talvez ficasse por ali mesmo. Amanhecesse nos cantos do salão e do castelo. Depois da meia-noite, junto com a abóbora, vieram as notícias de que muita gente estava sem receber.

As irmãs e a madrasta faziam caras de horror. Fingiam não saber o que acontecia. Tudo havia se transformado. Quem seria a bruxa que as enganara? Como a irmã delas, tão experiente quanto, caíra no conto do vigário (que não é desta história) e mordera a maçã envenenada (que também não pertence a esta fábula)?

O final feliz não existe nesta história. 77% das crianças compraram a versão da Disney pela TV, rádio e Internet. Era, bem verdade, só o trailer bem editado e exibido no Horário Eleitoral Gratuito.

Nas linhas pequenas do contrato, a explicação: esta versão do conto de fadas é baseada nas histórias europeias do século 19, transmitidas à beira da fogueira, no meio da floresta. Nelas, o final é sempre para aterrorizar as criancinhas sobre os perigos do mundo. Não 77% das criancinhas. Todas!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

35 anos de prisão

Cadeia Velha de Santos (Fonte: Revista Relevo)

Marcus Vinicius Batista

Desconfio que meu passado serve de desculpa para aqueles que me prejudicam. Não há rastro do presente que signifique tamanha punição. Uma punição que envolve silêncio quase todo o tempo. Silêncio sobre meu futuro. Mudez sobre como será minha vida no próximo ano.

O silêncio me paralisa e me deixa trancada. Quando a palavra chega, vem em formato de promessas. Quando não são promessas, ouço que é preciso consultar outra pessoa sobre minha liberdade. Quando procuro um terceiro, vejo os ombros balançando, as sobrancelhas tentando esconder os olhos que dizem: não é comigo.

No meio deste ano, acreditei que receberia o habeas corpus. Ganhei o direito ao regime semiaberto. Trabalhava durante o dia, me recolhia no final da tarde. Confesso que estava feliz da vida. Pensei que meu passado de virulência, de prisões, torturas, perseguições, todas as violências que testemunhei no século passado seriam enterradas. Nunca fui cúmplice. Fui um instrumento do autoritarismo.

Voltei a ver gente com interesse em ficar perto de mim. Gente pensante, de cérebros inquietos, corpos agitados e crítica social no peito e na alma. Mas deveria ter percebido: a política adora fazer de mim sua escrava.

Ao calar das urnas, logo após a ressaca dos votos, os sujeitos de sorrisos amáveis e canetas endurecidas cassaram minha liberdade. Novamente. Só posso desconfiar do meu passado como causa. Mantenho minha postura ereta, mas com zíper na boca. Testemunho a praça dos Andradas como ritual de passagem. Pessoas apressadas, trânsito nervoso, ônibus de dezenas de CEPs.

Vi ator ser preso pela polícia por ter brincado com a própria Polícia, numa reprise de um passado que me arrastou para dentro dele. Mas vi com esperança centenas de pessoas ocupando meu quintal, enquanto desejam frequentar minha casa.

É essa turma que luta por mim. Conversa, protesta, produz arte, pressiona os sorridentes das canetas sem humanidade. São os incansáveis que querem organizar meu aniversário. 35 anos. De portas abertas para a Cultura. De portas fechadas para a conversa fiada de quem me considera supérflua.

Vivo hoje pela gana dessa gente, que quer me visitar com mais intimidade. Sonho com este dia, sem depender de favor, sem ouvir a baboseira do dinheiro que evaporou e não poder retrucar.

Aguardo a chance de dizer: sejam bem-vindos. Muito prazer, Cadeia Velha de Santos.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

O sonhador e a sensata



Marcus Vinicius Batista

Ele chora feito criança quando se lembra de quando era menino. Ele sorri tal fosse moleque ao receber algum amigo, antigo ou daquela hora, em sua casa, onde voa baixo 10, 12 horas ao dia. Ele vibra como se tivesse 10 anos, depois de contar uma história que esbarra na mentira, flerta com a fantasia, namora com a verdade e engana a todas.

Ela observa os saltos dele. Pensa antes de andar, reflete depois de chegar, pondera ao repousar. Ela desconfia do sorriso fácil de quem chega, sem que o visitante perceba. Ela sorri ao natural nas vezes que se sente estrangeira numa terra que lhe passa segurança.

Ele sonha em espalhar o amor, semear a arte, cultivar a convivência. Ela o segue de punhado em punhado, a cada buraco onde ele planta, cúmplice no arado e na fertilização de segunda à sábado, com amanhecer às 9 horas e alvorecer, oficialmente, dez horas depois.

O sonhador não deseja o que é dos outros. Deseja que os outros venham. Ele descansa com os olhos abertos, e mantém o gingado depois de horas em pé, conversando, ouvindo, falando ao pé de ouvido, explodindo por gente, até que os olhos avermelhados de exaustão são desmentidos pelo sorriso e pelas palavras de pontapé inicial.

Ela é objetiva para criar. Não devaneia, toma o giz em seu poder e decora uma das paredes da casa. Assim como o sonhador, a sensata ensina pelo exemplo, nada de teorias.

A árvore de Natal, traçada enquanto o café alcança a mesa, se faz de convidada ao lado do cardápio, recebidos pelo anfitrião gramofone que sussurra aos 106 anos. Como sapatos, livros de todos os jeitos, sem gêneros, sem épocas, sem estrelinhas do caderno cultural de final de semana.

O sonhador sequestra o giz da sensata e impõem o motim na calçada. Nela, um cavalete conta histórias de efeitos para clientes e caminhantes passageiros. O poema cai para a ressurreição do slogan, que desaparece para a frase do dia, desatualizada pelo chá mate com hortelã ou a torta de banana ou o queijo da Serra da Canastra. Todos apontam o dedo e recitam: seja bem-vindo. Sentado paga a mesma coisa.

O cavalete é o alerta de que o dia recomeçou, com a renovação dos votos ao pão de queijo, com o café enamorado pela torta, o refrigerante orgânico que faz escada à cerveja artesanal, ambos coadjuvantes de uma ciranda de chup-chup, feito caixa de lápis de cor na geladeira que tornou o picolé da marca mais famosa um figurante de luxo.

O sonhador sabe ser sensato. Não cai na esparrela de tratar todos como padrão. Abre a vida para os de sempre, que já desfiaram biografias antes dele. Serve um café, batiza o freguês com pão de queijo, mesmo que ele venha com o golpe da nota de cem reais para fugir da conta do expresso e sua fumaça.

Quebrado nos pés protegidos e esmagados pelas botas de algum canto das Minas, o sonhador se senta e se descalça para, em vias de sensatez, enfrentar a matemática que assegura o retorno no dia seguinte, na próxima segunda-feira e assim por diante. É o mesmo sujeito que se debruça para estudar o rótulo de um produto, procurar por um fornecedor de chocolate no interior gaúcho ou só para experimentar o suco de laranja do concorrente da semana.

A sensata também conhece os caminhos do sonho. Lado a lado, ela assina embaixo dos pecados de quem camufla delirar ou alucinar, consciente de que foram os sonhos que os empurraram para o alto da ladeira, entre ranhuras de barro, deslizes de pedregulhos e lágrimas que pediam para desistir na próxima manhã.

O sonhador e a sensata entrelaçaram as mãos e escaparam dos palpiteiros, driblaram os oportunistas e decidiram erguer a vida à beira do mar, às margens do canal e na nascente de novos amigos, alguns com título de família.

A insanidade de chutar para o alto e agarrar com os próprios braços deu a eles um garoto. Iago, o menino com nome-sufixo de santo, traz os olhos do pai e as feições da mãe. Mas ele é filho de quem diz ser pela capacidade de correr em ritmo de sonho a ponto do pai rezar por sensatez e por desligar a fonte de energia no fechar dos olhos, que fazem brotar o amor materno, desintegrado de quaisquer traços de racionalidade.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

A mulher que nunca viu Adriana Esteves


Mariana é a atriz de gorro, na estreia da peça "A Terra
pode ser chamada de chão" (Foto: Rafaella Martinez)

Marcus Vinicius Batista

Mariana Salgado, de 25 anos, é uma das funcionárias do projeto Tam Tam. Ela faz parte do grupo há dez anos. Cuida da parte administrativa, organiza o bar e fica na bilheteria em dia de balada, quando também atua. 

Mariana decidiu ser atriz aos 12 anos. Ela poderia dizer que se aproximou do teatro para ser uma celebridade, por razões políticas ou pelo desejo de mudar o mundo. Mas a resposta é direta: “Queria conhecer a Adriana Esteves.” 


Em 25 de fevereiro de 2003, aos 14 anos, escreveu uma carta para a atriz carioca. O texto foi registrado em uma folha de papelão, mas Mariana preferiu não colocá-lo no correio. A paixão, que começou quando Adriana Esteves trabalhou na novela “Coração de Estudante”, levou Mariana a tatuar no braço o nome da atriz. Na verdade, tatuagens provisórias, feitas com ponta de compasso e preenchidas com tinta de caneta. 

Nesta época, ela pediu ao pai que a matriculasse em um curso de teatro. A primeira tentativa, no Senac, deu errado. A turma não abriu por falta de alunos. Conseguiu a matrícula na
Escola Livre de Artes Cênicas, que funcionava numa casa na rua Julio Conceição, na Vila Mathias, em Santos. Lá, ouviu falar do Café Teatro Rolidei.

Mariana passou a frequentar todas as baladas, às sextas e aos sábados. Mesmo quando começou a trabalhar como voluntária no café, preferia ser público. “Passava a noite toda dançando. Chegava lá à tarde, arrumava o café, voltava para minha casa, tomava banho, me arrumava e retornava para o café, onde ainda pagava entrada. Gosto de ser público.” 

Estudar e respirar teatro não mudaram o sonho dela. Aliás, houve uma adaptação. “Sonhei que ela entrava no Rolidei comigo.” O primeiro trabalho no Café Teatro Rolidei foi uma sátira à novela “Alma Gêmea”. Renato di Renzo, impressionado com a devoção da atriz iniciante, escreveu um esquete chamado “Alma que geme”. 

Decoração do Rolidei
(Foto: Beth Soares)
Mariana interpretava a personagem Serena Bartira, que vestia uma boia de patinho. O nome vinha da personagem interpretada por Priscila Fantin na telenovela. O sobrenome, da famosa índia dos tempos de Martim Afonso, em São Vicente. 

Homens feios – Hoje, Mariana só encarna personagens masculinos. “Gosto de fazer quem não sou.” Seus personagens ganham voz grossa, trejeitos embrutecidos e são carregados na maquiagem. Para Mariana, eles precisam ser feios. “O legal é o bizarro.”

Antes de ser atriz e trabalhar no Café Rolidei, Mariana Salgado teve trabalhos distintos. Vendeu sorvetes, animou festas e distribuiu “santinhos” de políticos em campanha eleitoral. De um deles, recita o jingle com se estivesse em dia de eleição: “Marcelo Bueno é nosso amigo presente em todos os tempos. Marcelo Bueno, 14 mil e 500.” A cada vez que escuta o texto,
Renato di Renzo dá risada e balança a cabeça.

Mariana Salgado sofreu, na infância, com os tiques nervosos. Ansiosa, piscava demais e o rosto se contraia. Como consequência, era motivo de risadas na escola. “Uma vizinha chegou a dizer que me penduraria na árvore de Natal.”

Segundo ela, o teatro foi o melhor remédio contra a ansiedade e os tiques nervosos. Em cena, tudo passa. Pelo
Tam Tam, ela conheceu diversos lugares pelo país, como Brasília, e no exterior, como Portugal, Argentina e Uruguai.

Em 2013, Mariana Salgado viajou com a mãe ao Rio de Janeiro. Visitou o bairro de São Conrado, onde fica a casa da atriz Adriana Esteves. Contentou-se em passar na frente da residência, em silêncio.

Antes de viajar ao Rio, ela havia escrito uma segunda carta para a atriz carioca, exatamente dez anos depois. Mais uma vez, não a enviou. “Ainda não é a hora de eu vê-la.”

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O tempo dos livros


Marcus Vinicius Batista

Após o almoço de domingo na casa de meu pai, resolvi abrir o armário de livros, que fica em um dos corredores do apartamento. As prateleiras são organizadas por assuntos (literatura estrangeira, nacional, jornalismo e futebol), rastros deixados por mim por conta de uma biblioteca lotada na minha própria residência.

Fui na terceira prateleira, de cima para baixo, onde ficam os títulos policiais, de suspense e de horror. Era a leitura que me interessava para ocupar parte daquela tarde. Entre Agatha Christie e Stephen King, peguei Sacramento, de Clive Barker.

Sacramento é um romance da década de 90, que oscila entre a fantasia e o horror. A história de um fotógrafo de animais que, ao ser atacado por um urso e entrar em coma, resolve retomar uma experiência misteriosa da infância, no interior dos Estados Unidos. Barker é um excelente autor e ficou conhecido pelas adaptações de Hellraiser para o cinema.

Ao abrir o livro e ver o selo da extinta Livraria Iporanga, em Santos, entendi porque aquela obra descansava ali, na casa de meu pai. Comprei Sacramento em 1996, quando tinha 22 anos. Queria experimentar o trabalho do autor, que me agradava com a série Hellraiser.

Lembrei-me também que havia lido as 50 primeiras páginas, mais ou menos, e que tinha detestado a história. Condenação sumária: 18 anos de reclusão na terceira prateleira. Não me recordo se houve transferência de presídio literário.

Resolvi, aos 40 anos, dar um indulto ao livro. Melhor decisão impossível! A obra é excelente, bem costurada, com personagens sólidos, com profundidade psicológica e com a permissão de várias interpretações por parte do leitor. Foram duas semanas agradáveis até terminar de percorrer as 550 páginas do romance.

Sacramento reforçou uma lição que hoje é cristalina para mim e nebulosa, quando eu tinha 22 anos. O problema não era o livro, e sim o leitor. Eu não estava pronto, talvez maduro o suficiente para compreender as nuances literárias de Clive Barker. Talvez, pela juventude, estivesse afobado em demasia para que o texto me desse informações e prazeres de uma só vez, e não em conta-gotas, no morde e assopra dos bons romances. 



Clive Barker me fez lembrar de dois autores brasileiros. Qual a relação entre o inglês e Carlos Drummond de Andrade e José de Alencar? Aos 20 anos, li em uma madrugada O Observador no Escritório, de Drummond. Adorei o livro, mas preciso relê-lo para saborear melhor as sutilezas dos ingredientes.

O Observador no Escritório me redimiu com o poeta mineiro. Três anos antes, às vésperas do vestibular, resolvi dissecar A Rosa do Povo, convidada frequente das listas de USP, Unicamp e Unesp. Era uma obra de poesia da década de 40, que – ingênuo, li no ritmo de prosa. Não entendi lhufas!

O tempo do leitor não é o tempo dos livros. Obras literárias existem para leitores imprevisíveis no tempo e no espaço. Depende do ambiente de leitura, da edição do livro, do estado emocional do leitor naquela ocasião, dos desejos e necessidades de quem se dispõe a virar a primeira página.

Na mesma época do vestibular, passeei de cabo a rabo por O Guarani, de José de Alencar. Um livro importante historicamente, mas que me chateou ao extremo, por conta das descrições intermináveis de cenários e personagens. Preferia – e assim prossigo – fã de um desafeto de Alencar, Machado de Assis, que o tempo se encarregou de eternizar como o melhor escritor brasileiro de todas as épocas.

Nunca mais voltei a dialogar com José de Alencar. E 20 anos não foram necessários para a redenção. Ele que me perdoe!

sábado, 10 de dezembro de 2016

Feliz aniversário, Yoda!



Marcus Vinicius Batista

Quando seu filho me abraçou, na frente de centenas de pessoas, no Mendes Convention, segurei as lágrimas no limite. Ele estava aos prantos enquanto recebia a colação de grau em seu nome. Eu só consegui dizer a ele, durante o abraço: “seu pai era brilhante! Excelente! Um orgulho ser amigo dele!”

Você sabe disso, pois tenho certeza de que nos observava de algum canto. Quem sabe ao lado? O que você não sabe é que levei 11 meses para conseguir te escrever. Sei que me atrasei. Nós havíamos combinado uma crônica (pode ser carta?), logo depois de você ter visto a pré-estreia de Star Wars, em São Paulo.

Você me deu suas impressões sobre o filme, com pedido de sigilo, exigência da produtora. Eu prometi a você que faria uma adaptação e publicaria um texto. Não consegui. Não tenho explicação. Qualquer argumento seria mais do que uma desculpa esfarrapada, uma mentira.

Travei. Paralisei. Nunca contei a ninguém. Apenas protelei o que se transformou numa dívida entre amigos, daquelas que ambos perdoam. Nunca um fardo. Jamais uma obrigação.

Desconfio que seja uma das artimanhas que usamos, na esperança de congelar uma pessoa querida em vida. Evitando mexer em certos guardados, acreditamos que eles nos manterão próximos de um passado que o tempo se encara de distanciar bem devagar. Simplesmente, não escrevi, logo eu, que estudo luto e curso Psicologia.

Como hoje é seu aniversário de 46 anos, matei dois coelhos. Te dou parabéns por escrito (o registro fica em qualquer plano, com perdão da piada wagneriana) e acerto as contas comigo. Sei que você jamais reclamaria do atraso deste texto.

A primeira lembrança – não a mais antiga – é quando você entrou na sala de aula da Unisanta para cursar Introdução ao Telejornalismo. Só pude perguntar: “o que você está fazendo aqui?” Você sorriu e disse que sempre tinha algo a aprender. Logo você, um dos que me ensinaram TV lá na primeira metade dos anos 90.

No ano seguinte, você estava preocupado com o que a escola passava ao seu filho. Temia pelo futuro dele, pela qualidade do ensino. No meio da conversa, fez um dos maiores elogios que poderia receber como professor e colega de profissão. Tarde de um sábado, esquina das ruas Oswaldo Cruz e Bento de Abreu, no Boqueirão, em Santos, para te lembrar.

Você me contou que estava cansado de tirar 10. Não falou com empáfia, mas com uma sinceridade cortante, digna de um ateu de carteirinha, comprometido com suas ideias até o final. Você me falou: “Prefiro seu oito e meio. Você exige mais de mim, nas aulas e nas provas.”



Sempre lembrarei de ti como um cara insatisfeito. Nada de reclamação. A dedicação era nítida. Você se formou como melhor aluno da sala, sendo que enfrentou uma doença durante quase todo o curso. Não há argumento melhor para sua forma de levar a vida.

Você era de um realismo cortante, tão duro às vezes, que me levava a desconfiar de uma forma de proteção. Justo. Você precisava lutar com as armas que estivessem à mão ou dentro de ti. Expor a doença, dialogar com quem quer que fosse, pesquisar a fundo, dar entrevistas, escrever, chiar, pular o muro que se desenhava à frente, tudo o que foi possível para permanecer ao lado da esposa e do seu filho.

Mais do que se formar, você queria vê-lo formado. Estudava não apenas para aprender, mas para servir como exemplo para ele. Percebi isso e falei em uma de nossas conversas. Você confirmou.

As queixas nas redações, dentro e fora da universidade, eram parte do personagem, eu sei, mas também serviam para sacudir a molecada, eventualmente chorando de barriga cheia e monitor de computador vazio. O sorriso de canto de boca e o sarcasmo completavam as características do Yoda, apelido que carregou como um sobrenome, que te marcou como um sábio oscilante entre as palavras doces e precisas e a agressividade com o sabre de luz quando cutucado. Só não falava ao contrário, o que daria trabalho para explicar as perspectivas para aqueles que sofriam de surdez seletiva.

Minha esposa chegou em casa e me perguntou sobre o que escrevia. Tentei explicar, mas falhei. Ela me abraçou. Um intervalo para respirar. Fiz um queijo quente para ela e outro para o Vini, que acabou de acordar.

Wagner, tento aceitar, mas é difícil entender sua mudança de endereço, ainda mais um sujeito cheio de vida, inquieto, disposto a aprender, disposto a ensinar, nunca negando a própria curiosidade, de braços abertos para se aperfeiçoar. Você poderia ter se acomodado atrás do câncer, vestido a fantasia de vítima, exigindo olhares de compaixão. A compaixão, por sinal, era o gatilho da tua irritação.

Fazer, produzir, lutar, verbos para derrubar a misericórdia. A informação médica para combater a pena. Concordo. A pena é um sentimento arrogante, mesmo que seja involuntário. Quem sente pena não consegue escapar do ar de superioridade.

Sinto saudades suas, meu amigo. Das conversas na redação, da cumplicidade para fechar um jornal laboratorial, tratado com o devido respeito de um veículo do mercado. Saudades das conversas como pais, sobre nossos filhos e nossas dificuldades para lidarmos com os problemas deles.

Preciso pagar esta dívida com você. Não era um débito que atormentava, mas uma justificativa para relembrar coisas boas, saudáveis, que nos empurram rumo ao adiante. Escrevo para amenizar a ausência, claro. Escrevo também para puxar conversa. Escrevo para dizer, meu amigo, até logo. Um abraço! Ah... e feliz aniversário, Yoda.


Obs.: Texto publicado no Juicy Santos, em 5 de dezembro de 2016.

            

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Quando Tim Burton encontra Romero Britto





Beth Soares e Marcus Vinicius Batista

Acabamos de assistir a “Grandes Olhos”, filme de Tim Burton. É um Tim Burton que não estamos muito acostumados a ver, uma história baseada em fatos reais. O filme conta a história do casal Walter (Christoph Waltz) e Margareth Keane (Amy Adams). Ele, um corretor de imóveis que se passa por artista. Ela, uma pintora que chega a São Francisco no final da década de 50 após escapar de um primeiro casamento.

A história se tornou famosa pelo fato de que ele assumia a autoria dos quadros pintados por ela. Quando o casamento acabou, as obras se transformaram em disputa judicial. O filme, ainda que se passe na década de 60, coloca questões atuais que envolvem a cultura pop e a relação com a arte.

O filme nos empurrou para duas leituras. A primeira seria frankfurtiana (Escola de Frankfurt) e o conceito de indústria cultural. Keane, por exemplo, percebe – com a justificativa de que o público deseja se emocionar – que pôsteres vendem mais do que quadros. Nas palavras dele, “por que vender um quadro de 500 dólares se podemos vender um milhão de pôsteres a um dólar?”

Quando pensamos neste caminho do filme, lembramos das tradicionais camisas de Che Guevara, hoje relegadas ao fundo das prateleiras em detrimento de camisetas dos Ramones, Johnny Walker e outros “ícones” esvaziados de significados. Os quadros de Margareth Walker, que retratavam em seus olhos grandes as tristezas das crianças – e talvez dela mesma, ingênua como elas -, ganham novos contornos ficcionais e mais interessantes para lotar galerias e gôndolas de supermercados.

Margareth Keane, em foto recente

Até que ponto a arte pode ser definida como tal? Quem estabelece o que é arte e o que merece o anonimato? As questões são tão complexas quanto ausentes de respostas, mas nos conduzem à segunda camada do filme de Tim Burton.

Walter Keane surge para o mundo da arte no início da década de 60, quando a TV começa a se transformar no veículo de comunicação mais popular dos Estados Unidos. E as práticas do falso artista se encaixam perfeitamente no que Guy Debord classificaria como Sociedade do Espetáculo.

Keane se relaciona com celebridades, prioriza oportunidades entre políticos e grandes eventos e está mais preocupado com as colunas de fofocas e as revistas de variedades do que com os críticos e os debates técnicos sobre os quadros. Enquanto isso, Margareth desejava o mínimo: o reconhecimento pela criação artística, independentemente do valor de mercado.

Somos, atualmente, um exército de Keanes. Procuramos o prazer do que atrai multidões, do conforto que nos remete ao pensamento único, da explicação superficial que talvez não tenha a ver com a realidade. O contexto é adequado aos ouvidos e olhos dispostos a digerir um discurso comovente e, ao mesmo tempo, improvável. Dane-se a probabilidade, prevalece a história que choca, que sensibiliza, que envolve pelo prazer de pertencer a um novo sabor comercialmente acessível. 

Tim Burton, em foto de 2012
Tim Burton costura, nas entrelinhas, aquilo que tanto abomina e explora de maneira simultânea. A trajetória cinematográfica dele nos transmite a impressão de que é possível flertar com a produção em série, sem deixar de ter uma marca própria, de se construir sinais autorais sem sucumbir às pressões das ditas tendências. Neste sentido, Burton fez um filme a la Woody Allen, para poucos na sala de cinema. E não deveria ser assim!

A obra de Keane (ou da esposa) se torna coadjuvante diante dos atos artificiais construídos por ele. Mentiroso patológico, Walter constrói e reconstrói histórias para justificar as criações artísticas, dramatizando personagens e cenários fictícios, porém funcionalmente emocionais. A imagem cresce de tal maneira que a origem dela, o objeto que a originou, não existe. A imagem passa a ser a única realidade necessária para que variações sobre o mesmo tema tenham sempre aparência de inéditas.

Margareth, quando descobre que tudo que pintou virou atração promocional em um supermercado, vê fregueses e funcionários com os mesmos olhos grandes e perturbadoramente penetrantes que retrata nas suas obras. É a pitada de fantasia sombria, a assinatura de Burton. Mas também indica o quanto sua alma de artista sofre com a banalização de algo tão pessoal e precioso, nascido dela para ser único. Ao olhar para o espelho e se ver com os mesmos grandes olhos, dá ao espectador a impressão de que também se deixou banalizar, ao ceder às vontades de um marido vaidoso e opressor.

Não cabe a nós entrar no mérito artístico de Margareth Keane. O próprio filme evita tocar a fundo nesta ferida. Com coerência, Burton coloca em discussão quem determina o real valor artístico de uma obra. Mais: até que ponto, na fugacidade das imagens, qualidade se tornou relevante?

Pensar sobre “Grandes Olhos” nos remeteu a uma comparação curiosa. Na verdade, uma analogia que nasceu dentro da sala de cinema. Saímos de lá discutindo porque a história nos remetia a Romero Britto e seus cadernos, lápis, canecas, camisetas, carros e, eventualmente, quadros. Tim Burton também teria pensado nele?

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A prece de Renata Carvalho



Marcus Vinicius Batista

Renata Carvalho vive em um mundo onde não se encaixa. Um mundo em que ela faz parte por insistência, por resistência, pela força dos atos que carregam as palavras da atriz. Dos atos da mulher que, em outra profissão, insistiu em entrar nos cortiços, no terreno do invisível, para levar proteção contra as doenças sexualmente transmissíveis. Foi assim que a conheci.

O teatro é o elo de ligação entre as duas Renatas, que moram dentro dela, com a liberdade poética do nome da peça que a expôs ao mesmo mundo que, em parte, teima em persegui-la. Renata enfrenta o velho inimigo de sempre: o preconceito. Mas, desta vez, aliado à intolerância religiosa de quem justifica a violência com o silêncio de Deus e em nome Dele.

Não tenho procuração de amizade para falar de Renata Carvalho. Isso me dá a tranquilidade para refletir sobre os papéis sociais dela. Renata carrega, como muitos em Santos, a arte como ação política e social, e não como um adereço de final de semana antes da pizza com cerveja gourmet.

A atriz já enfrentou um adversário previsível e igualmente persistente. Renata protagoniza a peça "O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu", que estreou no Festival Internacional de Londrina (FILO), no Paraná.

O espetáculo, adaptado do texto da irlandesa Jo Clifford, coloca uma mulher transexual no papel principal. Renata é uma mulher transexual. A peça, que deveria ser apresentada na Capela da Universidade Estadual de Londrina, acabou censurada e aconteceu em um anfiteatro, com o dobro de público.

O texto, ao contrário do que praguejam os medievais, fala de tolerância, amor e respeito pelo outro. Nada mais cristão. Nada mais simbólico como Jesus Cristo nas velas que brilhavam nas mãos de parte do público que assistiu à peça.

Entre o sagrado e o profano que vivem num palco, sobrevivem as palavras da peça: "Ele é ela. Ela é ele. Todas são Jesus." Em um país onde se mata por preconceito, as frases são uma prece. Na voz de uma atriz. Só isso: uma atriz, sem rótulos.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Trólebus: o caminho da energia



Marcus Vinicius Batista

A cada passagem na encruzilhada de fios, o ônibus dava um tranco. O som que saía das bifurcações avisava aos desatentos que o veículo se aproximava do ponto. Seria uma viagem mais lenta, quase turística, numa cidade também mais devagar, menos congestionada.

Andava, todos os dias, no trólebus número 4. Onde eu morava, nas imediações do canal 6, passava também o 8, com frequência menor pelo número de passageiros.

Depois de passar a roleta, o prazer era se sentar nos bancos laterais. A pintura interna era vermelha, idêntica à externa, o que dava a sensação de embarcar numa salsicha motorizada, envelhecida pela quilometragem e pelo tempo.

Os bancos eram de estofamento cinza, puxando para um bege, se a memória não falhou. Eram fofos, com os assentos recheados de espuma, imagino. Bem diferente dos bancos mais duros dos coletivos atuais.

Na época, a avenida Epitácio Pessoa tinha duas mãos e o trólebus seguia numa linha reta até a avenida Conselheiro Nébias. Depois, no final da vida deles, a Epitácio virou mão única e passamos a ter a vista da praia como companhia.

Eu usava a linha para ir e voltar da escola, quando o rodízio de caronas falhava ou quando chovia demais para pedalar. O melhor momento, para um pré-adolescente, é claro, acontecia quando a fiação do trólebus desconectava da fiação da rua.

A viagem parava e observávamos, pela janela, o motorista brincar de lego para reencaixar o ônibus. A torcida era para que ele perdesse a queda de braço com a rede elétrica. Quanto maior a demora, maior o atraso na escola!

Outra atração eram os moleques que pegavam carona na traseira do ônibus. Era só por diversão, para se deslocar pela cidade até o motorista se encher - ou se lembrar dos riscos de choque elétrico -, parar o veículo, ameaçar descer dele e todos nós testemunharmos os moleques correndo com sorrisos no rostos.

Nunca tive coragem de me pendurar nos suportes circulares que armazenavam os cabos, a conexão do trólebus à rede. Eu era da turma dos medrosos - ou responsáveis, depende - que se contentavam em sentar nos bancos laterais.

Quando os trólebus saíram de circulação, eu já era dependente de carros. Hoje, não mais. Só voltei a andar de ônibus elétrico uma vez, na linha 20, que fazia a avenida Ana Costa.

È uma pena que os trólebus não foram incorporados aos projetos turísticos de Santos. Alguns anos atrás, o historiador Valdir Rueda conseguiu chamar a atenção de promotores para a preservação histórica destes ônibus, que poderiam complementar os bondes do Centro.

Infelizmente, com a morte do historiador, o silêncio venceu. Numa cidade com a paranoia da urbanidade, os trólebus poderiam ser mais um fluxo de oxigênio para relembrarmos de uma Santos mais bucólica, poética, interiorana e saudável.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Mudança de casa



Marcus Vinicius Batista

Estamos em endereço novo há três meses. Estamos porque, claro, não me mudei sozinho. Estamos porque, claro, uma mudança de endereço não é apenas um novo CEP, novas chaves, novos vizinhos. Mudança é, sem escolha, balanço. Mudança é abandonar um pedaço, agarrar outro, incorporar uma terceira fatia.

Quando deixamos um lugar, carregamos o trecho da narrativa que nos interessa. Escolhemos a melhor forma de contar a história, bem editada, dependendo do abraço que damos às queixas ou do afago nas lembranças sorridentes.

A limpeza auxilia no caminho a seguir. Por qual porta sairemos? Mudança representa enxugar espaços, dispensar tralhas, redescobrir fantasmas impregnados em objetos. Arrastamos aqueles móveis que viraram monumentos e descobrimos, como arqueólogos, o passado de coisas que um dia mereceram o status de essenciais. Como nunca o foram, resta o sepultamento em uma lata de lixo, sem direito à ritual. É mais honesto do que a mentira-promessa de que um dia vamos usar.

Fingimos acreditar que os objetos são parte de nossa identidade e, por conveniência, esquecemos de mencionar a parte de que seriam. Se estivessem em nosso cotidiano, jamais morariam no fundo da gaveta de um criado-mudo qualquer.

Mudar de casa também permite revalorizar os sobreviventes. Aquelas roupas, livros, esculturas, os que nos acompanham se materializam como filtros de quem merecia ocupar uma menção no livro daquela etapa da vida. Essa revalorização integra a nossa própria purificação, a esperança em melhorar aspectos internos – mais até do que redecorar a casa.

Antes de sairmos, avaliamos quem fomos, projetamos quem seremos, prometemos mudar mais do que trocar de apartamento. A antiga moradia nos entregou, como despedida, a conta com nossos erros, com nossos sucessos.

Optar por uma das trajetórias? Interpretar que ambos se completam? Mentir para nós mesmos e zerar o caixa? Sair para uma morada inédita e compreender que o carreto e as caixas carregam uma vida editada sim, porém com a oportunidade de reescrever a trilha.

Em três meses, deixamos a casa nova como queríamos. Gastamos o que não podíamos. Adaptamos o que sonhávamos. Reorganizamos o que eram falhas e, com novas janelas, viraram virtudes. Admitimos que tudo é processual.

Um endereço novo traz a motivação de jamais engolir a ilusão de que a mudança começa quando se tranca a porta nova pela primeira vez. Não se apaga um velho imóvel. Apenas o insere – com o devido valor – no mundo novo.

Até que se demarque o território, somos gatos em vida transitória. Mudar é procurar o essencial, enxugar as gorduras que abraçamos pelo conforto, pela preguiça, pelo desespero de ser amado. Muda-se para ser outro, dentro dos limites do outro que nos faz cúmplice.

Eu e Beth somos unânimes no quórum de duas pessoas, duas crianças... e dois gatos. Esta é, pela primeira vez, a nossa casa.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Olhando em silêncio (Conversas com Beth # 31)



Marcus Vinicius Batista

O ritual se força em mim cada vez que você dorme mais cedo. Se desmaio primeiro, sigo em paz por cinco, seis horas. Se você descansa antes, não consigo evitar: sou testemunha da minha própria preocupação.

Não existe um motivo aparente para me preocupar. Ou um motivo que seja diferente das preocupações quando estamos ambos acordados. As preocupações nascem das reações de seu corpo, da rotina dos remédios, do prazer mais limitado em qualquer treino na piscina. A preocupação persiste porque o passado não foi enterrado. A lúpus adora fingir sonolência. Eu a conheci e nunca sairei da luz amarela.

Minhas visitas ao quarto funcionam quase como o relógio da estação de trem. Meia hora quase religiosa, como badaladas do sino para avisar o início da missa, feito as três campainhas para o início da peça. Atravesso o corredor descalço, em silêncio, no escuro. Ignoro o primeiro interruptor para acender a luz do corredor no segundo, às vésperas de entrar no quarto.

À meia luz, driblo o ventilador e a cômoda para me aproximar. Respiro um pouco mais forte. Apanho-me elevando a respiração, nada programado, hoje acostumado. A respiração indicará, com honestidade, se você dorme. O silêncio exala a certeza, o som que você me devolve confirma a teoria.

Não sei porque entrei no quarto meia hora atrás. Não sei por que o fiz segundos antes de abrir este texto. Sinto a necessidade de assegurar o óbvio. Você está bem. Eu dormirei menos, de novo. A insônia me arrastará e vai me algemar ao computador, à escrita, à leitura por mais meia hora. Não me queixo, é entorpecente para me convencer de que sou capaz de te proteger.

Olho para o gato que, animal de hábitos, usufrui da quentura do edredon que esconde um de seus pés. O outro se mostra lindo, como sempre, para avisar do corpo de lado. Às vezes, o gato me olha de volta, única parte do corpo que se libertou da preguiça paralisante. Contorno a cama pelo lado esquerdo. Preciso ver mais de perto. Confirmar a paz que quebra o silêncio apenas para os que transgrediram a fronteira do armário do quarto.

Nunca subo na cama. Exploro minha envergadura para chegar a menos de meio metro. O alívio de te ver bem, a resposta de quem temeu pelo pior há um ano e meio. A evidência redundante que reforça a obviedade travestida de novo. Você está bem. Melhor do que o enjoo de algumas horas, da dor de cabeça que rebolava desde o final da tarde, do cansaço de quem nadou para ser indiferente ao mundo.

Viro as costas com a cautela de andar nas pontas dos pés. Hora de sair. Somente eu quebro o silêncio do quarto. Somente eu tenho o dever de ouvir o atrito que não acorda o gato. Sair do quarto e apagar a luz do corredor são o ponto do vigilante que fará uma ronda em breve, como em todas as noites que você dorme mais cedo.

Não avalio o ritual. Eu o cumpro e não o enxergo como tal. Ver como você está ganhou este nome porque precisava de uma palavra para denominar minhas visitas. Posso até vê-lo como um, se pensar na segurança que te ver me dá. De te ver bem, autossuficiente como todos os dias desde que este tratamento começou.

A cozinha, hoje, é minha plataforma de redação. Os dez metros que serão percorridos em meia hora, logo após o ponto final desta crônica. Levantarei da cadeira e repetirei a caminhada até nosso quarto.

Caso esteja acordada, teremos o beijo que sela a tranquilidade. Caso esteja em outro lugar, em sonho, terá minha admiração e amor, como em todas as visitas. Até a hora que me deitar ao seu lado. Aí, te acordo de forma involuntariamente e ganho o beijo que compartilha a nossa paz por cinco, seis horas.