quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A rua da comida global


Você conhece esta torta de banana? 

Marcus Vinicius Batista

Qualquer prato de comida por quilo se parece com a Assembleia Geral da ONU. O sushi se senta ao lado da lasanha. A picanha conversa com a batata souté. O yakisoba se mistura com o feijão e o arroz carreteiro. Molho de ervas banha a mandioca frita, quando não o shoyu afoga o ovo de codorna.

Se vamos a uma temakeria, vemos que boa parte dos pratos fala inglês via cream cheese. Já testemunhei, com certa estranheza, a alga e o arroz acompanhadas por doritos. E, para variar o cardápio, pede-se uma porção de hot rolls de nutella e banana.

A rua Tolentino Filgueiras sustenta uma nova forma de globalização gastronômica, com os talheres cravados no tradicionalismo. A convivência é internacional, mas a demarcação é por território.

A Tolentino costuma fazer parte da minha rota entre o bairro do Boqueirão e o Gonzaga. Passo por ali por duas razões principais: trabalhos com colegas da imprensa - muitos veículos de comunicação ficam no Gonzaga - ou para comer.

A rua foi durante boa parte da infância um caminho entre minha casa - ou da minha avó - e a rua Bahia, onde estavam concentradas minhas fontes de energia. Saíamos da avenida Ana Costa - minha avó morava no prédio em cima do restaurante Beduíno -, virávamos a esquina, andávamos uma quadra e chegávamos no paraíso.

Na rua Bahia, minha avó me levava para comprar refrigerantes, chocolates, balas, chicletes e outras quinquilharias alimentícias. Era a rua onde a vizinha de minha avó, Nair, também comprava os chokitos que me dava a cada visita que fazia à amiga.

Hoje, a rua Tolentino Filgueiras é endereço a la carte, de maior permanência, e não de passagem fast-food. Não visitei todos os restaurantes da rua, mas sempre encontro alguma mudança, algum detalhe a cada caminhada rumo ao Gonzaga. Parei até para ler cardápios sem entrar no estabelecimento. Aliás, escrevendo agora que percebi: só passo pela rua no sentido de ida. Na volta, sempre tomo outro caminho, geralmente a Azevedo Sodré ou a Galeão Carvalhal.

Andando é que reparo nos restaurantes. Começo pelo chinês, que me lembra minha mulher e sua paixão por Yakisoba. Ela reclama que nunca incluo este prato no nosso menu. Dívida a ser paga. Do outro lado da calçada, minha perdição, carnes argentinas. Resisto à tentação e sigo em frente, não por moralismo religioso, mas porque o Deus-Mercado não me permite. É desejar a picanha ou o chouriço e se realizar no hambúrguer.

O hambúrguer me aproximou dos Estados Unidos nos tempos do rockabilly. É o complemento do cinema, usualmente com cebola, cheddar, molho, batata frita e Coca-Cola. A trilha roqueira, às vezes, nos empurrava para a década de 60, ainda que artificialmente como o cheddar, por sinal, de origem inglesa. As poltronas de lanchonete americana lembram o Tio Sam e protegem as costas do operariado tupi.

No outro lado da rua, o outro lado do muro da América do Norte. Gosto do Guadalupe e seus pratos mexicanos, apesar de algumas adaptações para o paladar brasileño. Ali, experimentei guacamole, mas prefiro umas batatas, que vem acompanhadas com cheddar - ele sempre - e bacon. Uma concessão à Cultura McWorld. Um brinde com tequila.

O meu endereço preferido fica em frente. A Cantina di Lucca tem o melhor nhoque da cidade. Minha barriga no quinto mês de gestação é a prova ambulante de que a experimentação foi diversificada pelos restaurantes de Santos para se alcançar um veredicto.

O nhoque à fiorentina é nosso modelo de repetição - nosso porque falo também de minha mulher, Beth -, mas já provamos pelo menos uma dúzia de molhos. Fomos, inclusive, cobaias de um experimento científico. Como professor universitário, tinha que renovar meu amor pela Ciência. Como jornalista, tinha que ser solidário ao intercâmbio cultural entre França e Brasil, que pousou na nossa mesa, materializado no petit gateau de goiabada e sorvete de coco.

O nhoque costumava ser nosso ritual mensal para refeições na rua Tolentino Filgueiras. A crise econômica, ré para todos os julgamentos do momento, aumentou um pouco os intervalos entre nossas visitas.

Independentemente do restaurante que frequentamos, a sobremesa que nos atrai por hipnose está do outro lado da avenida Ana Costa. Globalizados ou não, nesta hora prevalece a brasilidade digna de um livro de Darcy Ribeiro. Na lanchonete com nome de cidade espanhola, nasce a melhor torta de banana que já comi.

Eu e Beth nos sentamos nos balcões do Sevilha para renovar nossos votos gastronômicos com a torta de banana, uma receita de família que faz a minha família salivar. Recentemente, arrumei uma desculpa e fui até lá para o almoço. A refeição seria rápida, pequena, que nos poupasse física e mentalmente para a torta.

Descobri, sem querer, que o mistinho deles também é o melhor que já devorei em Santos. Desisti da vitamina, troquei o almoço pelo lanche em definitivo. Dois mistinhos depois me fizeram dizer até breve para a torta de banana. Neste caso, não houve estômago que sustentasse um amor antigo e uma nova paixão. Mentira, a torta sempre nos acompanha até em casa.

Obs.: Texto publicado, originalmente, no site Juicy Santos, em 13 de outubro de 2015. 

Um comentário:

Carlos Gama disse...

Despertou o meu apetite.
Acho que vou até o Gonzaga, mesmo com chuva.