sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Ficando velho


Marcus Vinicius Batista

Envelhecer é coisa da sua cabeça. Envelhecer é perceber que velórios e enterros ficaram mais intensos do que aniversários na agenda. Envelhecer é concluir que compramos remédios na mesma frequência com que comprávamos batatas fritas e doces em décadas passadas.

Percebo a velhice se aproximar ao pensar várias vezes no convite para jogar futebol. Dois dias de recuperação, analgésico no cardápio, dores que trazem os lances de fantasia para a realidade do corpo desobediente.

A velhice manda recado quando sair de casa vira caso diplomático. A improvisação morre. O horário, o dinheiro, o casaco, a chuva, a vida amanhã constroem a pauta que trava negociações.

A velhice sussurra quando o dane-se some do vocabulário e da atitude. Pendurar roupa no varal, comer a beterraba da dieta, espantar o açúcar ou o sal, trocar a areia da caixa do gato deixam de ser detalhes e são gravados na pedra como os Dez Mandamentos.

A velhice se assume quando o passado era melhor; o meu tempo era a melhor época; a saudade se veste como autoridade suprema sobre os julgamentos presentes. As gerações posteriores são vistas como aquelas que não sabem viver.

A velhice sobrevive no alto valor dado ao olhar dos outros, nas convenções sociais como atos de fé, na escravidão de aderir à religião do pensamento único.

Velhice é refletir primeiro sobre o que pode dar errado, os riscos e as culpas que conduzem às apostas pelo que é garantido.

A velhice é uma incerteza que se finge absoluta nos teimosos olhos de quem nunca mais teve dúvidas. Não seria melhor apostar na "maturidade de estar velho"? Pelo menos, é um conceito que jamais saberemos quando chega e só o descobrimos quando já se foi.

A maturidade é aceitar o convite para a pelada de final de semana, com a convicção de que importa é se divertir, aproveitar a resenha depois do jogo, regada a churrasco e cerveja. O placar não vale nada diante das lembranças de uma ou outra jogada que incentivará para a partida da próxima semana.

A maturidade é reunir os amigos mais próximos em casa - não aqueles do oba-oba virtual - para uma sessão de cinema, falar da vida, conversar sobre livros e pessoas interessantes, bebericar, degustar uma comidinha que não está do menu do dia-a-dia. Horário, casaco, dinheiro e chuva ficam para a lista dos chatos.

A maturidade talvez nos visite quando compreendemos que a casa é nosso melhor refúgio. Cuidar dela é essencial, principalmente para nossa saúde mental. As obrigações podem ser executadas com uma boa trilha sonora e uma conversa com quem se ama e vive a seu lado.

Estar velho é detectar os atalhos do campo. É relativizar quem te observa, quem adoraria dizer o que você deve fazer, quando e como. Convenções sociais valem para certas circunstâncias; se valer para todas, passaremos os grilhões nos tornozelos.

Estar velho é, por mais que a ranhetice grite por nossa atenção, ter uma única certeza: meu tempo é hoje e ainda há muito por fazer ou admirar, junto com as gerações anteriores a posteriores, dependendo do papel e da hora.

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