terça-feira, 24 de novembro de 2015

Café Rolidei, a casa de todas as gentes




Marcus Vinicius Batista

A cada vez que entro lá, sinto que é a primeira vez. O acolhimento é o mesmo de sempre, seguro, confortável, que inserem todos, simultaneamente, no centro do palco. As pessoas permanecem interessantes e atentas, mas sempre descubro um personagem intrigante, algum item novo, uma imagem antigamente inédita que me leva a pensar.

Estive no Café Rolidei na semana passada. Era uma conversa sobre minhas crônicas. Nada mais elogioso do que pessoas com vontade em conversar sobre literatura, sobre seus textos, sobre sua forma de pensar e enxergar o mundo.

O problema é que, toda vez que entro lá, me pego esquecendo do que fui fazer naquele espaço. O Café Rolidei me faz lembrar do tempo das casas na árvore. A última vez que entrei numa delas já era adulto, numa das antigas edições da Casa Natal. Uma casa foi construída nos fundos de um prédio de três andares, na rua Pernambuco, no bairro do Campo Grande. Casas nas árvores foram extintas e deram lugar para fortalezas com acessórios gourmet.

O Café parece uma casa na árvore porque, não apenas fica no poleiro do Teatro Municipal, sua fachada expõe um ar misterioso, daqueles que brilham os olhos de criança diante do contador de histórias. Atiram-me para um mundo paralelo, sem idade, escolaridade, renda e outros freios. Olho para as cortinas vermelhas que encobrem a entrada e tenho a sensação de que sairá dali uma surpresa, um novo caminho a partir das mesmas pedras, um coelho que nos convida para um buraco sem fundo. 



Quando entro no Café Rolidei, renovo a fascinação pelas paredes. Na última visita, descobri o Che Guevara ao lado do Papa Francisco. Eles convivem com antigas bonecas, com flâmulas, como fotos de um passado recente, de um passado reconfortante. Gente de tudo que é jeito, cor, origem, perspectiva, qualidades e defeitos. Gente verdadeira, gente de ficção. A mistura que comprova nosso mosaico cultural, que teimamos em encaixar em compartimentos.

As paredes, levei algum tempo para perceber, são o símbolo do que significa aquela torre de uma Rapunzel cultural. Agarramos nas tranças para aguentar o tranco dos lances de escada que nos leva ao pé de várias sementes em cima das nuvens.

Ali dentro, vimos um cenário versátil, adaptável aos espetáculos teatrais, festas, aulas, confraternizações, diálogos literários, entre outras formas de produzir humanidade. E, no final da trilha, o baú de onde saem os tesouros, personificados em todas os rostos e cicatrizes, visíveis ou não.

O Café Rolidei é um endereço político, de dificuldades econômicas e riquezas culturais. É um CEP multipartidário, sem siglas, referências institucionais ou status de marcas. As paredes do Rolidei têm vida própria porque todos por aqueles cantos transpiram autonomia. Lema e independência para criar, para se expressar, com a obrigação de ser crítico perante o mundo, com juras de fidelidade a si mesmo.

Na última visita ao Rolidei, conheci o ouro escondido atrás de uma cortina branca, fininha, que protege do pó, mas se escancara para o conhecimento. Tomava café e conversava com a escritora Regina Alonso quando fiz o que deveria ter feito há meses. Puxei a cortina e degustei a biblioteca do grupo TamTam. Pensei em qual crime poderia cometer para ser condenado a meses de prisão domiciliar no Rolidei, ao lado da biblioteca. Na suíte presidencial, crônicas, romances, poesia, dramaturgia, teorias da filosofia ao meio ambiente.

O Café Rolidei é a (re)descoberta de gente e da gente. Entre o banheiro com cara de exposição fotográfica e decorado com uma cadeira vermelha de barbeiro e os figurinos que enfeitam o bar, que abriga a biblioteca, mas também ponto de encontro para debates acalorados, conheci pessoas como o Alexandre, capaz de escrever poesias, de fazer perguntas desconcertantes sobre crônicas e contar sua admiração sobre uma colega escritora. A arte como remédio de uso contínuo, enquanto a maioria receitaria a ele omissão para que Alexandre cumprisse o destino de estar à margem. 



Esta casa não têm portas. Ela possui preocupações e responsabilidades. Arte não é fanfarronice de celebridade. Não são tensões somente com o papel da arte, do teatro, do ator, do encenador, dos produtores culturais. As cortinas vermelhas da entrada balançam para que entre o mundo lá fora, como um aviso de que a veia cultural não aceita egocentrismo, isolamentos e ataques narcísicos. A cultura é uma escultura conjunta, de diversas mãos, de variados modelos de cérebro, condenados ou não por uma sociedade que se finge diversa.

Vou ao Café Rolidei com prazer e curiosidade acesa. Sei que ali haverá o abraço, a boa conversa, mas também a necessidade de inflar o pensamento, de renovar o entendimento de que somos minúsculos, pequenos demais para ignorar histórias que se recriam pela arte, que mapeiam o próprio corpo com injeções de solidariedade e humanismo.

Na última visita, soube de um novo problema. Gente pensante é assim: sofre, luta e nunca descansa perante obstáculos que rolam da montanha todos os dias. É a maldição de empurrar a pedra a cada amanhecer. Hoje, a pedra se chama a campanha de brinquedos para o Natal. Poucas doações, muita gente à espera. Por trás do palco, as contas que não fecham mês a mês.

O Café Rolidei e o grupo TamTam precisam de ajuda. A pedra, às vezes, fica muito pesada, mesmo para braços musculosos. De todas as gentes.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 19 de novembro de 2015.

Desconfiança



Marcus Vinicius Batista

Jornalistas, dizem os ingênuos, são sujeitos desconfiados. Sempre duvidei desta premissa, que creditaria mais desconfiança sobre um ofício em fase de descrença. Creio, na verdade, que a dúvida é minha mesmo, pela maturidade - peço perdão pelo auto-elogio -, embora só a reconheçamos quando duvidar vira um flerte com a ranhetice.

Desconfio que somos um projeto em curto-circuito, camuflado pela pretensão de quem se colocou no topo da cadeia. E filosofa como se estivesse sentado no trono de rei da selva por caridade à natureza.

Tenho suspeitas, por exemplo, sobre a fé em forma de religião institucionalizada. É a crença sob o manto da hierarquia e do poder político, alicerçadas por interpretações favoráveis ao próprio umbigo, com o apoio da transferência de responsabilidade. Tudo em nome de Deus, não importa sua cor ou idioma. A fé institucionalizada comercializa almas e vende, cedo ou tarde, intolerância via sorriso frouxo e fala mole.

Somos uma espécie violenta. Reside em nossas células a conquista e satisfação de desejos à força. De um tênis a territórios. Impomos nossa forma de vida, fingimos senso civilizatório e transformamos - historicamente - paz em exceção. O terror está em nós, não é exclusividade de uma religião, com sua parcela fanática. Apenas damos outros nomes, como colonização, expedição, modernização e outros aumentativos.

Desconfio de que nós, seres produtores de cultura, estamos por este motivo um passo à frente dos outros animais. Somos capazes de obras belíssimas, enquanto plantamos preconceito, irrigamos estigmas e colhemos intolerância. Somos esforçados em negar machismo, racismo, sexismo, entre outras manifestações, para pregarmos falsa solidariedade em forma de bandeiras coloridas, lacinhos, palavras fofinhas em redes onde prevalece a imagem construída para nos vender a nós mesmos. Tagarelamos para controlar!

Nas aulas teóricas mais simples, aprendemos - com a pretensão da bondade escondida - que somos seres sociais. Por que não trocar por dependentes? Adoramos uma tutela, amamos que outros decidam o que fazer por nós, quando as ações escapam ao nosso conforto, à nossa margem de segurança. Queremos que outros resolvam os problemas coletivos - dos quais somos especialistas em reclamar - para que possamos cultuar nossa própria individualidade. Olhamos o outro porque tememos (e fugimos) a nós mesmos.

Construímos uma imagem socialmente aceitável, baseada no senso comum e no politicamente correto. Encenamos sensibilidade diante da tragédia alheia, desde que não precisemos sair de casa. Doamos e bradamos nossa capacidade solidária. Reforçamos, assim, a arrogância de quem sente pena, de quem se coloca um degrau acima para lamentar a melancolia que nos faz melhores.

Desconfio (quase) sempre que, no fundo, não somos confiáveis. Até porque tenho certeza de que os testemunhos diários do mundo lá fora confirmam esta hipótese. Não?

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Afogado em papéis


Marcus Vinicius Batista

Não consigo fugir deles. Guardo cada vez menos. Imprimo o mínimo necessário. Repasso cada vez mais. Um país cartorial como o nosso, quando a papelada chegou nas caravelas antes da nação, não perdoa: tudo precisa de papel. E, com ele, vem os "donos" das pilhas de folhas, os reis do frente e verso: os burocratas.

A burocracia é um esporte cotidiano brasileiro. Tudo passa por um carimbo, um código, um número, uma assinatura, uma sigla, um registro que se sobrepõe a outro registro, que anula o registro anterior, que renova o registro para que tudo esteja devidamente registrado. Por quem? Para quê?

Sempre desconfiei da burocracia. Você aprende com o tempo que, quase sempre, é uma cena para qual você foi convocado, jamais convidado. Seu papel é providenciar e entregar papéis. Folhas que cumprem protocolo, que se avolumam e ganham importância pelo tamanho, quase nunca pelo conteúdo. Poucos leram ou lerão a papelada. Prevalece a conferência, olhar que a ordem é a correta, se os carimbos e assinaturas estão nos devidos lugares.

O burocrata é o símbolo da desconfiança. Antes de dificultar para facilitar, ele te olha de cima abaixo. A mesa ou balcão são seus escudos. Assim, evita-se o contato corporal que vai desnudar a fragilidade de quem "só trabalha aqui", de quem responsabiliza o "sistema", a "fiscalização" pela lista de papéis que tem que ser entregues. Para ontem! O burocrata almoça urgência, janta emergência.

Depois de te medir, o burocrata sorri. O sorriso procura amaciar a carne alheia, antes de bater nela com um formulário, um ofício, uma xerox, uma nova regra em outro formulário, ofício - você já sabe o caminho. Burocracia é, claro, repetição. A segurança da mesa, aliada à pilha de documentos que viraram estátuas. Quanto maior a pilha intocável, mais sagrado será o discurso de que há muito serviço a fazer. São os tempos modernos de Chaplin, versão inércia.

Depois do sorriso falsamente afetuoso, nasce a fala mansa. Um burocrata faz de tudo para evitar o conflito. Berros, só em último caso, e ainda assim quando a hierarquia lhe é favorável em absoluto. Sem riscos de ser apanhado em flagrante delito de estelionato como operário-padrão.

A fala cadenciada traduz o poder concedido. As palavras são mecânicas, próximas de um atendente de fast-food. No combo, a tríade "sanduíche-batata-refrigerante", ou seja, documentos pessoais, as taxas e a nova "velha" documentação que dá novos ares àquele número que você já é. Um novo documento, atualizado esteticamente, para confirmar que você está na lista.

Um burocrata nunca confia em você. Até porque ele não é confiável. Ele só cumpre ordens e, portanto, não pode medir consequências de seus atos. O combustível é a impessoalidade, que contradiz e confirma a frase "Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei." Burocracia é punição para quem não pertence à turma, para quem não pode dizer "você sabe com quem está falando".

O burocrata nos pune pela sua própria desorganização, travestida de mais informações inúteis que - ele mesmo sabe porque geralmente a pratica - cumprem protocolos, mas se posicionam bem distantes da verdade dos fatos. Burocratizar mascara pessoas, esconde dados e pouco representa o papel de cada envolvido no processo que levou à multiplicação da papelada.

A burocracia é a nossa forma de dizer que não acreditamos em nós mesmos, embora digamos que a culpa é sempre do outro. Pudera: vivemos num país onde a palavra vale pouco ou menos daquela registrada, carimbada e homologada no papel, que costuma nascer arquivo morto.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Tempos de luto




Marcus Vinicius Batista

Perdi uma pessoa importante em tempos recentes. Amigos perderam pessoas essenciais em suas vidas. Colegas se foram; ex-chefes, também. Todos em um mês. Quando a morte nos visita aos trancos, sem avisos, ela nos força à reflexão sem direito de escolha.

Vivemos numa época em que o luto pouco recebe atenção. Precisamos dele como instrumento de libertação, de conversa definitiva com quem se foi e, principalmente, como bússola para compreensão de um relacionamento e dos próximos passos.

O luto é retrato das contradições de um período histórico no qual nos soterramos em imagens, enquanto escapamos da serenidade das experiências. Transformamos o luto, como tudo na vida, em ato intenso, porém oco. Em vivência intensa, com olhos de quem enxerga, mas não avalia, pondera ou tenta localizar o próprio lugar diante de quem partiu. Inserimos pessoas em estantes para exibição, e não em gavetas definitivas, para que possamos abri-las.

O luto foi esmigalhado pela velocidade da vida prática. Mal suportamos os rituais de morte, que se aproximam de convenções sociais e se afastam de despedidas. Somos pressionados - e pressionamos - a chorar pelo tempo do sepultamento para depois retornamos com a cara lavada para o cotidiano que flerta com a desumanidade.

A vida segue, diz um dos bordões do momento. Vida com a ausência e a saudade sufocadas e entorpecidas na pilha de compromissos que aliviam, mas adiam o inevitável. Adiamos com burocracias o instante de um diálogo entre quem ficou e quem morreu. Adiamos as lágrimas sentidas, duras e necessárias, que deram lugar para espasmos, porém sem tempo para a dor.

O outro lado do luto se faz presente no mundo virtual. Os memoriais se multiplicam em redes sociais, numa tentativa de socializar, como uma comunidade, a dor. O luto, ato particular, se torna coletivo e - por que não? - festivo. Não cabe a mim julgar como cada um deve se manifestar, mas não posso deixar de pensar que ela, a morte, e seu rastro, o luto, viraram ingredientes do mundo do espetáculo.

O lado positivo é que, em parte, se retomou a morte como pauta. Recomeçamos a falar sobre o tema, embora de maneira breve. Conseguimos, no mundo virtual, combater com paliativos a leitura cultural da morte no século passado, que empurrava o luto e a perda para o silêncio e o tecnicismo hospitalares.

Desconfio que o luto, no sentido virtual, não representa exatamente uma experiência, mas um simulacro dela. O teclado e o monitor fingem nos proteger, seja como filtros tecnológicos, seja como a falsa ideia de anonimato e impunidade pelos discursos.

Precisamos pensar mais naqueles que se foram. Conversar com eles e sobre eles. De preferência, sem a velocidade e o pragmatismo utilitário. Este me parece ser o melhor caminho para fazermos o correto no último estágio: acertar as contas.

Se não foram acertadas em vida, que sejam agora com serenidade e sabedoria, remédios com chance de expurgar culpas e arrependimentos. O resto são placebos para, outra vez, fugirmos da morte e endeusá-la como tabu.