quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Tempos de luto




Marcus Vinicius Batista

Perdi uma pessoa importante em tempos recentes. Amigos perderam pessoas essenciais em suas vidas. Colegas se foram; ex-chefes, também. Todos em um mês. Quando a morte nos visita aos trancos, sem avisos, ela nos força à reflexão sem direito de escolha.

Vivemos numa época em que o luto pouco recebe atenção. Precisamos dele como instrumento de libertação, de conversa definitiva com quem se foi e, principalmente, como bússola para compreensão de um relacionamento e dos próximos passos.

O luto é retrato das contradições de um período histórico no qual nos soterramos em imagens, enquanto escapamos da serenidade das experiências. Transformamos o luto, como tudo na vida, em ato intenso, porém oco. Em vivência intensa, com olhos de quem enxerga, mas não avalia, pondera ou tenta localizar o próprio lugar diante de quem partiu. Inserimos pessoas em estantes para exibição, e não em gavetas definitivas, para que possamos abri-las.

O luto foi esmigalhado pela velocidade da vida prática. Mal suportamos os rituais de morte, que se aproximam de convenções sociais e se afastam de despedidas. Somos pressionados - e pressionamos - a chorar pelo tempo do sepultamento para depois retornamos com a cara lavada para o cotidiano que flerta com a desumanidade.

A vida segue, diz um dos bordões do momento. Vida com a ausência e a saudade sufocadas e entorpecidas na pilha de compromissos que aliviam, mas adiam o inevitável. Adiamos com burocracias o instante de um diálogo entre quem ficou e quem morreu. Adiamos as lágrimas sentidas, duras e necessárias, que deram lugar para espasmos, porém sem tempo para a dor.

O outro lado do luto se faz presente no mundo virtual. Os memoriais se multiplicam em redes sociais, numa tentativa de socializar, como uma comunidade, a dor. O luto, ato particular, se torna coletivo e - por que não? - festivo. Não cabe a mim julgar como cada um deve se manifestar, mas não posso deixar de pensar que ela, a morte, e seu rastro, o luto, viraram ingredientes do mundo do espetáculo.

O lado positivo é que, em parte, se retomou a morte como pauta. Recomeçamos a falar sobre o tema, embora de maneira breve. Conseguimos, no mundo virtual, combater com paliativos a leitura cultural da morte no século passado, que empurrava o luto e a perda para o silêncio e o tecnicismo hospitalares.

Desconfio que o luto, no sentido virtual, não representa exatamente uma experiência, mas um simulacro dela. O teclado e o monitor fingem nos proteger, seja como filtros tecnológicos, seja como a falsa ideia de anonimato e impunidade pelos discursos.

Precisamos pensar mais naqueles que se foram. Conversar com eles e sobre eles. De preferência, sem a velocidade e o pragmatismo utilitário. Este me parece ser o melhor caminho para fazermos o correto no último estágio: acertar as contas.

Se não foram acertadas em vida, que sejam agora com serenidade e sabedoria, remédios com chance de expurgar culpas e arrependimentos. O resto são placebos para, outra vez, fugirmos da morte e endeusá-la como tabu.

Um comentário:

alano alexandre disse...

Mais um texto maravilhoso, professor está reflexão sobre o luto, a perda e a loucura que é esta vida mais virtualizada e acelerada do que tudo, parabéns Mestre!