terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O som do berimbau



Marcus Vinicius Batista

Raimundo Pimentel reclamava na esquina da avenida da praia com o Canal 6, enquanto esperava a abertura do semáforo. Misturava a pressa dos motoristas que ignoravam a luz vermelha com as queixas que ouvira no quiosque ali perto.

Baiano de Salvador, Raimundo é caçula de 12 irmãos. "Minha mãe era ótima em fazer filhos." Carrega uma mochila preta nas costas, veste-se com aprumo, camiseta para dentro, calça jeans e tênis. O rosto, por outro lado, é castigado pelo sol, típico de quem caminhou centenas de léguas sem pensar em proteção. Até porque se proteger do sol custa o dinheiro que ele nunca teve. A barba completava as feições que elevavam a idade em quase 15 anos. Um homem de 50, com marcas e experiências de 65.

Embora calejado, Raimundo caiu na armadilha dos desesperados e veio para Santos com a velha esperança do migrante: fazer dinheiro, ganhar a vida. Ouviu de algum mentiroso que aqui sobravam oportunidades. Desembarcou há seis meses.

O emprego virou trabalho. O berimbau que conheceu a partir das rodas de capoeira virou a ferramenta profissional. A desilusão virou serenidade na hora de me dizer onde se abrigou. "Moro ali na avenida Epitácio Pessoa." O olhar de final de frase respondia o resto do endereço. Ao lado de árvores ou embaixo de marquises não traz CEP ou complemento de ficha cadastral.

A rotina no sul implica em trabalhar à noite, percorrendo a orla da praia para animar casais, turmas de amigos ou qualquer sujeito por uns trocados depois de ouvir o som do berimbau. Na caminhada de algumas quadras, a melodia era constante, saborosa, ritmada. A trilha sonora que começou numa esquina, enquanto eu e minha irmã esperávamos para atravessar a avenida do semáforo-enfeite.

Enquanto me contava sua história, Raimundo voltava a mencionar o quiosque. Parecia me pedir a pergunta, que entreguei de bandeja: "O que aconteceu?" Eis os fatos:

"Você acredita que estava tocando meu berimbau ali, nos quiosques, quando uma mulher, encostada numa moto, teve a coragem de chiar:

— Para com esse barulho!

Olhei bem para ela, para o namorado dela, para as pessoas nas mesas perto e respondi:

— Você anda nessa moto, com esse escapamento, e vem falar que meu som, do meu berimbau, é barulho!

Ninguém falou nada. Só alguns sorriram amarelado. Peguei minhas coisas e vim embora."

Depois de quatro quadras, paramos em outra esquina. Ele me falou de restrições alimentares, falou de dinheiro sem falar dele. Ajudei como pude, minha irmã também. Refeição garantida. Agradeci pela apresentação e nos despedimos.

Ele atravessou a rua sem olhar para trás. Fiquei com o som e com a boa história de quem nunca mais encontrei.

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