terça-feira, 24 de novembro de 2015

Desconfiança



Marcus Vinicius Batista

Jornalistas, dizem os ingênuos, são sujeitos desconfiados. Sempre duvidei desta premissa, que creditaria mais desconfiança sobre um ofício em fase de descrença. Creio, na verdade, que a dúvida é minha mesmo, pela maturidade - peço perdão pelo auto-elogio -, embora só a reconheçamos quando duvidar vira um flerte com a ranhetice.

Desconfio que somos um projeto em curto-circuito, camuflado pela pretensão de quem se colocou no topo da cadeia. E filosofa como se estivesse sentado no trono de rei da selva por caridade à natureza.

Tenho suspeitas, por exemplo, sobre a fé em forma de religião institucionalizada. É a crença sob o manto da hierarquia e do poder político, alicerçadas por interpretações favoráveis ao próprio umbigo, com o apoio da transferência de responsabilidade. Tudo em nome de Deus, não importa sua cor ou idioma. A fé institucionalizada comercializa almas e vende, cedo ou tarde, intolerância via sorriso frouxo e fala mole.

Somos uma espécie violenta. Reside em nossas células a conquista e satisfação de desejos à força. De um tênis a territórios. Impomos nossa forma de vida, fingimos senso civilizatório e transformamos - historicamente - paz em exceção. O terror está em nós, não é exclusividade de uma religião, com sua parcela fanática. Apenas damos outros nomes, como colonização, expedição, modernização e outros aumentativos.

Desconfio de que nós, seres produtores de cultura, estamos por este motivo um passo à frente dos outros animais. Somos capazes de obras belíssimas, enquanto plantamos preconceito, irrigamos estigmas e colhemos intolerância. Somos esforçados em negar machismo, racismo, sexismo, entre outras manifestações, para pregarmos falsa solidariedade em forma de bandeiras coloridas, lacinhos, palavras fofinhas em redes onde prevalece a imagem construída para nos vender a nós mesmos. Tagarelamos para controlar!

Nas aulas teóricas mais simples, aprendemos - com a pretensão da bondade escondida - que somos seres sociais. Por que não trocar por dependentes? Adoramos uma tutela, amamos que outros decidam o que fazer por nós, quando as ações escapam ao nosso conforto, à nossa margem de segurança. Queremos que outros resolvam os problemas coletivos - dos quais somos especialistas em reclamar - para que possamos cultuar nossa própria individualidade. Olhamos o outro porque tememos (e fugimos) a nós mesmos.

Construímos uma imagem socialmente aceitável, baseada no senso comum e no politicamente correto. Encenamos sensibilidade diante da tragédia alheia, desde que não precisemos sair de casa. Doamos e bradamos nossa capacidade solidária. Reforçamos, assim, a arrogância de quem sente pena, de quem se coloca um degrau acima para lamentar a melancolia que nos faz melhores.

Desconfio (quase) sempre que, no fundo, não somos confiáveis. Até porque tenho certeza de que os testemunhos diários do mundo lá fora confirmam esta hipótese. Não?

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