segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Urgente!!!




Marcus Vinicius Batista


Caro leitor, um aviso: só leia este texto se você tiver certeza de que tem tempo para ele. Perdoe-me se pareço pretensioso, mas não desejo que você destine importância para esta crônica. Desejo que você esqueça as demandas ao redor, sente-se em um local confortável e se prepare para refletir ao final destes parágrafos. Não fui eu que o fiz pensar, e sim sua própria disposição em respirar com prazer.

Ando cada vez mais incomodado com a necessidade de sermos urgentes. São demandas que reforçam nosso egocentrismo ao exigir atenção máxima para ontem. Na verdade, para o minuto anterior ao agora.

O incômodo se mistura com a convicção de que poucas situações são realmente urgentes. Calibramos os relógios para despertar o tempo todo, engolindo o discurso de que assim seremos considerados produtivos, relevantes e – aí sim a pretensão – essenciais. Na prática, a velha utopia da imortalidade, travestida da falsa modéstia de “não somos eternos, mas poderíamos ser insubstituíveis”.

Adoramos a urgência porque a transformamos em remédio paliativo para nossas ansiedades e angústias. Empurramos para o outro a responsabilidade de nos suportar como mimados que batemos o pé para que tudo se resolva no nosso tempo, jamais no tempo do outro.

Inventamos prazos, construímos cronogramas, multiplicamos metas que ruem no primeiro atraso do que é realmente humano. Adiamos o contato com nossas falhas quando impomos resultados que beiram o automatismo de uma máquina sem chance de sentir, de cair, de precisar de um intervalo. O ócio é sinônimo de culpa nessa perspectiva. Só falta pedirmos o açoite para caso de não termos nada para fazer. Melhor sangrar do que se encontrar com o próprio espelho.

Não posso mais comprar a pressão alheia por produtividade de porcelana. Não significa também dizer que só farei o que quiser. A questão talvez seja compreender o tempo próprio e colocar diante do outro a areia movediça e a miragem que representam uma urgência que apenas importa para quem a criou, para quem se escravizou pelo tempo.

Tento, diariamente, dispensar a urgência das informações que nada servem, das imagens que acariciam o narcisismo do prato recém-devorado da vida feliz, dos pedidos acompanhados de risinhos que mascaram a irritação de quem sabe – nas entrelinhas da mensagem – que sua emergência supervalorizada é conto da carochinha. Este conto é, muitas vezes, chamado de correria, mas sem linha de chegada.

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